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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Mulher, Sociedade e Direito



MULHER, SOCIEDADE E DIREITO

Um testemunho sobre a condição feminina, a lei, a justiça, o direito, o preconceito e a misoginia. Não deixem de ler: http://ow.ly/LIoVt

terça-feira, 25 de junho de 2013


Acredito que os conceitos abaixo, sobre os quais venho trabalhando há mais de uma década, podem ser objeto de reflexão neste complexo momento pelo qual a sociedade está passando.

 

VIOLÊNCIA  E  CIDADANIA - UM  DIÁLOGO  IMPOSSÍVEL

 

 

Violência é o uso da força - física ou não - para constranger ou para coagir alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa.  É agressão, conduta destrutiva que, em princípio, não se confunde com a agressividade, entendida esta como força ou dinamismo necessário até mesmo à sobrevivência. Assim, a agressividade geralmente é positiva, enquanto a violência é sempre negativa.  Violência ou agressão era a forma de solução de conflitos pré-jurídica, em que se utilizavam as vias de fato, às quais mais tarde vieram a sobrepor-se as vias de direito.  Toda violação de direito é, portanto, uma espécie de violência.

 

(...)

 

Violência simbólica - Por outro lado, um pequeno número de privilegiados que detêm o poder sócio-político, midiático ou econômico, alia-se na criação de formas hábeis de manutenção de seu status, agindo em geral subrepticiamente, com receio de perder a hegemonia.

         Não sendo física, essa invisível “violência doce da razão”, geralmente passa despercebida inclusive por aqueles contra quem se destina, cuja ingênua cumplicidade acaba por legitimar a imposição, ajudando a neutralizar as possíveis reações, pela consensualidade.

 

(...)

 

Alguns, mais conscientizados, movimentam-se no sentido de uma participação efetiva em busca de melhores paradigmas, esquivando-se das torrentes manipulatórias e procurando apreender o verdadeiro significado dos acontecimentos, sem se deixar levar pela visão estereotipada com que lhes são apresentados.  Reconhecem, assim, a premência de uma participação ativa de todos os atores sociais para que se efetive a necessária mudança de comportamento mental, que deve preceder as transformações sócio-político-econômicas.

 

(...)

 

Ser cidadão, portanto, é aplicar e fazer aplicar concreta e indiscriminadamente os direitos (e deveres) humanos, tirando-os de sua condição de mera abstração e desvirtuamento; é reconhecer os pontos de fragilidade do sistema e envidar esforços para sua superação, participando efetivamente da busca de soluções que nos beneficiarão a todos. Assim, o alcance da cidadania plena não se coaduna com a violência sob qualquer de suas formas.

 

 

sc/ Extratos de palestra ministrada no Espaço “Creche da Cidadania”, na Livraria Ícone, em S.Paulo, no dia 23/04/2001, publ. na íntegra, sob o título acima, in Thot 76/2001, pág.37/42.

 

 

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Justiça, Autoridade, Poder e Liberdade

Termos abstratos e relativos como as palavras-chave do tema ora proposto – justiça/autoridade/poder/liberdade -, são potencialmente vagos e ambíguos, pois se situam num campo de contornos imprecisos, ou seja, cada um pode dar-lhes a extensão ou o sentido que melhor preencham seus propósitos. Portanto, o que lhes confere significação é o uso que delas fizermos.
Da ancestral Lei de Talião até os dias de hoje, o conceito de justiça, por exemplo, viajou no tempo e no espaço, assumindo as mais variadas conotações, ao sabor das ideologias predominantes ou do contexto sócio-político e filosófico-cultural, configurando um controvertido quadro no decurso da história.

Aristóteles, para quem o conhecimento pelo conhecimento não fazia sentido, preocupava-se com as “excelências” ou princípios éticos (arethe), dentre as quais incluía a justiça, que todos temos em potência, a ser transformada em “ato” na busca da felicidade. Essa a razão teórica ou contemplação intelectual, vista pelo filósofo como uma virtude dialética que se caracteriza como “justo meio” (a dourada mediania ascendente), libertação dos extremos (carência e excesso).

