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terça-feira, 2 de outubro de 2012

Hoje, dia em que se comemora o centésimo quadragésimo primeiro aniversário do nascimento de Gandhi e que a ONU houve por bem declarar como o Dia Internacional da Não-Violência, acredito oportuno transcrever um trecho de m/Ensaio “Por que Gandhi Hoje?”






“Insistência, persistência, paciência e firmeza de propósitos consistiram nas grandes virtudes que fundamentaram o pragmatismo gandhiano, a embasar seus dois princípios máximos: ahimsa e sathyagraha (de sathya, verdade e agraha, firmeza). No ensinamento gandhiano o ahimsa não é um escudo para a covardia, mas uma arma para os bravos, muito mais poderosa que todas as armas já inventadas pelo engenho humano.

A sutileza desse princípio vai muito além de não matar, pois nele não cabe sequer alimentar maus pensamentos ou permitir que o sofrimento se propague, compactuando com a dominação ou vilania. Também não significa deixar de se proteger ou de cumprir o dever, nem renunciar aos direitos conquistados ou submeter-se à tirania. É, isto sim, uma práxis corajosa, que passa necessariamente pelo respeito às diferenças, necessidades e direitos do outro e de nós próprios, em suma, pela dignidade dos seres humanos.

É um exercício de perdão, visto como ação mais nobre do que a punição, até porque, no dizer de Gandhi, ninguém é suficientemente bom para julgar o outro. Sua sugestão é que procuremos ver nossos próprios erros com uma lente de aumento, como fazemos com os erros dos outros, para podermos chegar a uma avaliação mais equânime. Essa é uma prática de amor, solidariedade e compaixão (de pathos, paixão ou sofrimento, em grego), com o sentido de compreender e minimizar a dor do outro, seja ele quem for.”



Publ. in Thot nº 79, “Política e Poder: Gandhi Hoje”, SP:Palas Athena, out/2003, pág. 4/9.



