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segunda-feira, 26 de maio de 2014

2014 Promete...


C r ô n i c a escrita em fevereiro 2014 e “Censurada” pelo Jornal com o qual colaborava há anos e que foi “abduzido” por um Partido Político...

                                               “2014 promete...”                  

Uma das fontes de inspiração de quem se dedica a escrever crônicas, é ouvir conversas de pessoas desconhecidas, em lugares públicos.  Assim é que, há dias, em uma lanchonete, ouvi a instigante frase de um dos jovens que ocupavam uma mesa próxima: “Pois é, “véi”, 2014 promete!”. Uma voz feminina se fez ouvir: “Verdade, mas...” e, infelizmente, o papo promissor se interrompeu, com a chegada da garçonete: “Querem fazer o pedido agora?”.  Para minha frustração, eles queriam, sim – afinal é para isso que se vai a uma lanchonete, não?

Durante alguns minutos, apurei os ouvidos na esperança de que a conversa retomasse seu rumo, mas qual(!), a turma já “sacara” seus Iphones/Ipods/Smarths, sei lá mais o quê e o diálogo(?)  assumiu uma linguagem um tanto codificada: - “Oh isso, mano!”. – “Demorô!”... e as frases e risadas soltas, entremeadas por termos em inglês e “internautês” – só inteligíveis aos iniciados – tiveram o condão de fazer com que eu me recolhesse às minhas próprias reflexões, reprimindo a vontade de me aproximar e fazê-los retomar o assunto.

“É nisso que dá ficar ouvindo a conversa alheia”, brincou minha nobre conselheira Dª Nena. – “Você não percebe que eles me inspiraram?” retruquei, indignada com sua risadinha de quem parece estar pensando: “Ponha-se no seu lugar, mulher!”. O fato é que a simples expressão “Verdade, mas...”,  emitida pela jovem, soou como música a meus ouvidos, pois estou certa de que ela, se instada a falar - como, aliás, a maioria dos adolescentes, em que pese sua linguagem cifrada – nos ajudaria a repensar alguns dos tantos temas candentes a serem enfrentados pelos cidadãos e cidadãs brasileiras, neste Ano da Graça de 2014.

A grande questão é que 2014 é um ano decisivo e promete, sim, mas promete o quê, exatamente? Acredito que a resposta mais plausível a essa importante questão, proposta por jovens aparentemente desconectados da realidade social, seria: “Depende de mim, de você que me lê, de todos nós, brasileiros e brasileiras. Depende da nossa consciência e atitude”. Aproveito para lembrar, já que estamos em “Ano de Copa”, que já é hora de deixarmos de lado, por exemplo, o velho “complexo de vira-latas” (para usar a expressão criada por Nelson Rodrigues, exatamente a respeito do futebol) atitude que já começa a se tornar piada na imprensa estrangeira.  Será que é isso que queremos?

Enfim, aproveito para lembrar que é também “Ano de Eleições”, o que requer o exercício consciente de nossa responsabilidade para o futuro do país e que já é hora de pensarmos por nós mesmos, sem nos deixarmos levar pelos ‘maucaratistas’ de plantão (ou, se preferirem, pelos ‘arautos do caos’), sempre prontos a denegrir iniciativas sociais que vêm recebendo aplausos e sendo, literalmente, copiadas e implantadas mundo a fora. É preciso que nos cuidemos, para não sermos inocentes úteis, nas mãos daqueles que venderiam a própria mãe, a alma, o país, em sua ânsia pelo Poder.
 

sábado, 22 de março de 2014

Minha mãe dizia


                               Minha Mãe dizia

 

Hoje acordei com a lembrança insistente de um dos provérbios que ouvi à exaustão quando era jovem: “Quem não se enfeita, por si se enjeita”.  Como sempre faço quando algo se me apresenta à reflexão, fiquei tentando extrair algum sentido, não dos “ensinamentos” que o ditado poderia (ou não) conter, mas do fato de (man)tê-lo como pano de fundo durante parte da manhã - como aquelas músicas que, de repente, se instalam em nossa mente a (nos fazer) cantarolar por horas a fio.

Ditos populares, a meu ver, nem sempre são tão ingênuos ou, se preferirem, simplórios, quanto as pessoas que os repetem a torto e a direito.  Por outro lado, nem sempre contêm a sabedoria apregoada por nossos antepassados.  Em outras palavras, eu diria que provérbios são como os livros de auto-ajuda: uma bengala para aqueles cujos pensamentos capengam por falta de uso, mas que – até por isso mesmo -, não deixam de ter alguma utilidade.

Uma das questões mais perversas desses bordões é que suas receitas, em geral, incluem dentre seus ingredientes ‘generosas’ doses de preconceito adocicadas com algumas colheradas de mel de suspeita qualidade: a ‘pretensa’ sabedoria neles contidas. Não posso imaginar, por exemplo, uma mãe repetindo o provérbio em questão a seu filho adolescente. Ao contrário, provavelmente, como ouvi recentemente de uma mãe “zelosa de seus deveres”, ela diria: “Troca essa bermuda toda amassada, rapaz! Vão pensar que você não tem mãe (pra cuidar de suas roupas)”.

Às meninas é incutida a ideia de que precisam se enfeitar para serem aceitas, até por si mesmas.  Os meninos, ao contrário, são aceitos pelo simples fato pertencerem ao sexo masculino, ou melhor, serem “homens com H maiúsculo”, pois se não o forem, dá-lhe provérbios, piadas e toda sorte de discriminações quiçá mais violentas que as reservadas às mulheres...

O fato é que, feliz ou infelizmente, cresci ao som de ditados, nos quais minha mãe, em sua santa ingenuidade de órfã precoce, sempre foi pródiga. Contestadora, às vezes eu reagia à ‘lição’ e era colocada “de castigo” pelo desrespeito, sentada em um banquinho (até confortável, diga-se de passagem), para pensar “sobre tudo isso”!?.  E eu pensava mesmo!  Pensava tanto que me habituei a refletir a respeito de tudo que ouço-leio-vejo-sinto, embora não seja muito afeita a sentar em banquinhos... Pensava tanto, que não via o tempo passar e, até hoje me entrego com prazer a essa espécie de “solitude criativa”.

Enfim, acredito válido considerar a lembrança da ‘máxima’ em questão, como uma sincronicidade, o que me levou a conceber uma nova série em meus escritos, a que intitularei “Minha mãe dizia”.  Embora meu baú de relíquias da espécie “ditos populares” esteja razoavelmente sortido, as sugestões dos amigos e amigas com certeza mais o enriquecerá.

