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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Entrevista à AFPESP

Entrevista que concedi ao programa AFPESP PRA VOCÊ sobre meu livro O Olhar da Caprichosa.




domingo, 18 de outubro de 2009

O Caminhar

Todo caminho nada mais é do que um caminho, cabendo-nos a decisão de nele prosseguir ou abandoná-lo, quantas vezes necessário for. Importante, como alerta Carlos Castañeda, é decidir sem medo ou ambição e, se a opção for trilhá-lo, verificar se ele possui um coração.
Cada novo insight é uma etapa vencida que – embora todas se interliguem - representa um novo nível de consciência e liberdade (uma nova e mais apurada percepção da realidade) a ser compreendido e trabalhado enquanto durar a jornada.
Como regra, traçamos uma meta a ser alcançada a qualquer custo, sem nos atermos à importância de cada passo, à beleza das flores que enfeitam a estrada (Olhai os lírios do campo), suavizando o caminhar às necessidades dos companheiros, cujas dificuldades foram ou serão, provavelmente, as nossas em outro momento do percurso.
Literalmente, desembestamos, escorregando aqui e ali, e nos ferindo e sofrendo, na tentativa de derrubar os demais peregrinos, numa competitividade desenfreada e enceguecida por algo de cuja falta de sentido só nos conscientizaremos tarde demais.
Estar atento ao caminhar, aspirar o indefectível aroma das flores, sentir cada momento como se fosse o único, compadecer-se do outro-seja-ele-quem for, é a postura do sábio, que faz seu caminho ao andar, conduz seu auto-traçado destino suavemente e esculpe a vida até torná-la uma obra prima.

*Trecho do cap.5 (Insight ou emergência espiritual?), do meu (ainda inédito) Micro-Ensaio sobre a Consciência.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Maioria (i)moral

O filósofo esloveno Slavoj Zizek opõe o fundamentalismo autêntico ao que chama de “fundamentalistas pífios da Maioria Moral”, tomando como instrumento de distinção a inveja como pecado capital: “...o fundamentalista da Maioria Moral é sempre assaltado pela atitude ambígua de horror e inveja em relação aos indizíveis prazeres a que se entregam os pecadores” ... “fundamentalistas autênticos não invejam os diferentes prazeres de seus vizinhos”.[1]


Suas palavras evidenciam a hipocrisia dos puritanos, o jogo invejoso com que temos sido impregnados pela cultura, que faz com que projetemos agressivamente sobre todos aqueles que ousam ser diferentes (pecadores), nosso incomensurável e reprimido desejo de assumir as nossas próprias (pecaminosas) diferenças. A coragem daquele que ‘se assume como realmente é’, é um pecado imperdoável ao olhar do invejoso, vale dizer, da maioria (moral).


Assim é que, premida pela moral, a transgressão aos preceitos incutidos pela tradição patriarcal se nos apresenta como inconcebível e, dessa forma, perdemos a oportunidade de nos individualizar. Sem coragem para enfrentar nosso ‘desejo de pecar’, somos lançados à vala comum da Maioria Moral que se deixa corroer pela inveja.


Vale a pena lembrar que pecado, do latim peccatu, tem o sentido original de transgressão de um preceito religioso, violação da vontade de Deus. Etimologicamente, como ensina Geraldino Alves Ferreira Netto, pecar significa “dar um passo em falso”, de onde se teria originado a expressão “cair em pecado”.


Com o tempo, a Igreja ampliou o espectro pecaminoso, agregando as transgressões contra os homens e, principalmente, contra o próprio corpo, sacralizando o sexo – elegido como o grande tabu – sob o manto da intocabilidade, o que revelaria uma certa fixação pelos problemas carnais.


As pessoas essencialmente invejosas não conseguem se dar o direito ao prazer, privando-se de experiências felizes, e priorizando a crítica e a hostilidade em relação aos outros e a autocomiseração em relação a si próprias. Mas o problema se agrava quando a hipocrisia se instala e os prazeres são exercidos subrepticiamente, pois o ‘gozo secreto’ escapa ao controle externo rompendo às vezes as fronteiras psicológicas, morais, sociais e até as legais.

*Trecho do sub-título 2 (Hipocrisia Social) do cap. VI (Fundamentalistas da maioria Moral), da Parte I (As Faces da Inveja - e questões correlatas) do livro O Olhar da Caprichosa (Em fase de revisão e atualização).