quarta-feira, 6 de outubro de 2010

MULHER E FILOSOFIA – Uma Visão Transdisciplinar

Introdução - A História e a Filosofia, substantivos femininos, são questões masculinas. Escritas por homens, para homens, a respeito de homens e de suas realizações, onde a mulher é vista como “fator secundário da sua espécie”, em um mundo androcentrado.
Gilles Deleuze afirma que “A história da filosofia deve não redizer o que disse um filósofo, mas dizer o que ele subentendia necessariamente, o que ele não disse e, no entanto, estava presente no que ele disse”. Qual o sentido de se “subentender necessariamente” proposições filosóficas que excluem ou tornam indigna a participação da mulher na história? Ora, se quando tratam das mulheres, os filósofos sempre mantiveram um monólogo, expresso ou não, deixando um legado de chauvinismo misógino, isto já não está entendido e subentendido?
O fato é que o ser humano é dicotomizado, o feminino sendo tratado como descartável (ao menos) da vida pública e intelectual, nada mais que uma condição imposta pelos deuses (e seus auto-intitulados representantes na Terra) à perpetuação da espécie, razão pela qual seu destino sempre esteve adstrito ao âmbito do privado, mas esse discurso não conseguiu apagar a presença de algumas heroínas que lograram deixar marcas de expressão como seres humanos pensantes, nos interstícios do silêncio que lhes foi patriarcalmente imposto.
Os tempos da Deusa -A história do ser humano como ser social não se resume aos registros escritos. Desde a pré-história, sua vocação gregária é inconteste e está documentada numa forma de comunicação simbólica, que poderia retratar a realidade isenta do dualismo forçado que se consubstancia em informações técnicas, porém, desvirtuadas pela linguagem excludente.
A filosofia nasceu entre os séculos VII e VIII a.C. como contra-ponto da razão às puras crenças mitológicas. Não obstante a sobreposição do saber epistêmico ao mítico, o arquétipo da deusa sobreviveu ao tempo, convivendo ainda durante séculos com o pensamento filosófico, até ser banido com a instauração definitiva do patriarcado.A argamassa social, sem o amálgama do feminino, desequilibrou os relacionamentos e degradou a participação da mulher na vida pública e intelectual. Aos filósofos coube a justificação da nova ordem, cujos pressupostos éticos foram consolidados com o triunfo do Cristianismo.
Se por um lado a imagem de Maria como a Virgem Santa traz alguns aspectos reverenciados na Deusa cultuada nas sociedades pré-históricas - generosidade, amor maternal, compaixão e paz –, por outro, dela se distancia por expressar uma visão de mundo hierarquizada, onde a mulher gera e o homem gere, sendo a submissão a característica feminina mais reforçada culturalmente.
Assim, a História e a própria Ciência acabam por distorcer evidências, como as “cenas de intimidade feminina” encontradas em escavações em Creta, interpretada como “tagarelice” feminina dos “escândalos da sociedade”. Somente com o avanço da arqueologia, os(as) estudiosos(as) passaram a reavaliar esses valiosos achados, atribuindo-lhes uma significação mais isenta dos preconceitos culturais que levaram a História a cometer erros crassos.
Não bastasse o legado tormentoso da Queda sobre a condição humana, o homem tomou a seu cargo o controle do Saber e a função de algoz de todas as “Evas Pecadoras”, impondo-lhes o recolhimento a um “papel feminino” pré-determinado, que tem como corolário a manutenção na ignorância. A clausura e o silêncio funcionaram como um castigo adicional.
O declínio da deusa - Dessacralizada a Deusa, o homem passa a ser o eixo em torno do qual orbitam astros desprovidos de luz própria: as mulheres. Ao princípio matrilinear da alteridade, sobrepõe-se o ensimesmamento patriarcal, que não aceita o diferente, o outro, principalmente quando esse outro é feminino. Mas “esta espécie ainda envergonhada” não se deixa abater e, deusa ou humana, vai deixando as marcas de sua passagem por esta Terra que é de todos. Assim, as qualidades femininas foram resguardadas no tempo, pois são imprescindíveis ao equilíbrio da humanidade.