Namastê!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Exortação para a Paz


                                               Exortação para a Paz

 

                                                                                                                                                      Suzete Carvalho*

 

Em célebre discurso na Assembléia das Nações Unidas, José Mujica, Presidente do Uruguai, referiu-se a uma das mais famosas assertivas de Einstein: “Não há maior absurdo do que querer mudar os resultados repetindo sempre a mesma fórmula”.  Refletindo a respeito dessa sábia afirmação, me ocorreu que nem sempre nos apercebemos do quanto somos repetitivos, seja em nossas palavras, seja em nossas ações.

De alguma maneira, o dizer científico de Einstein se encontra com a sabedoria arquimilenar de algumas religiões, como o hinduísmo, o budismo e o próprio cristianismo, que utilizam os mantras como fórmulas que, de tanto serem repetidas, se aninham em nossos corações e nossas mentes, influenciando nossa forma de ser e de estar no mundo.

Como lembra minha conselheira Dª Nena, diante desses ensinamentos é necessário que fiquemos alertas a respeito do uso da palavra ‘violência’ que vem sendo repetida à exaustão, a ponto de se impregnar inclusive em nossas emoções e corromper nossos relacionamentos. Amplificado pela mídia, o medo nos coloca em um neurótico ‘estado de atenção’, que nos faz reagir a qualquer movimento que nos pareça estranho.

Por outro lado, em que pese seu lado consumista, consola-nos saber que ainda há esperança de reverter esse quadro: as festas de fim de ano, especialmente as natalinas, tiveram o condão de fortalecer a palavra ‘Paz’, a mais enunciada nos votos reciprocamente trocados ente familiares e amigos(as), numa espécie de clamor oriundo do mais profundo de nosso ser que encontrou eco mundo afora, com a rapidez de um raio, ainda que virtualmente.

Embora a afirmação possa parecer absurda às pessoas que não militam nas Redes Sociais, testemunhei pessoalmente essa ‘força’ quando, ao postar à Zero Hora do dia primeiro do ano uma foto em que fazia um pequeno ritual pela Paz no Mundo ao lado de minhas netas, fui contemplada em poucos minutos com o ‘retorno’ (por via de ‘curtidas’ ou comentários),  de amigos(as) residentes ou em viagem de férias, em várias partes do planeta como, entre outros(as), Bibhu Prasad, nepalense que reside em Dubai e Jô Ramos, jornalista carioca em passagem por Paris de onde segue para Lisboa em seu mister de divulgar o trabalho de  escritores e escritoras brasileiras .

Enfim, possamos nós fazer em 2014 uma verdadeira “exortação à Paz”, como propôs em comentário à minha postagem, o arquivologista carioca, pesquisador de Cultura, Religião e Movimentos Sociais, Glauco Rocha, adotando-a como um verdadeiro mantra ou, se preferirem, como a fórmula a ser repetida e repetida até que se instale em nós de forma a fazer com que “sejamos nós a paz que desejamos ao mundo”. Enfim, para usar as palavras do  Dalai Lama em sua Mensagem de Ano Novo, enviada de Karnataka, na Índia: “...tentar criar a paz interior em primeiro lugar dentro de nós e em seguida, compartilhar com outras pessoas para construir um ano feliz”.

 

*A autora escreve neste espaço toda segunda sexta-feira do mês.  

Publ. no Jornal “Gazeta do Ipiranga” nº 2828, 10/01/2014, pág. C-6.

 

  

 

   

 

 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

De começos e Recomeços


Crônica 

De Começos e Recomeços

 

                                                                                                         Suzete Carvalho

 

Diz a Filosofia Budista, que a lei da impermanência, ou se preferirem, da transformação, é a única verdade que os seres humanos realmente podem conhecer e à qual estão inexoravelmente atrelados.  O tempo passa (ou nós passamos por ele), com a rapidez de um raio.  Assim, lá vamos nós outra vez encarar um Novo Ano que, acreditamos, terá o condão de, por si só, ser melhor, mais próspero e auspicioso do que o presente.

Esquecidos de que devemos valorizar e dar graças às boas experiências vivenciadas, nos lançamos ao novo tempo com a avidez de um lobo faminto.  Esquecemos que somente somos o que somos ou temos o que temos, porque alguém criou, começou, trabalhou para que as coisas fossem como são, ainda que esse alguém tenhamos sido nós próprios, e que não há como recomeçar sem levar conosco esse lastro de entrega e doação que recebemos como dádiva.

Ainda que Aristóteles não nos houvesse deixado a reflexão, sabemos, instintivamente, que o ser humano é um “animal político”.  Político e gregário, ou seja, queiramos ou não, necessitamos e dependemos de outras pessoas, para que possamos sobreviver com um mínimo de dignidade. E a questão política, como lembra bem a tempo e a propósito, minha Conselheira Dª Nena, nos leva à complexa questão do Poder.

“Poder” que sempre acreditamos saber exercer melhor do que aqueles que o detêm, seja no âmbito familiar, ou institucional, onde se enquadram as organizações de todas as espécies, seja no mundo político propriamente dito, nacional ou internacional.  Parafraseando o antigo ditado popular, hoje “de político e de louco, cada um tem um pouco”, o que nos leva ao tema inicial, já que o próximo ano será pródigo em recomeços políticos, cujo sucesso (ou retrocesso) dependerá de todos(as) e de cada um(a) de nós, independente do envolvimento direto que tenhamos com o poder.

Enfim, espero que as necessárias transformações que todo recomeço comporta, nos encontrem conscientizados de nossas próprias fraquezas e grandezas e, portanto, aptos a fazer a nossa parte,  levando como ponto de partida (do ano que se vai) ou de entrada (de um novo tempo) as sementes plantadas e cultivadas por nossos antecessores, que estejam dando bons frutos.  Feliz Ano Novo à comunidade ypiranguista e à sociedade como um todo, nas quais tenho a felicidade de estar incluída. 

*A autora é pós-graduada em Jusfilosofia e Mestre em Direito pela USP. Ex-Diretora Cultural do CAY é também patrona da Biblioteca-Centro de Estudos.
 
Publ. in Revista do Ypiranga, set/dez/2013, pág. 27 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

De laços e nós


DE LAÇOS E NÓS

                                                                              Suzete Carvalho*

Sempre imagino organizações como a AFPESP – que adotam a nobre missão de “servir” - como um colar trabalhado artesanalmente na mais fina filigrana, onde cada elo se une, delicada, mas firmemente, ao outro.  Mais antiga a joia, maior o valor agregado pelos cuidados em mantê-la íntegra, pelo incansável zelo daqueles a quem compete preservá-la, seja por função de ofício, seja pela opção generosa de doar-se voluntariamente.