[1] “Budismo Ocidental? Não Obrigado”, Folha de S.Paulo, Caderno Mais, 03/12/2000.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Equilibristas

Equilibristas que somos todos nesta gigantesca esfera que rodopia vertiginosamente no espaço, na qual fomos lançados por algum poder imperscrutável, nossa única certeza é a morte. E, ‘santa ignorância’ ou descabida pretensão, nos acreditamos todo-poderosos sem sequer conhecermos a nós mesmos, sem saber de onde viemos ou para onde vamos, se é que vamos para algum lugar, se é que existe algum lugar, se é que realmente existimos. Aliás, talvez essa inconsistência seja um dos sentidos de Maya (a Grande Ilusão) dos ensinamentos hinduístas.
E, como mecanismo de fuga, tentamos nos assegurar de nosso ‘controle sobre o inexorável’, exercitando persistentemente nossa única inalienável certeza, a finitude. Nós nos matamos e matamos nossos companheiros da grande viagem cósmica que o existir nos proporciona, num afã sistemático de aniquilação de todos os seres e da própria Terra que (n)os abriga.
Com uma pertinácia que não aplicamos a qualquer outro mister, nos dedicamos diuturnamente a criticar, julgar, discriminar, invejar, odiar, humilhar, desprezar, subestimar, culpar e até a agredir fisicamente nossos parentes, vizinhos, amigos, colegas, conhecidos, empregados, patrões e governantes, utilizando todos os meios capazes de atingi-los.
Da maledicência à indiferença e desprezo, da grosseria prepotente ao sarcasmo, da violência simbólica à agressão explícita, nós os assassinamos lentamente, com requintada crueldade. Mas, convenhamos, somos equânimes. Com o mesmo empenho, nos devotamos à nossa própria destruição, lentamente.
Descuidamos de nosso corpo e de nossa alma, ingerindo gulosamente toda espécie de alimento, assim como engolimos, sem digerir, as ofensas e dissabores do dia-a-dia; nos deixamos agredir por pessoas, coisas e situações sem sentido, submetendo-nos aos flagelos físicos, mentais e psíquicos que nos auto-impomos ou que nos são impostos pela cultura, pela sociedade, pelo poder; envenenamos o ar que respiramos e nos deixamos prazerosamente intoxicar; renunciamos a nossos direitos e descumprimos nossos deveres.
Entregamo-nos docilmente aos caprichos da Fortuna e nos deixamos enredar nas malhas das paixões - entre elas o poder, a inveja e o ciúme -, em nome das quais cometemos desatinos, e nos culpamos, nos ressentimos, adoecemos e morremos, sem saber porque nascemos, vivemos e... morremos. Essa tem sido a nossa saga cotidiana, a saga da (falta de) consciência. Ausência de discernimento, essa a avidya de que nos falam os mestres hindus.
Nesse sentido, temos sido, todos – homens ou mulheres, jovens ou velhos, ricos ou pobres, eruditos ou analfabetos, brancos, pretos ou amarelos -, um tanto sadomasoquistas. Raríssimos artistas, sábios e santos têm sido exceções, quando não se recolhem à sua própria aura iluminada.
De alguns, recebemos legados valiosos, que em geral interpretamos literalmente, ignoramos, subestimamos ou mesmo repetimos por mero diletantismo, ‘como papagaios’. Quando não, procuramos algum ponto fraco para desqualificá-los como um todo, em vez de assimilar a sabedoria contida em muitos de seus ensinamentos, arrogância que nos leva a perder a oportunidade de dar um sentido maior à vida.
Sentido que às vezes chegamos a pressentir, especialmente nos momentos mais críticos, nos estados de emergência em que permitimos que a Providência nos visite, e então nos é dada (ainda que por nós mesmos) a oportunidade de descobrir que somos todos interdependentes e que o sofrimento nos afeta a todos, inexoravelmente. Se nesses momentos de lucidez, conseguirmos romper os velhos padrões, encontraremos os pontos de alavancagem para uma existência mais digna. Esse o salto quântico de uma ética fugaz e fragmentária para uma totalidade ética mais efetiva e eficiente. Esse, o outro lado do grande paradoxo humano: a nossa infinita grandeza.