Mulheres Filósofas – Na antiguidade, cabe lembrar inicialmente Hipácia “astrônoma, matemática, física, filósofa e historiadora, última diretora da Biblioteca de Alexandria, assassinada cruelmente pelos fanáticos do Patriarca Cirilo, pouco antes do incêndio que destruiu uma das maiores realizações da humanidade. Hipácia foi relegada ao esquecimento, seu nome banido dos registros, sua obra destruída. Cirilo foi canonizado”(Beto Hoisel).
Antes dela, raras foram as mulheres que se destacaram, portanto, não há como deixar de admirar a coragem de Safo de Lesbos, poetisa proclamada por Platão como “a décima musa”; de Aspásia, a cortesã nascida em 470 a.C, admirada por Sócrates por sua “rara sabedoria política” ou das mulheres que influenciaram Pitágoras, como a sacerdotisa Temistocléia e a filósofa Teano, a quem alguns atribuem ao menos parte de seus escritos e teoremas.
Ao acender (ou apagar) das luzes do Medievo, nova força patriarcal se (des)une ao cristianismo: O Islã. Filósofos como Avicena (980-1037) e Averrois (1126-1198), contribuíram para o desenvolvimento da filosofia tomista, solidificando a teologia cristã. Assim, se a Idade Média não foi um período de trevas, o foi com certeza para as mulheres, obscurecidas durante os séculos que se seguiram ao assassinato de Hipácia. Algumas, iluminadas, conseguiram distinguir-se por entre as trevas, principalmente quando conectadas ao misticismo cristão, entre elas a monja-filósofa Hilda de Whitby (614 a 680 d.C.); a mística alemã Hildegarda de Bingen (1098-1179), filósofa mística Beatrice de Nazareth (1200-1268) e Santa Gertrude (1256-1302), que brilharam por si e em si mesmas.
Nenhuma, porém, conseguiu, como Teresa de Jesus (1515-1582), canonizada em 1622, receber o título de Doutora da Igreja, provavelmente por haver fortalecido em seus escritos os dogmas do catolicismo, então ameaçado pela Reforma. Um último nome relevante (laico) a ser destacado já ao “apagar” da Idade Média é o da filósofa Cristina de Pisan, comparada por seus contemporâneos a Cícero e Catão, por sua eloquência e sabedoria.
A Idade moderna não é mais pródiga em revelar nomes femininos, exceção feita a duas pensadoras pré-feministas, Olympe de Gouges (1745/93), e Mary Wollstonecraft (1759/97).
Jornalista e dramaturga, democrata por convicção, Olympe se distinguiu por ser anti-escravagista e por sua luta pela igualdade de direitos, tendo contraposto à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, uma Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã (setembro de 1791) e escrito um (novo) Contrato Social propondo relações igualitárias entre os cônjuges. Sua decapitação pelo “Terror”, cabe como uma “luva metafórica”: a mulher, no androcentrismo, é corpo, não cabeça. Qual na celebrada democracia grega, dois milênios antes, os ideais que inspiraram a Revolução Francesa e a Declaração de Direitos do Homem, não se aplicavam aos excluídos de sempre (mulheres e escravos).
Mary Wollstonecraft entendia o feminismo como luta pelos direitos de toda a humanidade e não se deixou anular pela formação num lar sob a violência de um pai perturbado, transformando o sofrimento em alavanca para desenvolver as polêmicas “Reivindicações” que a levaram à cena dos debates políticos no contexto das primeiras Declarações de Direitos.
No século XIX, o surgimento de novas correntes filosófico-literárias, científicas e políticas, desfocou os interesses e a mulher, minoria solitária, se desdobrou. Ativistas em várias frentes, suas armas foram vestir-se de homens e usar pseudônimos masculinos, como George Sand e Flora Tristan. Filósofas, escritoras, abolicionistas, educadoras, sufragistas, socialistas militantes, não receberam o reconhecimento dispensado a seus pares, como aconteceu, entre outras, com a escritora Nísia Floresta (1810-1885), precursora do feminismo no Brasil.
A mulher na filosofia contemporânea - Na primeira metade do século XX várias mulheres conseguiram ser, pela primeira vez na História, respeitadas pelo mérito de seu próprio trabalho e ideias, independente do rumo que imprimiram a suas vidas privadas, como Margareth Mead (1901/78), Hannah Arendt (1906/75) Simone de Beauvoir (1908/86); Simone Weil (1909/43), Íris Murdoch (1919/99), Riane Eisler e Betty Williams, ganhadora do Nobel da Paz de 1976.