Há que convir, entretanto, que toda corrente – sim, é disso que estamos tratando: uma corrente de solidariedade – corre o risco de se enroscar se não a mantivermos aberta (ao diálogo), livre para desempenhar seu precípuo papel (de ligação) e, principalmente, se não nos dispusermos a respeitar e aceitar as sutis diferenças entre as partes que compõem todo trabalho artístico.

Desatar nós e criar laços, essa a verdadeira e difícil arte do relacionar-se.  Não por outro motivo, antigas culturas da polinésia cultivavam um ritual pré-nupcial, no qual as mulheres deviam desfazer nós muito elaborados, como metáfora para os problemas a enfrentar. Já, quanto aos laços, requerem muita ‘coordenação’, haja vista a dificuldade que as crianças têm para aprender a ‘amarrar’ os cordões de seus próprios tênis e sapatos. 

Posta a questão de forma mais objetiva, poder-se-ia dizer que toda organização, em especial aquelas cujos estatutos adotam o sistema de trabalho voluntário para dirigentes e conselheiros, para que possa cumprir com fidelidade suas funções, a par de ser coordenada com competência, necessita solidariedade e desprendimento por parte dos membros que a compõem, vale dizer, apoio mútuo, pois somente dessa forma manterá sua integridade.

Enfim, considerando que estamos sob o signo do Natal, como lembra minha sábia conselheira Dª Nena, espero que consigamos nos despir de nossas vaidades, oferecendo a todos, associados e companheiros, o melhor que há em cada um(a) de nós, ornamentado com o mais belo e colorido laço (de união) que nossa arte pessoal – embora tão diversificada - nos permita.

*A autora é associada da AFPESP, ex-professora universitária, ex-presidente de Associação de Classe e tem centenas de matérias publicadas. Pós-graduada em Filosofia do Direito e Direito do Trabalho (USP). http://novaeleusis.blogspot.com

**Publ.in Folha do Servidor Público, dez/2013, pág.21.

 

 

 

 

 

sábado, 14 de dezembro de 2013

A Idade Apura a Visão


COLUNA DA SUZETE
                                               A Idade Apura a Visão
                                                                                                                                                   Suzete Carvalho*

Há algumas décadas, ao visitar as Cataratas do Iguaçu, fui tomada de súbita emoção ao imaginá-las como um apelo da Natureza, a jorrar lágrimas torrenciais, premonitórias das (in)consequências da sistemática e desmedida ambição humana que pode levar a verdadeiros cataclismos. Em socorro à tristeza que já me ia invadindo ao escrever essas linhas, literalmente ‘cai em minhas mãos’ o “Poema ao rio Iguaçu” do multifacetado artista Solivan Brugnara (fotógrafo/escultor/poeta) do qual tomo a liberdade de transcrever os dois versos finais: “/mas tua rosa flor branca/abre-se em Foz do Iguaçu”.

Acredito que caiba aqui lembrar que a palavra ‘catarata’ vem do grego katarkaktes (kata, para baixo) e arkattein (golpear forte). Já ‘cataclismo’ vem de kata e klysein, ‘lavar, inundar’, significando grande desastre, convulsão social ou de terreno, inundação.  Minha conselheira Dª Nena, não perde o momento para me chamar às falas: “Pensei que você fosse falar em poesia e você me sai com etimologia? O que, afinal, tudo isso tem a ver com o tema que você elegeu para a crônica?”. 

- “Assim, você me faz perder o encadeamento das ideias”, reclamo, mas por via das dúvidas, vou direto ao ponto, ou seja, tentar entender porque o passar do tempo nos leva a ir perdendo (deixando cair) nossa capacidade de enxergar (‘catarata’, como opacidade da lente do olho). Se o termo ‘queda’ fosse levado ao pé da letra, poderíamos pensar na atração exercida pela Lei da gravidade, mas, claro!, esse não é o caso. Estaria então, nosso corpo (já que não há como separá-lo da mente), tentando ‘não ver’ a dolorosa realidade que, de alguma forma, ajudamos a construir? 

Bom é lembrar, porém, que a catarata (ocular) não somente é reversível, como também que as lentes implantadas nessa cirurgia, ajudam os pacientes a enxergar melhor do que antes da patologia, além de, segundo minha oftalmologista, protegerem contra um eventual avanço de uma outra doença oftalmológica séria: o glaucoma.  Vale dizer que, se ‘encararmos’ o fato de que sempre nos é dada a oportunidade de ‘ver com outros olhos’ a realidade, poderemos utilizar os avanços tecnológicos como alavanca para ‘depurar’ nossa visão de mundo e, como o poeta, vislumbrar a “rosa flor branca” da Paz que se abre à foz desse caudaloso rio que atravessamos.

Enfim, fico pensando que alguns que se acreditam políticos e tentam deformar a realidade que o Brasil atravessa, talvez devessem presentear a si mesmos com uma cirurgia de catarata, aproveitando o período de Natividade para fazer ‘renascer’ (apurar) sua visão e dar Graças por tantas bênçãos recebidas.

*A autora escreve neste espaço toda segunda sexta-feira do mês. 

**A ilustração é de Danilo Marques, cujos trabalhos estão disponíveis na pág. ILUSTRADOR DANILO MARQUES do facebook e no site www.danilomarques.com.br

Publ. in Gazeta do Ipiranga, 13/12/2013, Cad. A-4

 

   

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Sobre máscaras e más caras


                                               Sobre máscaras e más caras

 

                                                                                                                   Suzete Carvalho*

 

Há mais de uma década, escrevi uma crônica sob o título “Máscaras de Si”, publicada em outro periódico, na qual eu dizia que “as pessoas são interessantíssimas. Máscaras, de fato, de si e para si mesmas.” Hoje, assistindo a um vídeo sobre a violência de alguns mascarados infiltrados em manifestações legítimas para tentar desestabilizar a ordem democrática, retomo o tema.  

Preocupada com o rumo que a crônica vai tomando, minha conselheira Dª Nena trata de me alertar: “Não diga que você vai enveredar pela política. Não é do seu feitio.” – “Agora te peguei, minha cara: “O ser humano é um animal político e, aliás, é basicamente isso que o diferencia dos irracionais. Mas o assunto que me move hoje são as máscaras de que, queiramos ou não, cada um(a) de nós se utiliza no dia a dia como mecanismo de defesa ou, principalmente, de ataque.” 