Trecho do 3º sub-título (Ética e Valores Humanos), do cap.III (Inveja e Ressentimento) de meu Ensaio Transdisciplinar sobre Inveja, Preconceito e fenômenos afins, intitulado O Olhar da Caprichosa (em fase de atualização e revisão).

terça-feira, 9 de junho de 2009

O "estar-aqui"

A tendência racional ao reducionismo tem relegado à marginalidade, dentre outros, um dos maiores instrumentos que a alma possui para liberar-se do sofrimento que a confina: a meditação. Estar-aqui, disponível-agora ao conhecimento e à transformação, pronto a entregar-se e integrar-se, é o estado de espírito mais propício ao meditar.
Por estar ligada milenar e tradicionalmente aos ensinamentos místico-religiosos, o fato é que a meditação tem sido sistematicamente psicologizada por aqueles que desconsideram uma investigação mais séria do assunto, por sua subjetividade. São os ideólogos da mente.
Por outro lado, muitos a apreendem racionalmente, como mera reflexão, e acreditam-se entregues à mais profunda meditação ao concentrar seus pensamentos cansativamente sobre cada uma das eventuais possibilidades de solução de um problema, analisando-o à exaustão. Esta meditação reflexiva tem seus méritos, mas é insuficiente, pois, além de estressante, está condicionada viciosamente, como todo pensamento racional, a uma visão individualista, linear e fragmentadora da realidade.
Algumas tradições utilizam a meditação analítica como etapa de seus treinamentos, mas dela se diferenciam ab initio, pelos pré-requisitos exigidos, pelo objeto e pela meta a ser alcançada, pois sabem que se desmontarmos um lotus – e é isto que a análise faz -, beleza, significado e flor não mais existirão.
Psicoterapeutas transpessoais têm prestado, em geral, importante contribuição à desmistificação da meditação, introduzindo-a em seus trabalhos, mas se perdem ao ficar atentos a um eventual "surto psicótico", como declarou uma ex-aluna de Práticas Meditativas, terapeuta e autora de obra sobre transpessoalidade.
Este contributo epistemológico, se por um lado instiga o avanço da pesquisa, por outro pode mantê-la limitada ao consultório, como processo meramente terapêutico, agravado por uma “fundamentação empírica inadequada”, para usar a expressão dos estudiosos Roger N. Walsh e Frances Vaughan.
Há também quem a veja como mera técnica (milagrosa) para alcançar estados alterados de consciência, prescindíveis de disciplina, ética e discernimento, que teriam o condão de libertá-los de todos os sofrimentos humanos, transformando-os interiormente para todo o sempre, “amém”. Muita ingenuidade, pois, feliz ou infelizmente, não é tão simples assim.
Pseudo-conhecedores da(s) arte(s) meditativa(s), às vezes até muito bem intencionados (aliás, de boas intenções, diz-se, o inferno está lotado), se arvoram em instrutores, ditando pessoalmente ou em livros que transbordam das prateleiras esotéricas, modelos e regras rígidas de postura e respiração, que acabam, num extrapolar da intencionalidade, por causar problemas aos aspirantes, afastando-os das práticas, quando não da própria realidade.
Outros, leigos ou religiosos, mal interpretando as orientações simbólicas daqueles que já trilharam o caminho, exigem sadicamente uma rigidez cadavérica dos postulantes, instigando-os a controlar (dominar) corpo e pensamentos, sob férrea disciplina, bipolarizando – controlador/controlado – a energia. A consequência, em geral, é uma submissão mental que leva ao distanciamento da verdadeira entrega e amor, pontos apiciais da meditação.
Enfim, considerando os incontáveis pontos de vista que o "me-ditar" propicia aos estudiosos do tema e dada sua relação direta com a questão da consciência, objeto deste ensaio, tenho a meditação como pano de fundo da pesquisa e, portanto, a ela voltarei nos próximos capítulos.

*Transcrição parcial do Capítulo 2, da Parte I, de meu livro (ainda inédito) "Micro-ensaio sobre a Consciência".
**Sobre o mesmo assunto, cf. o Cap.3 do Livro, postado no blog em 26/03/2009, sob o título "Do Purgatório à Transcendência".