A antropóloga-cultural Margareth Mead não se limitou a teorizar, mas saiu a campo para estudar sociedades atuais cuja cultura é considerada “primitiva” e foi membro da “escola da cultura e personalidade” cujo expoente máximo foi Ruth Benedict (1887-1948). Hannah Arendt é outra demonstração do ecletismo feminino. Seus estudos sobre o totalitarismo revelam o perigo da condescendência como forma de banalização do mal, induzindo a uma ética de “não-violência vigilante e crítica”, a ser adotada por governantes e governados.
Já Simone Weil, asceta e mística, acreditava na meditação e na sabedoria dos ensinamentos contidos nos Livros Sagrados, como fonte de transcendência e, no jejum, como arma potente contra a injustiça. Iris Murdoch, também se insere no contexto filosófico do pós- guerra, ao unir seu misticismo à filosofia existencialista, tornando-se polêmica pela abordagem de temas sexuais.
Na última metade do século vinte, novas evidências científicas deslocaram o enfoque filosófico sobre a realidade bio-psico-física, social e cosmológica, ao abalar “verdades” milenarmente assentadas. É nesse hiato androcêntrico-filosófico, visto por alguns como a “morte da filosofia”, que a mulher se insere, conferindo-lhe novas perspectivas, na profusão de livros, teses e artigos de estudiosas(os) que passa a ser divulgada, numa reconquista feminina da liberdade de expressão. Infelizmente, este trabalho não permite um justo levantamento nominal.
Resta lembrar que a busca feminina por um mundo melhor, hoje transpõe inclusive barreiras religiosas dentro de seu próprio habitat, insurgindo-se contra orientações da Igreja, ao repensar o mundo atenta aos clamores ecológico-feministas e consequentemente social-filosóficos. Refiro-me à participação nos debates da monja e teóloga brasileira Ivone Gebara, cuja importante contribuição filosófica chega a incluir questões sobre a sexualidade, vista como uma questão política em sua surpreendente “teologia ecofeminista”.
Considerações Finais - A mulher já conseguiu atravessar o “umbral sagrado” que a separava do espaço a que sempre fez jus, mas não nos iludamos, o patriarcado, assim como a história ou a própria filosofia, como advogam vozes antifeministas, não acabou. A estrada é longa e pedregosa, em defesa do bom senso da humanidade.
Minha tese é a de que as mulheres não devem mais “redizer” o que disseram os filósofos a seu respeito, nem tentar mais subentendê-los, pois, ao fazê-lo, reforçam as considerações pejorativas que eles lhes dirigiram. Significa dizer que, aplicado o entendimento à Filosofia Feminista, sob o prisma da hermenêutica jurídica, a última ratio de uma solução justa à questão das mulheres é a própria realidade (a ultrajante condição feminina). Se a filosofia, como lembra Olgária Matos, sempre teve (ou deveria ter tido) a atribuição de consolar a alma sofredora, cabe-nos agora resgatar sua vocação curativa, fazendo cicatrizar as chagas decorrentes do esquecimento a que ela própria nos relegou, violentando nosso corpo e nossa alma.
Necessário se faz ressignificar eventos e redimensionar a História, enfrentando a fria razão patriarcal em suas bases lineares e utilizando todas as perspectivas que o saber humano nos oferece, sejam científicas, fenomenológicas, intuitivas, sincronísticas ou mitológicas. Acredito que a Filosofia precisa ser retomada e também redimensionada, reassumir sua vocação metafísica, num “repensar o pensamento” filosófico propondo novas respostas às indagações universais, fundada na relevância da experiência humana – feminina e masculina –, pois o feminismo já exorcizou a opressão.
Parece-me que, ao monopólio androcêntrico e à violência-simbólica de um dualismo ancorado no poder, disfarçado de saber filosófico, dever-se-ia contrapor agora uma filosofia inclusiva e eticamente fundada que, levando em consideração a experiência humana como um todo, poderia, quiçá, encontrar caminhos para enfrentar a mais profunda indagação da alma humana: Quem Sou Eu?.