Por uma dessas “coincidências significativas” que Jung denominou sincronicidades, nesta altura da crônica recebo via facebook o poema “Striptease”, de autoria da inspiradíssima Zélia Guardiano: “Desnudar a alma/ Deixá-la nua/ Em pelo/ Em pleno palco/ No meio do mundo/ Onde/ Qualquer nobre/ Ou/ Qualquer vagabundo/ Pudesse vê-la// Mostrar as vergonhas:/  Excessos/ Faltas/ Rugas/ Asperezas// Quem será tão artista?”.

Sim, poeta, é por isso que usamos máscaras quando nos apresentamos no teatro da vida! Artistas medíocres que somos, não ousamos desnudar nossas “vergonhas” ante a plateia – seja ela externa ou interna -, por medo de não sermos aceitos, já que não nos aceitamos a nós próprios(as). Adotamos uma máscara que a todos confunde e a incorporamos de tal forma que passamos, qual Narciso(s), a acreditar na imagem refletida no lago de nossas emoções. 

Já que o “espetáculo” não pode parar, nossa arte maior consiste em camuflar a realidade e apresentá-la de forma a preencher nossos interesses ou, se preferirem, nossos egos. Esse o lado perverso da vida de alguns políticos ultrapassados, que fazem de suas tribunas – inclusive a midiática - um palco de projeções de suas próprias mal-dissimuladas “ru(s)gas” e mazelas, sua cobiça e inveja, seu medo de perder o status e ser lançado ao ostracismo.

 

*Suzete Carvalho escreve neste espaço toda segunda sexta-feira do mês. Alguns de seus escritos em prosa e verso podem ser acessados e comentados no facebook e no blog www.novaeleusis.blogspot.com

**Publicado no Jornal “Gazeta do Ipiranga”, 08/11/2013, pág. A-3.

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Caixa livre


                                                               Caixa livre 

 

                                                                                                                                                      Suzete Carvalho*

                                                              

Semana passada, em dúvida entre dois temas para a crônica, acatei (com um pouco de má-vontade, confesso) a sugestão de minha sempre atenta conselheira Dª Nena: “Às vezes, uma simples voltinha no quarteirão pode ser inspiradora”.  Já estava contestando sua sabedoria, pois nada de novo me ocorrera nesse passeio forçado, quando não resisti ao chamamento de um irresistível aroma...  Sim, feliz ou infelizmente, eu moro próximo a uma dessas incríveis padarias que enriquecem ainda mais nossa região, com suas cores, aromas e sabores. 

Como o local estava lotado, optei por um pão de cenoura previamente embalado e estava tentando visualizar a data de vencimento, quando um senhor pegou um dos pacotes mais ao fundo da prateleira e me ofereceu, dizendo: “Este está bem fresquinho”. Antes que eu tivesse tempo para agradecer a gentileza, ele acrescentou com um sorriso: “Conheço você de algum lugar” e me olhou com alguma insistência enquanto nos dirigíamos à fila do caixa. 

“Já sei”, disse ele tão subitamente que me fez dar um passo atrás, “você tem uma Coluna na Gazeta! Reconheci por causa da foto”. Refeita do susto, respondi rindo: - “Você acaba de levantar meu moral, pois a foto que sai na Coluna da Suzete faz parte do arquivo do Jornal há mais de uma década. Ando até pensando em substituí-la pela caricatura feita pelo parceiro que tem ilustrado minhas crônicas”, respondi rindo. 

– “Percebi que você se assustou quando comecei a falar, então, vou tomar a liberdade de sugerir que, em uma de suas próximas crônicas, você escreva sobre o medo. Talvez seu parceiro...”.  – “Danilo Marques”. –  “Isso! Lembro de ter lido o nome dele. A caricatura deve ter ficado ótima, mas o que eu ia dizer é que o Danilo poderia fazer uma interessante ilustração sobre esse medo que a gente tem até da própria sombra, não é mesmo?”.

Envolvidos com a conversa, não nos demos conta de que a ‘mocinha do caixa’ proclamava alto:   “Caixa livre!!!”, até sermos alertados um tanto agressivamente por um empurrão de alguém afobado: - “Fila não é lugar pra bater papo” e, virando-se para o companheiro: “Esses velhos não têm o que fazer e ficam atrapalhando o caminho da gente”.  Sem maiores despedidas, tratei de pagar a conta e acenei para o senhor, cujo nome, infelizmente, não fiquei sabendo. Pretendendo me desculpar por “atrapalhar o caminho”, ainda olhei na direção da pessoa que nos empurrara, mas recebi um desagradável gesto de enfado.

Meu novo amigo aproveitou a ‘deixa’ para fazer mais uma sugestão, também em alto e muito bom som: - “Aproveite e escreva também sobre agressividade”.  Voltei para casa agradecendo a oportunidade de, em menos de meia hora, haver ganhado um amigo, novas experiências, muitas ideias para (re)trabalhar em meus escritos e até por ter conseguido não me sentir agredida por pessoas preconceituosas.  

 

*A autora escreve neste espaço toda segunda sexta-feira do mês.       

Publ.in Gazeta do Ipiranga, 11/10/2013, Cad.B-5.

 

 

 

    

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Salomé e os ruídos de comunicação

Nos últimos tempos, tenho tido a felicidade de contar, em quase todas as minhas crônicas para a Gazeta do Ipiranga, com a importante parceria do ilustrador/caricaturista Danilo Marques. Eu escrevo e ele, generosamente, ilustra.  Hoje, celebramos um novo desafio, invertendo a situação: ele mandou a imagem e eu tentei (re)desenhar sua arte em palavras.  Espero haver conseguido.
O fato é que as imagens, assim como os aromas, têm o condão de ativar nossa memória, trazendo ao novo contexto antigas experiências que nos marcaram, algumas alegres e até engraçadas, outras mais tristes ou até mesmo dolorosas. Neste caso, a visão de alguém indignado “gritando” ao celular (imagem tão atual) me fez viajar a um tempo em que, dar um simples telefonema era uma verdadeira epopeia.
Acredito que muitos homens e mulheres do Ipiranga estarão lembrados de que até 1955 poucas pessoas da região tinham o privilégio de possuir um telefone residencial.  Quando, naquele ano, a Telefônica finalmente estendeu novas linhas à Região, desencadeou verdadeira euforia, inclusive por parte dos jovens de ambos os sexos, até então relegados à comunicação oral.
Numa época em que “ficar” – em especial para as adolescentes - significava “ficar em casa” sob os olhares zelosos das mães, sujeitas ainda a uma legislação que as considerava “semi-capazes” para os atos da vida civil e, portanto, sempre preocupadas com o que os outros iriam pensar, o acesso à telefonia soava como uma espécie de libertação das amarras (ou, se preferirem, “correntes”) que as atavam a uma cultura tradicional e androcêntrica. Ledo engano...
Antes que minha conselheira Dª Nena intervenha, dizendo que eu estou divagando, passo aos fatos objeto da crônica.  Pois bem, foi exatamente naquele ano que eu, que acabara de completar quinze anos e aquele que veio a ser marido (então com vinte), começamos a “namorar escondido”, com encontros ocasionais à saída da escola e uma ou outra “escapadela” para uma rápida conversa numa esquina próxima.
Por uma dessas coincidências que dão mais sabor à vida, nossas linhas telefônicas foram instaladas no mesmo dia e, de imediato, decoramos os números respectivos, prometendo que a primeira ligação seria “nossa”.  No auge do entusiasmo com a novidade, corri para a casa de minha - até hoje - amiga Clara, que também havia sido contemplada com uma linha telefônica e disquei (sim, a gente “discava” os números, comprometendo a vitalidade das unhas) o número que primeiro havia decorado.