Já na função racional da alma humana que se expressa como razão prática, Aristóteles apresenta a prudentia , no sentido de discernimento, como a grande excelência ética, ao passo que a expressão teórica se dá pela via da Sabedoria. Para o jus-filósofo Michel Villey “o homem prudente é aquele que age dentro do ‘justo meio’ usando de uma visão crítica”.

O enfoque de que as partes não são iguais e que fazer justiça é tratar desigualmente os desiguais é uma leitura moderna da concepção de Aristóteles, para quem a equidade tem a função de corrigir lacunas, sendo o equitativo e o justo, a mesma coisa, porém o equitativo “é ainda melhor, pois mesmo sendo justo não é o justo legal, mas uma retificação da justiça legal”.

Essa concepção transcende a conotação de igualdade concebida pelos contratualistas do século XIX que, lastreados nos pressupostos individualistas da Revolução Francesa, alimentaram a utopia da igualdade entre as partes, que teve graves consequências sociais, relegando as minorias ao ostracismo e à hipossuficiência.

Nas palavras de Roberto A.R.de Aguiar, “nos tempos de hoje os oprimidos começam a desconfiar dessa justiça” que lhes aparece como um engodo, pois vende a imagem de uma neutralidade que não existe, baseada numa igualdade que também não existe, mas que respalda o exercício do poder e legitima a dominação.

Aqui, o que emerge como “irmã da justiça” é a segurança, em nome da qual os detentores do poder cometem arbitrariedades, onde tudo é possível. Na verdade o mundo se pauta num grande jogo de poder, exercido sempre por grupos minoritários (em termos numéricos), a quem cabe a possibilidade de escolha e de cobrança, a tomada de decisões e o controle.

Ora, é certo que sempre haverá maior distribuição de justiça quanto maior for a possibilidade de participação das maiorias (numericamente) dominadas, hoje vistas como “minorias” numa flagrante inversão de valores tanto dos macro-poderes (governantes) como pelos micro-poderes (por exemplo os pais de família), característicos das sociedades patriarcais.

Em nível internacional, a questão também emerge, na verdadeira exploração e opressão que os países ditos desenvolvidos exercem sobre seus “primos pobres”, num eterno colonialismo hoje rebatizado de globalização, em evidente violência simbólica: “se não fizerem o que mandamos, cortaremos o auxílio econômico, etc.)”.
Esse recurso autoritário é utilizado também nas relações familiares em que os detentores do poder cultural e econômico ameaçam e castigam, às vezes violentamente, sob a desculpa da “proteção”, mulheres e crianças indefesas.

O que confere legitimidade a esse Poder-Autoridade é a aceitação dessas famílias ou nações pelos “subalternos”, aqueles que se curvam à “Lei do Peixe”. Organização, liderança, disciplina, justificativas, estratégias, táticas (dentre as quais, a meu ver, a violência simbólica), são os “recursos” que compreendem a “família do poder”, para usar a expressão do escritor Charles Merrian.

As relações de poder envolvem questões de extrema complexidade como direito, justiça, força, dominação, violência, autoridade, hegemonia, no mínimo, e se “estamos condenados a ser livres” (Sartre), há que exercitarmos nosso espírito crítico para nos capacitarmos ao exercício da liberdade, lembrando que “o conceito de liberdade pressupõe a existência de alternativas” como diz Eduardo Gianetti da Fonseca .

A propósito, Rollo May nos dá um parâmetro para a sutileza desse termo, ao situar a liberdade no exato instante que medeia o estímulo e a resposta. Esse o momento do livre arbítrio, em que eu “me-dito” com discernimento a resposta a ser apresentada a mim mesma e ao outro, que não será uma reação, mas sim uma ação respaldada tão-somente por minha ética interior, minha liberdade ontológica.