(Resumo de Ensaio escrito por Suzete Carvalho, in Mulher, Sociedade e Direitos Humanos, org. Patrícia T.M.Bertolin e Ana Cláudia P.T. Andreucci, SP:Rideel, 2010, pág. 804/833)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Por que Gandhi hoje?


Mohandas Karanchand Gandhi nasceu numa pequena cidade indiana em 1869, tendo se tornado mundialmente famoso pelo constante e paciente trabalho em prol da liberdade de seu povo, apoiado exclusivamente numa firme e indeclinável ação pacífica.
Embora sua morte haja decorrido há já 50 anos, a praticidade sua proposta é extremamente atual, até porque hoje vivemos num neocolonialismo a que se deu o nome de globalização que, nas palavras de Frei Beto “apenas substituiu as naus pelo capital econômico especulativo”.
O pai de Mohandas era devoto de Vishnu e sua mãe era jainista praticante – uma seita hindu que tem como lema “não causar dano a nenhum ser vivente” - e, como todos sabemos, a formação cultural e religiosa tem muito a ver com o que as pessoas se tornam.
Muitos falam do politeísmo das religiões da Índia. Estou de acordo, porém, com alguns autores - como Marcos Gomes -, que entendem que, ao contrário, o hinduismo é “essencialmente monoteísta”, pois acredita num Deus Absoluto, que é chamado Brahman.
Assim como o dogma cristão da Santíssima Trindade, nos faz crer no Pai, no Filho e no Espírito Santo, a Trimurti hindu é formada por Brahma (o Criador), Vishnu (o Conservador) e Shiva (o Transformador), a tríplice Manifestação de Brahman. Ser devoto de Vishnu, portanto, significa venerar a expressão divina mantenedora do universo.
Alguns pensadores vêm nessa trindade, abstrações filosóficas relacionadas com o passado, o presente e o futuro, ou com a tese, a antítese e a síntese, e outras tríades tradicionais.
Apenas para fins didáticos, mas sem pretender estabelecer qualquer tipo de comparação, poderíamos dizer que, assim como os cristãos veneram a Virgem, os santos, anjos, etc., o panteão hindu se compõe de entidades que são chamadas “deuses”, com “d” minúsculo.
Objetos de veneração por seus seguidores, essas entidades geralmente são consideradas avatares ou “estágios de um mesmo ente”, como é o caso do deus Rama, visto como um dos Avatares de Vishnu, a quem Gandhi aprendeu a orar desde a mais tenra idade.
O Ramanama, que ele praticou durante toda sua vida, significa repetir o nome de Rama, inúmeras vezes, até sentir-se impregnado pelo divino, a forma de oração tipicamente hindu, chamada mantra, uma fórmula que, de tanto ser repetida, vai se instalando em nosso coração e em nossa mente.
A propósito, essa forma mântrica de prece (ou meditação), também era praticada pelos antigos cristãos em comunidades conhecidas como os “Padres do Deserto” e hoje vem sendo revivida e adaptada pelos monges beneditinos da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã, como um processo de transformação que nos abre para a compreensão e amizade com o outro – inclusive com outras tradições religiosas.
Essa era também a postura do Mahatma, que orava por hindus, muçulmanos e cristãos, para que fossem pessoas melhores, dentro dos ensinamentos de suas respectivas crenças. Assim, o Sermão da Montanha era por ele considerado um dos grandes textos da humanidade.
E aqui aproveito para fazer uma advertência sobre o risco de utilizarmos repetitivamente a palavra violência, a ponto de permitir que ela se instale em nossos pensamentos e sentimentos, impregnando-nos de temor e ódio e nos neurotizando a ponto de reagirmos assustada ou agressivamente a qualquer gesto, movimento ou aproximação do outro.
Melhor seria substituí-la pela expressão “não-violência”, o famoso Ahimsa (literalmente, não-dano), conceito que Gandhi teve o mérito de aprofundar no sentido religioso, filosófico e político, numa ética total que deveria embasar nossos pensamentos, palavras e ações, em todos os momentos de nossa vida, a ser utilizada persistentemente em todas as situações e em toda parte.
A ética gandhiana é, portanto, uma resistência pacifica (não passiva, como muitos pensam) contra toda forma de injustiça, uma praxis corajosa, que passa, necessariamente, pelo respeito às diferenças, necessidades e direitos do outro e de nós próprios, em suma, pela dignidade dos seres humanos.
Para reverter o processo de violência e exclusão de que estamos saturados, temos que nos reconhecer como co-partícipes de um todo social e planetário que tem na diversidade uma demonstração de sua grande riqueza.
Essa postura diante da vida requer uma prática constante, que começa nas pequenas atitudes diárias, no lar, no trânsito, nas instituições das quais fazemos parte, sejam escolares, esportivas, religiosas ou profissionais, até alcançar toda a estrutura social. Às vezes basta um sorriso, como dizia Madre Tereza de Calcutá, outra grande mestra da humanidade.
O sentido humano com que Gandhi impregnou seus ideais na luta por uma vida mais digna para todos, sem discriminações de qualquer espécie, tem sido fonte de inspiração para os grandes movimentos pacifistas e acrescentou substratos éticos para a própria Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948).
Seus ensinamentos e exemplos podem, portanto, ser considerados paradigmas que, devidamente adaptados, nos auxiliarão a embasar a busca por um mundo melhor.