- “Por gentileza, o João está?”.  Uma voz que me soou conhecida, retrucou: “Ah, então o nome dele é João!”.  – “Desculpe, foi engano”, foi a única coisa que me ocorreu dizer, antes de desligar com o coração aos pulos, pois a voz era, como já devem ter percebido... de minha mãe! Sim, eu ligara para a minha própria casa e, literalmente, entregara nossa cabeça numa bandeja, a minha e a de João Baptista.

Opressão pela linguagem

“A muitas pessoas pode passar despercebido, dado nosso condicionamento cultural, mas a mim me incomoda ver repetidas à exaustão, entre outras, frases como “Um país se faz com homens e livros”, escritas num contexto social fortemente androcêntrico e racista, em que às mulheres – ainda que alçadas a “importantes” personagens de romances e histórias infantis -   cabia o papel exclusivo de cuidarem da casa, de seu “senhor” e suas crianças. Às Anastácias, duplamente discriminadas, competia meramente servir às famílias de “bem”, ou, se preferirem, de “bens”.
Nada contra nosso grande escritor, muito ao contrário – até porque minha infância foi marcada pelas deliciosas reinações que o mais famoso Sítio literário do Brasil nos oferecia -, mas há que considerar que hoje vivemos um novo contexto social que, (re)tirando as mulheres do âmbito privado e do papel exclusivo de cuidadoras, santas ou prostitutas, começa a alçá-las, como às demais “ditas” minorias, a co-partícipes de fato e de direito de seus próprios destinos e, por consequência, dos destinos do país.  Hoje sabemos, pois, que a sociedade é bem mais complexa do que uma linguagem ultrapassada pode comportar.
Assim, acredito que, se nos propusermos a substituir a palavra “homem” pela palavra “pessoa”, toda vez que nos referirmos aos seres humanos em geral, conseguiremos paulatinamente amenizar uma das injustiças sócio-culturais mais potentes dos últimos milênios: a opressão pela linguagem.  Por outro lado, livros são, sim, necessários à nossa formação – eu mesma me considero um bicho-de-livro desde sempre - , mas conhecimento teórico já não é suficiente para dar conta das profundas desigualdades sociais que a cultura excludente gerou.
Já não nos basta repetir mântrica e aleatoriamente frases de pressuposta sabedoria das “autoridades” eleitas pelos donos do Poder, seja ele político, econômico ou literário.  Ler, sim, sempre, mas procurar agir conscientemente em prol de uma efetiva cidadania para todas as pessoas, participando na medida do possível de movimentos sociais, usando uma linguagem inclusiva e, portanto, menos androcêntrica, seria um passo importante para combater o analfabetismo funcional, midiático e ideológico, colaborando efetivamente para a implantação da Cultura de Paz que tanto almejamos.”


sc/ 26/08/2013

sexta-feira, 9 de agosto de 2013


                                               A hora é agora

 

Há milênios o ser humano se reconhece como animal gregário por excelência (Aristóteles dizia “animal político”), mas o espaço público nem sempre pertenceu a todas as pessoas, ou melhor, até recentemente, os espaços públicos eram privilegiados, já que seu acesso era negado – e o é, ainda, em várias partes do mundo - a grande parte da população: as chamadas minorias que, se somadas, totalizam a maioria arrasadora dos seres humanos.

Hoje, em que pesem as conhecidas exclusões, homens e mulheres “ganharam” as ruas em várias partes do mundo, como locais apropriados a toda forma de expressão política. Assim, a  cidadania vem ganhando progressivamente um status nunca visto, apoiada agora por caminhos jamais sonhados ou, como dizia o poeta, por “mares nunca dantes navegados” - os espaços virtuais, com suas Redes que acatam todos os clamores e ideologias, sem exceção, acabando por estabelecer um debate.

É bem verdade que todas as pessoas que se dignarem ler esta crônica, sabem que esses espaços são vigiados – oh, a premonição de George Orwell que, com seu “1984” antecipou o Grande Irmão (Big Brother)! -, mas, a inteligência coletiva sempre encontrará formas de driblar o “Olho que (acredita) tudo vê” e se expandir a ponto de transformar o debate em diálogo, pressuposto necessário da liberdade. 

O que quero dizer é que, ainda que à revelia de fanáticos e manipuladores, a tendência mundial é a de uma democratização (e uso essa expressão à falta de uma melhor, que com certeza surgirá) sem precedentes de todos os espaços públicos, inclusive os da grande mídia que, atordoada ante a força das vozes sociais, se vê forçada a mudar o tom, inclinando-se ainda que com certa timidez por ora, a esse novo Poder que, se bem usado, terá o condão de reverter valores distorcidos pelos sempiternos donos do Poder, seja androcêntrico ou político-ideológico, seja religioso, seja a mais perversa das dominações porque mantém a fome no mundo: o Poder de Mercado.

Sim, minha experiência de mais de seis décadas de observação, me faz crer que esta é a hora e a vez dos grupos excluídos, sejam as mulheres antes confinadas ao espaço privado ou os idosos a seus aposentos (daí o nome “aposentados); sejam as pessoas cujo nível de pobreza as levaram a serem contempladas com a chamada bolsa-família – como um primeiro passo para a inclusão social – como é o caso também das cotas para indígenas e afro-descendentes; sejam, enfim, todos os homens e mulheres que não se “enquadram” nas arcaicas e pré-determinadas concepções comportamentais que lhe têm sido impostas desde sempre.