*Resumo de palestra ministrada em curso sobre Introdução ao Pensamento Filosófico, em SP, em 19/11/96.


quinta-feira, 21 de maio de 2009

O SITUAR-SE

Uma das situações mais difíceis e estressantes que o ser humano pode enfrentar na vida é sentir-se perdido.
Saber onde estamos requer um estado de atenção que nos permita compreender a posição do outro e a nossa própria. Saber como estamos, implica reconhecer-nos como seres humanos, passíveis de limitações e condicionamentos, fraquezas e defeitos, mas também qualidades e potencialidades.
A real compreensão de nossa situação, seja física, social ou planetária, requer uma observação isenta de julgamentos egóicos, que leve em conta o outro, seja ele quem for.
Enfim, entender porque estamos como estamos, requer a compreensão de que estamos todos inseridos numa complexa estrutura planetária, biológica, cultural e social, que envolve necessariamente aspectos históricos, éticos e psicológicos, no mínimo.
O principal condicionamento mental a que estamos tradicionalmente submetidos é o do pensamento lógico-linear, fruto de uma tradição patriarcal e individualista, que fragmenta a realidade em compartimentos estanques, sem levar em conta a riqueza das diferenças, separando áreas de conhecimento e os próprios seres.
Esse padrão mental, também chamado aristotélico ou cartesiano, tem como característica básica a bipolarização do ser e do saber, pois alimenta arcaicas dualidades como certo/errado, bem/mal ou bom/mau, bonito/feio, amor/ódio ou apego/rejeição, rico/pobre, corpo/mente, homem/natureza, etc. Não somos "isto ou aquilo", mas "isto e aquilo".
Há que levar em conta ainda que competitividade, alienação comodista e consumismo são alguns dos perversos elementos que, baseados na idéia de que a toda causa corresponde um efeito, ou seja, que “cada um tem o que merece”, justificam o autoritarismo e a violência, reforçando a milenar noção de culpa (crime e castigo) e os preconceitos que nos foram introjetados pelas tradições religiosas, familiares e culturais, formando a ideologia da dominação.
O desenvolvimento técnico e a submissão a uma Economia de Mercado globalizada, foram a contribuição final desse pensamento linear, para a crise generalizada que estamos atravessando e que se traduz num aumento progressivo da miséria, drogas, desemprego, corrupção, abandono de menores, criminalidade e mortalidade entre os jovens, desrespeito aos direitos humanos, enfim, numa inversão (ou mesmo perda) total dos mais básicos valores humanos e universais.
Reconhecendo que os parâmetros do pensamento centrado exclusivamente na razão humana são insuficientes para solucionar os problemas dele mesmo decorrentes, hoje se propõe a mudança desse arcaico padrão mental para um paradigma ecocentrado, que leve em conta também a necessária participação relacional entre a natureza, seus seres e saberes, na harmonia do todo sistêmico em que estamos inseridos.
Esse pensamento sistêmico dá elasticidade ao racional, instituindo a possibilidade do "talvez" como contra-ponto às certezas e admitindo a intuição, a sensação, a experiência, a sincronicidade e o insight, como fontes complementares de um conhecimento mais holístico – do grego holos (todo) -, transdisciplinar e dialógico (fundado no diálogo entre as partes a partir do todo e o todo a partir da harmonia destas).
Essa dialeticidade é fundada no reconhecimento da interdependência entre todas as coisas, que a teoria da complexidade (de “com” + plexus = “o que está tecido junto”) encampou dos antigos ensinamentos que apresentavam o mundo como uma imensa e dinâmica teia ou rede de relacionamentos necessariamente interconectados.
O resgate dessa noção faz repensar em todos os níveis o papel perverso do individualismo competitivo e reintroduz os conceitos de alteridade e altruísmo (de alter = outro), cooperação, diversidade e co-participação como imprescindíveis não somente à harmonia social, mas também à harmonia de todas as espécies e, destas, com a natureza.
Socialmente, esse repensar o próprio pensamento, que já se reflete em palavras e atitudes dos mais atentos, leva diretamente à busca de soluções para os graves problemas de exclusão que vitimizam as chamadas minorias que, constituindo na verdade a esmagadora maioria da população, revelam uma das grandes ambigüidades do racionalismo-lógico.
Pobres, negros, mulheres, idosos, analfabetos, servidores públicos, crianças carentes, homossexuais, portadores de deficiências físicas ou mentais, entre outros, formam a massa dos excluídos de sempre, curvando-se à dominação político-econômica de pequenos grupos de privilegiados, beneficiários únicos de uma cidadania irrestrita.
Por outro lado, já não basta repensar nossas relações com a natureza, com vistas à preservação e sustentabilidade dos ecossistemas, reciclando materiais descartáveis, replantando árvores, reaproveitando água, economizando energia e materiais não renováveis. Faz-se urgente e primordial investigar todas as possibilidades para reverter o trágico quadro de degradação ambiental e climática que já vislumbramos, e investir em projetos viáveis a curto prazo, para garantir um mínimo de dignidade à vida.
Nesse contexto cabe não apenas aos dirigentes e cientistas, mas também e principalmente aos pais e educadores, reavaliar o importante papel que desempenham na construção social e na sobrevivência do planeta, levando em conta os novos paradigmas que se impõem à formação responsável das gerações mais jovens.