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O(s) Olho(s) da Inveja

Não vemos que não vemos

De alguma maneira, a inveja tem sido tradicionalmente associada ao olhar. Etimologicamente derivado do latim invidia, (do radical ved, olhar) o termo está relacionado com invidere, significando olhar enviesado, de soslaio, de onde provém “mau-olhado”, “olho gordo”. Daí a tradução mais corrente do verbo invideo, na expressão de Cícero: “causar infortúnio pelo mau-olhado”.
Quem olha, procura ver. E, dependendo de como olhamos, vemos o que queremos (o que nos interessa) ou o que podemos ver através de nossos filtros naturais (neuro-fisiológicos), artificiais (condicionamentos), materiais (objetos físicos) ou mesmo os ideológico-sociais que atuam coletivamente, de modo a massificar o modo de sentir e pensar de uma sociedade.
Para alguns, sentir inveja é “não querer ver”. É ignorância (da realidade), ausência de discernimento, alienação, inconsciência, enquanto para outros, chega mesmo a ser uma “deformação” da personalidade ou do caráter, como declarou Saliba, um grande admirador de Gandhi. Talvez por isso os gurus nos orientem a “Ter olhos de ver”.
Assim, ética e discernimento se impõem, inclusive ao olhar. Nilton Bonder, na sua Cabala da Inveja, dedica todo um item ao tema, sob o título Sabendo Enxergar, onde propõe que procuremos enxergar em função de nós mesmos, para só então enxergar os outros em relação a nós. Segundo o rabino, a ira dificulta nossa capacidade de ver e respirar, por isso nossos olhos se contraem e nossas narinas se expandem, como se necessitássemos do ar para poder enxergar de maneira mais clara.
Humberto Maturana e Francisco Varela propõem uma experiência visual que demonstra o fenômeno do chamado “ponto cego”, baseados no fato de que há uma zona da retina, de onde sai o nervo ótico, que não tem sensibilidade à luz. Por isso, os objetos colocados sob essa região específica não são visíveis, mas, “o fascinante”, concluem os autores, é que “não vemos que não vemos”.
E assim é. Nossas lentes de contato com a realidade (bio-psicológicas), se não forem corretamente prescritas e ajustadas, tanto nos podem cegar, quanto nos tornar estrábicos e desviar nosso foco de atenção para os pontos fracos daqueles a quem invejamos. Mahatma Gandhi nos fornece parâmetros para ajustá-las e nos orienta a prescrever, para nos vermos a nós próprios como somos, as mesmas lentes de aumento que usamos para julgar os outros.
Por outro lado, sabemos todos que, dependendo do ângulo em que nos posicionarmos, nossa visão dos mesmos objetos será diferente, donde se conclui a relatividade de nossa percepção do mundo. Para que pudéssemos ver o outro lado da montanha, teríamos que fazer uso do “olhar curvo” de que fala Evandro de Castro Sanguinetto.[1]
“Mas, o que é ver?”[2] - pergunta Marilena Chauí, enveredando por uma hermenêutica filosófico-religiosa fundada em raízes etimológicas que vão do indo-europeu ao grego e ao latim: “Ver (weid) é olhar, seja para ter ou para tomar conhecimento” (raiz indo-européia). O verbo grego eidô também exprime “esse laço entre ver e conhecer”, assim como o latim, vídeo e viso, donde visita (ver freqüentemente).
Ensina a autora ainda que, na versão latina da Bíblia, visita significa “manifestação de Deus ao homem” para exame de seus atos. Ser por Ele visitado ou ‘Estar sob a visita de Deus’ é ter-Lhe os olhos sobre nós. “Ele, que, em sua onisciência, tem o poder para dizer: provideo (ver de antemão) e por isso é providentia que nos protege contra um outro olhar, o improvisus da caprichosa Fortuna. Se aceitamos Sua visita, também há de proteger-nos do mau olhado, invideo (invejar)”.
[1] Thot (publ. Transdisciplinar da Ed. Palas Athena) n º 77, pág.4/8.
[2] “Janela da Alma, Espelho do Mundo”, in O Olhar, pág.35.

*Trecho do capítulo V da Parte I de meu livro (inédito) "O Olhar da Caprichosa", um Ensaio Transdisciplinar sobre Inveja, Preconceito e questões correlatas.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Do Purgatório à Transcendência (via Meditação)


Há muitos anos, assediada pela criatividade, mas ainda confinada num labirinto mental que faz “do cotidiano um eterno purgatório”, para usar a expressão do sociólogo Morris Berman, assim concretizei poeticamente meus tormentos:

O BARCO ESTÁ AFUNDANDO
E EU SEQUER SEI NADAR.