Algumas pessoas, mais místicas, dirão que essa é a consciência da Nova Era. Outras,mais racionais, que isso é pura utopia, mas, como o Educador Paulo Freire, acredito que toda utopia é uma “esperança revolucionária”, aquela esperança que nos faz ir pacífica e persistentemente à luta (ou às ruas e às redes sociais), na certeza de que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.  Enfim, nas palavras de mestre Eckhart Tolle: “A hora é agora. O que mais existe?”.

*Publ. na “Coluna da Suzete” do JornalGazeta do Ipiranga”, hoje (09/08/2013), Cad. A-5.

quinta-feira, 23 de maio de 2013


 

 

XEQUE-MATE

 

                                                                      Suzete Carvalho*

 

Como toda escritora que se preza, procuro manter olhos e ouvidos bem abertos e, na medida do possível, a boca fechada, ainda que não me rodeiem mosquitos.  A propósito, só pra não perder o mote, é bom lembrar que nós, ypiranguistas, teremos que redobrar os cuidados, pois a dengue está aí a nos rondar, pronta para o ataque.  Mosquitos à parte, o fato é que, eventualmente, sou brindada com alguns insights mais (do meu ponto de vista) ou menos (do ponto de vista da crítica de plantão) interessantes.

 

Consideradas as palavras acima como mero preâmbulo, o que quero dizer é que a(o) observador(a) mais atento, toda reunião de pessoas com objetivos “pretensamente” comuns, seja em encontros de trabalho, de lazer ou até mesmo familiares, acaba se revelando como um microcosmo que reflete as mazelas – e as alegrias, porque não dizer - da sociedade como um todo.

 

Assim, por conta da fidelidade a compromissos sócio-familiares - e quem não os tem -, tenho participado necessariamente de discussões, debates ou diálogos (como prefiro chamar esses encontros) que me permitem filosofar, inclusive nas redes sociais, sobre nossos papéis nos diferentes contextos relacionais e as máscaras que utilizamos para desempenhá-los. O tema me é tão caro, que já há mais de dez anos publiquei por aqui – Rev.nº 116, mai/jun/2002 – uma crônica intitulada “Máscaras de Si”.

 

Peões e peoas despreparados que somos neste descomunal jogo de xadrez em que transformamos a vida, movemos nossos egos (ou por eles somos movidos) em busca do xeque-mate – meta suprema de todo jogador -, medindo “forças” com o pretenso adversário, sem nos darmos conta de que o outro é apenas um(a) parceiro(a) e de que o objetivo do jogo é o aprimoramento de nossas relações pessoais e comunitárias.

 

Abrir caminho para a vitória “comendo” peças que possam tornar-se empecilhos, tocaiar o inimigo, excluí-lo sempre que possível, nos causam verdadeiro frenesi nessa ânsia desenfreada pela dominação.  Humilhar o Rei – aquele em quem projetamos poderes imaginários -, subjugando-o e o fazendo dobrar-se ante todos é o supremo delírio a inflar nossos egos.

 

 

*A autora é pós-graduada em Jusfilosofia e Mestre em Direito do Trabalho pela USP. Ex-Diretora Cultural do Cay, é também patrona da Biblioteca-Centro de Estudos e seus demais escritos podem ser acessados no Facebook e no blog www.novaeleusis.blogspot.com .   

 

Publ. in Revista do Ypiranga, mar/abril/2013, pág. 13.     

 

 

sexta-feira, 10 de maio de 2013


COLUNA DA SUZETE

                                                               Noêmia                                                                                     

 

Sempre dei muita importância aos sonhos que, se bem analisados, em geral apontam um caminho para entendermos alguma questão que está a pedir nossa atenção, já que acredito que o subconsciente não se faz de rogado se a ele entregarmos humildemente nossas preocupações.   Sabe-se inclusive que em algumas culturas xamânicas há uma espécie de ritual matutino em que os membros da família se dedicam a ouvir e trocar ideias sobre seus sonhos, antes de se entregarem às ocupações do dia.

Pois bem, noite dessas sonhei com Noêmia e, ao acordar, lembrei que havia deitado pensando que o prazo para escrever a crônica de Maio estava se esgotando.  Maio, mês cujas principais celebrações – Dia do Trabalhador, das Mães, da Libertação da Escravatura - se bem consideradas, nos remetem a um tema que transcende a própria sobrevivência: o direito à igualdade de oportunidades e de dignidade no trabalho, no lar, na sociedade.

Tentando interpretar o sonho, no qual Noêmia tentava agredir um juiz, lembrei de como a conheci, na década de 70. Servidora Pública durante o dia, estudando à noite, dona de casa e mãe, eu estava à beira de um estresse quando alguém recomendou que eu contratasse Noêmia: “Olha, dona, eu lavo, passo e cozinho o “triviá”, mas só “inzinjo” bife todo dia”.   Informei que sentia muito, mas não poderia contratá-la, porque carne vermelha não fazia parte de nosso cardápio. Para minha surpresa, ela respondeu: “Então tá bão, vai, eu aceito comer só o que vocês come...”.

Muito sofrida e sempre “com um pé atrás”, Noêmia era o que se pode chamar uma “figura”, mas logo se adaptou ao ritmo da casa. Antes de contar como meu sonho entrou no contexto desta crônica, cabe lembrar que, àquela época, a lei não concedia o direito ao recebimento do 13º salário aos servidores públicos (e eu o era) e às empregadas domésticas. Tentando compensar a exclusão – que eu também sentia na própria pele – na antevéspera de Natal (menos de seis meses após havê-la contratado) entreguei a Noêmia, à guisa de abono, uma quantia correspondente à metade de seu salário.

Qual não foi minha surpresa quando ela, atirando com violência o maço de notas sobre a mesa, declarou: “Não preciso de esmola. Vou procurar é já meus direitos na Justiça”, e lá se foi pisando duro para o Tribunal do Trabalho (que, aliás, estava em recesso de fim de ano).  De qualquer forma alguém a informou de seu engano, pois, no dia seguinte, reapareceu simulando condescendência: “Tá bão, vai, desta vez vou aceitar aquele “meu” dinheiro e não se fala mais nisso!”.  Embora penalizada, entreguei o dinheiro, acrescido do valor do aviso prévio e das verbas rescisórias, pois nunca prescindi de respeito e paz.

Enfim, quero crer que o sonho foi uma metáfora de meu sonho real que é ver, ainda que paulatinamente, que a cada ano, novas conquistas sociais vão sendo comemoradas.  Hoje, ao menos diante da lei, trabalhadores e trabalhadoras fazem jus aos mesmos direitos; ainda que a passos lentos, o índice de analfabetismo vem diminuindo; nem todas as mães que trabalham fora cumprem necessariamente uma tripla jornada, pois muitas já contam com companheiros mais conscientes; e o racismo – legado de uma cultura colonialista – já é criminalizado pela legislação, em que pesem os esforços em contrário daqueles a quem aproveita a ignorância humana.