*Síntese de Ensaio publ. in Rev. Thot nº 79/2003, pág.4/9.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Consciência Linear e Relações Humanas

Palavras são meros símbolos convencionais (signos) - como já no Século 4 ensinava Santo Agostinho -, simples forma (significante) de apontar para algo cuja noção (significado) pretendemos transmitir. São, portanto, paradoxais, ambíguas, polivalentes, como o é o ser humano, como é a própria vida.

Sem outro meio de expressão que a linguagem articulada, busco traduzir na escrita um desabafo da consciência, de forma dialógica, convidando-os a uma reflexão mais aprofundada sobre um tema que escapa ao senso comum - , mas que, não obstante, vem sendo repetido à exaustão, desde a mais Alta Antiguidade, por pensadores de todos os quadrantes, no geral sem encontrar eco nesta segura e cômoda caverna platônica em que nos deixamos estar.

A primazia do racionalismo cartesiano - como se a Verdade fosse passível de ser apreendida pelo mero raciocínio -, privilegiou uma lógica reducionista que, se por um lado teve o mérito de incrementar as ciências, por outro tornou-se o maior responsável pela fragmentação do ser e do saber, o que culminou por deflagrar a crise planetária que hoje enfrentamos.

Princípio básico milenarmente intuído, que ora retorna na teoria da complexidade, é o inter-relacionamento de todas as coisas entre si e com o todo, e deste com cada uma delas, ou seja, o respeito à multidimensionalidade do conhecimento e da própria consciência. Essa nova matriz da realidade, de alguma forma oferece sustentação para uma ruptura com as concepções racionalistas e seus princípios da dualidade e fragmentação.

Pois bem, se inumeráveis mestres de todos os tempos, todos os quadrantes e todas as áreas - de Sancaracarya a Krishnamurti, de Lao-Tsé a Jung, de Nagarjuna a William James, de Platão a Heidegger, de Heráclito a Einstein, de Shakespeare a Tagore, Gandhi, Aurobindo, Chardin ou Sartre, Camus, Dostoiévski, Maturana e Morin -, repetem, de forma um tanto mântrica, idéias que escapam, no mínimo, da dualidade, por que nos condicionamos à fórmula “Penso, logo existo” como possibilidade única de conhecimento?

Será que o mero raciocínio resiste à questão primordial do “Quem sou”?

Biologicamente, Vaz e Varela nos diriam que o organismo, para detectar alguma coisa que lhe é estranha, tem que conhecer a si próprio. Filosoficamente, Sócrates partiria do “Conhece-te a ti mesmo”. Psicologicamente, Jung diria que é preciso integrar todas as instâncias da psique ao self, ponto central e ao mesmo tempo totalidade do consciente e do inconsciente.

Enfim, todos os caminhos apontam para uma reforma do pensamento, uma mudança de padrões mentais, uma postura de inclusões neste mundo de exclusões. E um primeiro passo nessa nova senda é o autoconhecimento, um diálogo interior racional-intuitivo que não busca soluções, mas consciência do grande paradoxo universal do uno e do múltiplo.

Essa co-participação da experiência na consciência, do múltiplo no uno e deste na unidade, se dá como possibilidade - entre outras - na meditação a que se entregam não só yogues e santos famosos, mas incontáveis heróis anônimos que não dispensam um reencontro com o ethos (nossa morada interior), perdido na fragmentação do conhecimento e do próprio ser.

* Resumo de Ensaio publ. in Thot nº 68, 1998, pág. 22/26.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Preconceito: Uma Arma Mortífera

Preconceito, do latim praeconceptu, significa prejulgamento e tem uma conotação negativa e, de alguma forma, agressiva, a respeito de algo ou alguém. Enquanto permanece em nível mental, estamos no âmbito do pré-juízo individual, sem questionamentos e leviano; posto em ação, o preconceito envereda pelo campo ilegal da discriminação.

Discriminar é segregar, separar, excluir, fruto do preconceito cujas perversas consequências geralmente não se restringem ao plano individual, chegando a afetar imensos contingentes de seres humanos. A história nos dá conta de atrocidades perpetradas sadicamente em nome de Deus, do bem ou da liberdade.

Em todos os tempos e em todas as partes onde ocorreram, as alegações dos agressores apenas tentavam dissimular seu verdadeiro fundamento: preconceito, prepotência, ódio cego, inveja ou a mais perigosa ignorância: a de quem pensa que sabe. Mas a intolerância humana tem muitas outras caras. Esses são apenas alguns dos fenômenos detonadores da cega intransigência com índios, negros, “bruxas”, judeus, “infiéis”, homossexuais, etc, grupos historicamente perseguidos ou explorados, excluídos socialmente, confinados a guetos em sub-humanas condições de vida, quando não violentamente torturados e massacrados, com a complacente conivência dos privilegiados.

A incursão legal brasileira contra a discriminação é recente, limitada e ineficaz, pois os aplicadores ainda patinam numa noção claudicante de cidadania, atrelados que estamos todos a um saber ideológico que privilegia o argumento do opressor contra ‘minorias’ que, na verdade, constituem a maioria da população, um imenso contingente de deficientes cívicos.