Bem mais tarde, “descobri” a meditação e ... aprendi a nadar, embora às vezes passe perto de morrer afogada.
Mas, afinal, o que é meditar? Como já disse algures, conceitos existem às mancheias. Técnicas, ibidem. Ensinam-se procedimentos facilitadores (muitas vezes complicadores) ou indutores de um estado meditativo, cujo conteúdo deverá sempre caber ao praticante, ou será simples manipulação autoritária.
Não há fórmulas que se adaptem ao caminhar, que é essencialmente subjetivo. Não há sequer caminho, dizem os grandes mestres, pois tudo é Ilusão (Maya) desde a manifestação primordial (Trimurti). Há, porém, que trilhá-lo todo, até que se possa apreender a veracidade dessa afirmação, que se assemelha a um koan (proposição aparentemente ilógica utilizada pelo budismo japonês para romper condicionamentos mentais lógico-lineares dos discípulos).
A saída dessas proposições – metafóricas ou não -, em geral é muito clara, quase óbvia, como no caso do nó górdio que, impossível de ser desfeito, sucumbe à simples pressão de uma tesoura. É nossa ansiedade em solucionar racionalmente a questão que se torna um obstáculo à compreensão, ou seja, é nossa cegueira que nos impede de encontrá-la.
Embora avessa a conceitos, tenho adotado, como ponto de partida possível para que se tenha uma noção do que é meditar, uma adaptação da feliz concepção que o terapeuta-escritor Rollo May utilizou para a idéia de liberdade. Ensina ele que a liberdade se encontra no exato instante que medeia o estímulo e a resposta.
É esse, a meu ver, o ponto de mutação, o espaço (de tempo) que possibilita o “salto quântico”, o momento em que se dá o livre-arbítrio e eu posso “me-ditar” a ação autêntica - liberta de injunções externas e dos condicionamentos que levam à resposta automática, inconsciente, reativa -, num auto(re)conhecimento de minhas próprias potencialidades.
Essas pausas de disponibilidade ou momentos de vazio no fluxo da consciência são os “lapsos de transição” de que já nos falava o inefável William James que, há um século, abria caminho para a ampliação do conhecimento sobre a alma humana e para o surgimento das novas disciplinas da consciência.
Deepak Chopra, médico e pensador indiano parece corroborar com James ao afirmar que “antes de a mente adormecer, abre-se um rápido vazio”, assim como “entre cada pensamento existe um lapso de silêncio”. Também valido, em princípio, o ensinamento krishnamurtiano de que a meditação é capacidade cerebral, “do cérebro que se libertou do seu condicionamento e, portanto, está funcionando como um todo”.
Meditar, portanto, é um estar-disponível à inspiração e à transcendência, a qualquer momento e em qualquer lugar, desapegado dos estímulos externos que nos induzem a um permanente estado re-ativo. É ser livre no claustro ou no cárcere, é manter-se íntegro numa cultura fragmentada e fragmentadora.
A meditação pode, indubitavelmente – e o afirmo por experiência própria, a par de incansáveis pesquisas, quer literárias, quer “de campo” -, levar a estados alterados de consciência, entendidos como estados de transcendência, facilitadores do acesso a um nível transcendente da existência. Cabe lembrar que aqui “transcendência” é vista sempre como uma condição que pode levar ao transcendente.
Como afirma o experiente investigador Ken Wilber, a “meditação é, na verdade, um caminho instrumental sustentado de transcendência” (...) “é transformação”. Investigadores ocidentais têm atribuído a esses estados as mais variadas denominações, como “transe místico”, “experiência mística”, “mergulho no vazio”, “estado expandido de consciência”, “estado de iluminação”, mas todos falam do mesmo.
De acordo com o famoso psicólogo Abraham Maslow, nessas “experiências de pico” a autoconsciência se perde, deixando para trás os medos, tensões, dúvidas e fraquezas. Há uma identificação com o Todo, mais familiar aos orientais, que a conhecem como samadhi (hinduismo) ou nirvana (budismo). Essa é a entrada no silêncio da alma.
No meu entender, a grande questão não é chegar a esse(s) momento(s) de hiper-consciência, mas retornar com humildade aos labores e relacionamentos do cotidiano, sem nos perdermos novamente em seus “ruídos” e nas indefectíveis armadilhas do ego.

*Terceiro capítulo da Primeira Parte de meu livro, ainda inédito, intitulado "Micro-ensaio sobre a Consciência".