Resta dizer que está também em nossas mãos, duzentos milhões de cidadãos e cidadãs brasileiras que somos, consolidar definitivamente os direitos democráticos tão arduamente conquistados. Bastaria que cada um(a) de nós fizesse a parte que lhe compete, elegendo conscientemente os nossos representantes sem nos deixar levar por pseudo moralistas ou por notícias falsas retransmitidas por ingênuos “laranjas” do conservadorismo;  dando um basta à violência doméstica – raiz da violência urbana; educando nossas crianças para a Paz; agindo com a ética que exigimos das outras pessoas e respeitando-as pelo simples fato de existirem e teríamos muito, muito, mais a comemorar.

 

Publ. no Jornal “Gazeta do Ipiranga”, 10/05/2013, Cad. A-2.

quarta-feira, 8 de maio de 2013


                                As Más Caras do Poder

 

                                                                                                                Suzete Carvalho* 

 

Dia desses, um reencontro ocasional me fez voltar no tempo e relembrar um fato que eu julgara completamente superado.  À noite, cansada e indisposta, mergulhei em sono profundo e não deu outra: sonhei com algumas pessoas que durante anos fizeram parte de meu rol de relacionamentos de trabalho.

No sonho, eu entrava por engano em um local um tanto deprimente e, surpresa, encontrava alguns ex-colegas e os abraçava saudosa.  A seguir, percebendo que uma autoridade de então, parecendo profundamente abatida, entrara no local e fora ignorada pelos demais, procurei ajudá-la massageando suas mãos e braços literalmente gelados, quando levei um grande susto: de um salto, a personagem retirou uma máscara de gesso – que eu confundira com palidez – e soltou estridente gargalhada.

Acordei sobressaltada e me pus a filosofar sobre a questão: “Será que se houvéssemos sido alertados(as) no devido tempo, teríamos reconhecido as “máscaras” (ou, se preferirem, “más caras do poder” como tive oportunidade de poetizar algures), que hoje retornam para nos assombrar?  Será que já não é (mais do que) tempo de darmos um basta à violência simbólica de que temos sido vítimas – nós, os servidores e servidoras públicas, entre outras minorias – desde sempre?”.

Pois bem, entrei para o serviço público no final dos anos 50 e, por favor, não façam as contas, mas levem em conta que à época sequer se falava em assédio moral (ou sexual); que as mulheres casadas eram consideradas semi-capazes pela Lei Civil; que o país era tido como subdesenvolvido, sem acesso à tecnologia de ponta; que a discriminação de todas as minorias era um questão banal e que, enfim, ninguém vive tantas décadas e tantas experiências incólume.

O que quero dizer é que cada causo vivenciado fica encapsulado na memória ou, se preferirem, atravessado na garganta, aguardando uma oportunidade de se oferecer à experiência do “outro” para que as dores e as alegrias nele contidas possam agregar significações à vida de quem se dignar a repensá-lo.  Assim, tomo a liberdade de transcrever aqui um “microconto macrorrealista” que publiquei há algum tempo e que recebeu, nas redes sociais, o seguinte comentário do arquivologista carioca Glauco Rocha: “O Arquivo morto como metáfora de (...) assédio covarde e intolerante de quem está no controle. Ainda hoje isso é uma realidade”.

“O chefe:Mariazinha, escreva tudo que você sabe sobre a última Jurisprudência do Tribunal.No mínimo, cinco páginas, entendeu?   O senhor tem pressa?   Pra ontem!   O colega (dias depois), portando uma importante Revista técnica: Mariazinha, você viu o excelente artigo do teu chefe?Foi você quem datilografou?    O Presidente do Tribunal: Parabéns, doutor.É de uma cabeça como a sua que estamos precisando.Vou nomeá-lo Chefe do meu Gabinete.       O Chefe (mais tarde): Não se preocupe, Mariazinha, não vou te abandonar.Você vai como minha secretária, a não ser que prefira ser lotada no Arquivo morto.”

Que o Dia do Trabalho tenha o condão de nos fazer repensar - a nós e à sociedade como um todo – sobre a urgência de uma ética abrangente de valorização e reconhecimento que inclua os trabalhadores e trabalhadoras do serviço público, cuja contribuição para a manutenção e desenvolvimento do Estado democrático é imprescindível.

 

A autora é associada da AFPESP, ex-professora universitária, ex-presidente de Associação de Classe e tem centenas de matérias publicadas. Pós-graduada em Filosofia do Direito e Direito do Trabalho (USP). http://novaeleusis.blogspot.com 
 
Publ. in "Folha do Servidor Público", maio/2013, pág. 17.
 

segunda-feira, 22 de abril de 2013


A família do Vovô

 

                                                                         Suzete Carvalho*

 

Envolvidos com as mazelas do cotidiano social, que a mídia insiste em fazer ecoar aos quatro ventos invadindo nossos lares com notícias escabrosas, nem sempre nos damos conta de quanto somos privilegiados por poder escapulir para um ambiente familiar ampliado, de fácil acesso, que oferece espaços de integração para pessoas de todas as idades.

O fato é que, numa simples crônica seria impossível descrever todas as inovações, conquistas, construções e - diga-se a bem da verdade -, dificuldades de toda ordem superadas com galhardia por associados, diretores e funcionários do CAY, de que fui testemunha e, por vezes, partícipe direta ou indiretamente durante os últimos quarenta anos.

Ninguém vive tantas décadas incólume.  As histórias vivenciadas ou assistidas ficam ali, encapsuladas na Memória, à espera de serem libertadas.  Causos que se prezam precisam ser narrados, ganhar mundo, oferecer-se à experiência do outro para que as dores ou alegrias neles contidos possam agregar, na (re)contextualização, algum sentido à vida de quem os lê.

Lembro-me de uma situação especial em que, ao acabar de receber uma notícia triste, que muito me afetou, deparei com uma das mais autênticas expressões de compaixão no olhar de uma funcionária da “Casa”, a quem até hoje tenho como a uma filha. Braços estendidos a me amparar, a jovem revelou com humildade sua empatia, em nome de todos, ao declarar: “Conte conosco”.

Também é fato que nem sempre nos damos conta de que toda essa infra-estrutura e união não seriam possíveis sem o trabalho voluntário dedicado à nossa comunidade -  essa família ypiranguista unida pela amizade e interesses comuns -, por tantos homens e mulheres de garra, que fizeram e fazem a grandeza e respeitabilidade do nosso centenário “Vovô da Colina”.