Em suma, cidadão no Brasil, como em boa parte do mundo ocidental, é preferencialmente o homem branco, rico, culto e heterossexual. A tragicomédia maior é a capacidade de pactuar dos próprios oprimidos, seja por interesse, covardia, ignorância, ou por introjeção inconsciente do preconceito.

São vítimas que, desconhecendo sua própria força e muitas vezes nem mesmo se reconhecendo como tal, passam a participar do processo, de forma a perpetuar a situação de exclusão, acomodando-se ou aderindo à competitividade predatória, à violência e a outros meios inábeis de convivência social.

Atualmente se fala muito em cidadania plena, com participação ativa de todos os grupos minoritários nos destinos sociais, mas o paradigma é discursivo, muito distante da realidade. O preconceito e a ausência de cidadania de que são vítimas bilhões de pessoas no terceiro mundo, se revelam na consideração absurda de que a fome e a exclusão social são ocorrências “banais”, meros “efeitos colaterais” da pobreza reinante, debitada à ignorância, à incompetência e a uma indolência natural nativa.

A eleição circunstancial de ‘bodes expiatórios’ para as mazelas sociais revela o caráter ideológico do preconceito. Essa forma de violência simbólica afasta a justiça, reforçando a desigualdade e alimentando a estereotipia, um movimento reacionário que consiste na atribuição de características fixas a alguém, geralmente a um grupo, desconsiderando-se o contexto, as particularidades e a riqueza das diferenças individuais.

Os noticiários nos dão conta de que os pobres, as mulheres e os negros constituem, como regra, o tripé sobre o qual se assentam os vários tipos de preconceito. Aos diferentes tipos correspondem estereótipos diferentes.

Nossa cultura está fundada no mito da superioridade masculina que desconsidera a interdependência entre os gêneros, subestimando e discriminando mais da metade da humanidade, sem a qual sequer existiria.

Hoje, à lei do mais forte, agrega-se a do mercado que tem na globalização o grande agente de manutenção do status quo. Globalizam-se a pobreza, os preconceitos, a exploração de mão-de-obra, concentrando-se cada vez mais o capital em mãos de uma minoria privilegiada. A liberdade das pessoas atrela-se à situação econômica de que desfrutam. O ser humano é o objeto que acompanha o seu dinheiro, pois que este é o sujeito para quem as portas se abrem.

O consumismo inconsequente alimenta a exploração e o preconceito, mas como toda moeda tem duas faces, a “descoberta” de novos filões consumistas tem o condão de abrir algumas portas sociais e até jurídicas, levando segmentos ancestralmente discriminados, como homossexuais, negros e deficientes físicos a vislumbrarem a possibilidade da cidadania.

Experiências mal resolvidas, que têm origem em nossa herança tradicional autoritária, geram os condicionamentos que contaminam as relações interpessoais, traduzidas em monólogos inaudíveis pelas partes envolvidas, ou seja, ninguém ouve ninguém.

A questão é principalmente educacional e, portanto, não prescinde do empenho dos familiares, pedagogos, religiosos, militantes comunitários, profissionais da mídia e da boa vontade das autoridades em promover políticas públicas de integração e de incentivo à educação, a par de uma legislação anti-discriminatória mais eficaz.

O caminho passa ainda pela busca individual de autoconhecimento, sem o qual jamais superaremos o automatismo que caracteriza nossas relações sociais. Reaprender a pensar e a conviver, imprimindo relevância ao diálogo e à aceitação da diversidade como fatores inalienáveis do desenvolvimento humano, são algumas das metas que se propõem para um melhor entendimento entre os homens.

*Resumo de Ensaio publ. in Thot 78/2003, pág.34/40.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Ressentimento