 

*A autora é patrona da Biblioteca-Centro de Estudos e ex-Diretora Cultural do CAY.  Alguns de seus escritos em prosa e verso podem ser acessados e comentados no blog novaeleusis.blospot.com e na Página NOVA ELEUSIS do facebook.

Publ. in Revista do Ypiranga nº 163, jan/fev/2013, pág. 13.

 

 

 

quarta-feira, 17 de abril de 2013


COLUNA DA SUZETE

 

Invasão de privacidade

 

                                                                       Suzete Carvalho*

                                                                     

Semana passada, logo após eu haver lido uma matéria de Marion Strecker na Folha de S.Paulo (1º/04, Cad.F6) a respeito do aumento de links maliciosos, intitulada “Traição”, deparei com uma matéria veiculada nas Redes Sociais a respeito da invasão de hackers a sites de importantes Bancos brasileiros, como o  Banco do Brasil, o que me fez lembrar de um fato ocorrido comigo já há algum tempo.

Embora eu sempre tome todas as precauções para me proteger (e aos meus escritos) desses ataques, um vírus conseguiu entrar em meu computador – nem imagino como – e encaminhou um e.mail vulgar a todas as pessoas e instituições que faziam parte de minha agenda pessoal, inclusive algumas autoridades com as quais, em algum momento, mantive relações de trabalho.

Não bastassem os vírus, bactérias e que tais, que fazem parte da natureza e invadem nossos corpos quando de alguma forma baixamos a guarda – e aqui abro um parêntesis para lembrar que nós, ipiranguistas, temos que fazer a nossa parte para acabar com a proliferação do mosquito da dengue -, o ser humano usa sua inteligência para criar outros tantos para invadir nossos relacionamentos, nossa intimidade e de certa forma nossa alma.

Fico pensando sobre o que leva pessoas com uma capacidade técnica tão superior às demais a se comportar de forma tão sem sentido, eles próprios invasores da vida alheia e, portanto, pouco mais (ou menos) que amebas, quando poderiam se dedicar a alguma atividade para melhorar as já tão conturbadas relações humanas.

Se essas mentes privilegiadas ocupassem parte de seu tempo a auxiliar crianças e jovens carentes a entender a importância da informática para a construção de um mundo melhor, colocando suas inteligências a favor da educação e da cultura, talvez descobrissem o inefável prazer da missão cumprida, que se revela num simples olhar repleto de gratidão.

Quantos de nós, simples mortais, provavelmente com um Q.I. muito inferior ao desses inconsequentes “cibercriminosos”, se entregam humildemente à difícil tarefa de construir relações mais dignas carregando na bagagem apenas uma pitada de amor. É essa troca de experiências e conhecimento, compaixão e doação que dá algum sentido à complexa condição humana.

Fica a sugestão, até porque a partir de agora quem invadir computador pode pegar até três anos de prisão (Lei Carolina Dieckmann).

 

 

* A autora escreve neste espaço toda segunda sexta-feira do mês. Suas publicações sobre temas abrangentes da experiência humana podem ser acessadas parcialmente nas Redes Sociais e no blog www.novaeleusis.blogspot.com

** A ilustração é de Danilo Marques, cujos trabalhos estão disponíveis na Pág. ILUSTRADOR DANILO MARQUES do facebook e no site  www.danilomarques.com.br 

 

Publ. no Jornal “Gazeta do Ipiranga” em 12/04/2013, Cad.D-4.

sábado, 9 de março de 2013


COLUNA DA SUZETE

 

QUEBRA-CABEÇAS

 

                                                                               

Às vezes, em minhas reflexões, imagino a vida como um imenso quebra-cabeças que, por algum motivo incompreensível, somos levados a montar sem que sequer tenhamos um modelo. Alguém, cujas intenções desconhecemos, nos teria remetido uma enorme caixa com os dizeres “Jogo da Vida”.  Dentro, misturam-se inúmeras peças que identificamos como partes de um jogo de armar que imediatamente nos fascina pelo colorido, pelo prazer lúdico e, principalmente, pelo desafio que todo enigma proporciona.

 

Despejamos avidamente o material sobre um tablado, que servirá de pano de fundo para a nossa “construção” e nos deslumbramos com as sutis diferenças de tonalidade e formato que apresentam, com a incalculável quantidade de peças, com o tamanho de nossa própria curiosidade. Excitados com a novidade, enchemos as mãos aleatoriamente e atiramos as peças para o alto, na esperança de que, ao caírem, a sorte nos ofereça alguma pista para o início da empreitada.  Cedo, porém, nos damos conta de que somente com uma boa dose de paciência, perseverança e bom senso. chegaremos a lograr algum êxito.

 

Paulatinamente, nos dispomos a ir separando as peças que formarão a moldura do trabalho e ordenando-as ao redor do tablado, sobre o qual passamos a nos debruçar diariamente, embora nem sempre com a mesma disposição de espírito. Vez por outra, questionamos o motivo de havermos nos lançado a essa tarefa que nos parece inglória, sem sentido, inútil mesmo.  Diante das progressivas dificuldades começamos a vacilar, fraquejamos, pensamos em desistir.

 

Alguns, mais afoitos, chegam a destruir as partes já organizadas, por lhes faltar a visão do conjunto. A seguir, num momento de lucidez, lamentam o próprio descontrole...e recomeçam. As primeiras recompensas da dedicação surgem no vislumbre de pequenos quadros, que vão surgindo aqui e ali, não obstante a existência de vazios entre eles – que alguns veem como clarões e outros como buracos negros, dependendo da cor do tatame (pano de fundo) que utilizaram.

 

Com o tempo, embora cansados, às vezes exaustos, quase todos conseguimos levar a bom termo a tarefa que nos impusemos ou – e jamais saberemos – que nos foi sutilmente imposta pelo nosso enigmático doador. Realizada a missão, alguns têm forças para erguer-se do tablado – em que pesem as dores nas juntas pelas desconfortáveis posturas assumidas – e conseguem admirar o conjunto de sua obra.  São os privilegiados.

 

Outros, infelizmente, são excluídos do prazer final – como sempre o foram – e simplesmente adormecem no duro chão sobre o qual permaneceram ajoelhados durante tanto tempo, sem terem oportunidade de saber o que – se é que – construíram. De qualquer maneira, todos acabam por dormir o sono dos justos.

 

 

Publ. no Jornal “Gazeta do Ipiranga, edição de 08/03/2013, pág. A-7.