A vida moderna, com seus perversos paradigmas de competitividade e consumismo, gera uma inadequação entre as possibilidades pessoais e as exigências ambientais, ou, melhor dito, entre a pessoa e seu ambiente.
O constante estado de expectativa, decorrente da tentativa de corresponder às imposições sociais potencializa nossa ansiedade existencial, revelando-se sob a forma de sentimentos dolorosos como culpa, inveja, solidão, angústia, raiva, impotência, frustração e muitos outros.
Entre as questões interiores mais mal resolvidas, causadoras de permanente estresse, destaca-se o ressentimento. Ressentir-se é magoar-se (no mais das vezes, à toa); é melindrar-se cada vez que a auto-imagem que construímos é abalada; é, enfim, sentir novamente - às vezes por anos a fio, ou por toda uma vida - todos os sofrimentos que a ofensa, real ou imaginária, nos causou.
Há alguns anos, a atriz
Beatriz Segall, em interessante entrevista, metaforizou bem a questão ao dizer que “ressentir-se é como patinar no mesmo buraco como a roda de um carro atolado". Para sair desse ‘buraco’ parece-me que é necessária uma mudança nos padrões de pensamento e, consequentemente, de comportamento, afirmando a necessidade de viver melhor o momento presente, sem carregar o peso adicional de um incidente que já passou e restabelecendo as relações em termos mais fraternos.
Culpa e ressentimento são formas cruéis de autopunição que precisam ser liberadas pelo perdão, para que se libere também a capacidade de sentir e gerar prazer, cuja busca, porém, não pode ser predatória e ilimitada. Caso contrário se tornará nova fonte de culpa, que nos fará entrar num círculo vicioso. O autoperdão nos permitirá o abrandamento necessário para conseguir perdoar o próximo.
Uma dica para exercitar o perdão é começar com doses homeopáticas, perdoando as pequenas coisas e as pessoas com as quais não temos maior envolvimento e lembrando-nos de que esse exercício é também em nosso benefício, pois ficaremos, no mínimo, mais tranquilos.
Descarregar as tensões diárias, ‘soltando’ músculos e articulações e tentando apaziguar nossos pensamentos por alguns minutos, alivia o peso dos problemas diuturnos, torna a vida mais leve, induz paz e bem-estar, propiciando o estado amoroso e a criatividade.

A vida no planeta seria altamente beneficiada se os ressentimentos e crises pessoais, que geralmente nos desestruturam, fossem encarados como molas propulsoras das transformações sociais. O grandioso trabalho de Gandhi em prol da humanidade, talvez não tivesse sequer sido iniciado, se ele não tivesse sofrido na carne a discriminação dos britânicos, a quem tanto admirara em sua juventude. Seria uma perda incomensurável para o mundo, se ele houvesse mergulhado na frustração e no ressentimento pelas graves ofensas recebidas.
Sem a pretensão ilusória de nos tornarmos Mahatmas, talvez pudéssemos tentar ser um pouco mais verdadeiros conosco mesmos, com o outro e até com o divino. Para citar apenas o cristianismo, por exemplo, lembro que quando oramos o Pai Nosso, pedimos ao Senhor que “perdoe as nossas ofensas, assim como nós perdoamos os nossos ofensores.

Perdoamos mesmo? Ou será que apenas repetimos automática e ingenuamente uma mentira até ao próprio Deus, que conhece nossos sentimentos mais recônditos? Se assim é, como queremos ser perdoados? Detectar é importante, mas não é suficiente. Há que praticar o diálogo honesto e o perdão, diuturnamente, de modo persistente, para sair do automatismo anestesiante em que estamos mergulhados. Há que reaprender a ouvir o outro, ou jamais sairemos do monólogo sem sentido, ressentido.
Mas, antes e acima de tudo, temos que aprender a ouvir e conhecer a nós mesmos, restabelecer relações com nosso ethos - nossa morada interior -, única construção com estrutura suficientemente forte para não se deixar abalar por circunstâncias passageiras. A inspirada frase de São Paulo sintetiza a questão: “Refugia-te em teu coração e não haverá ventania que possa derrubar-te”. Assim, alguns dos antídotos mais poderosos contra a culpa e o ressentimento –ou, eventual e indiretamente, contra a proliferação de doenças decorrentes do estresse que esses sentimentos produzem -, não se adquirem em farmácias. Estão potencializados dentro de nós, como poções mágicas colocadas gratuitamente à nossa disposição e suas fórmulas mais eficientes são o Amor - e amar também se aprende, pois implica a compreensão do outro e o autoconhecimento - e a tolerância, que importa paciência e perdão.

Resumo de Esnsaio publ. in Thot.

Cf. http://palasathena.org.br/produtos_descrição.asp?codigo_produto=71