* Edição de palestra ministrada em 2001 para professores da Rede de Ensino Fundamental.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

As dores que a alma sente

O bom relacionamento entre as pessoas depende basicamente do autoconhecimento que possuem, ou seja, de como elas se relacionam consigo mesmas, com os sentimentos e paixões que induzem seu pensar e agir, enfim, com sua mente e sua alma.
Aprender a observar a interação entre as várias instâncias psíquicas, reconhecê-las e às ardis sutilezas com que se inserem em nosso dia-a-dia, infelizmente têm sido “segredos” reservados, em princípio, apenas a especialistas em Psicoterapia.
Autoconhecer-se é ter consciência das verdadeiras motivações e sentimentos mais íntimos; é ver-nos como realmente somos, reconhecendo que geralmente somos nós próprios os responsáveis por emoções e sofrimentos que, de alguma forma, projetamos naqueles que nos cercam; é distinguir as dores e alegrias da alma, esses sofrimentos, desejos e prazeres que, de diferentes formas, afetam inevitavelmente todos os seres humanos, independente de sexo, escolaridade, cor, idade, credo ou status econômico-social.
Emoções, sentimento e paixões “negativas” como medo, culpa, submissão, apego, frustração, ambição, indiferença, preconceito, mágoa, ressentimento, raiva e ódio, que tanto nos fazem sofrer, sobrepujam a parte “positiva” de nossa psique. Sabemos que os seres humanos são fontes inesgotáveis de sofrimentos, o que torna esse rol meramente exemplificativo, pois inúmeros outros são recriados a cada dia.
A grande questão que se abre à nossa reflexão é a forma como manipulamos esses venenos do espírito, tentando esconder de nós mesmos o que tão facilmente enxergamos nas outras pessoas. A propósito, o grande pacifista Mahatma Gandhi (Mahatma significa Grande Alma) dizia que o mundo melhoraria muito se olhássemos a nós próprios com as mesmas lentes de aumento que usamos para julgar os outros.
Algumas patologias da alteridade são importantes dores que nossas almas sentem, conhecidas como os sete pecados capitais: ira, inveja, orgulho, avareza, gula, luxúria e preguiça. Esta última, que se pode traduzir em comodismo alienado, é co-responsável, ao lado do poder, pelo mais cruel dos maniqueísmos (dualidades) de que se serve a razão humana em sua ânsia de dominação: autoritarismo x submissão, produtor de carrascos e vítimas, que alimentam o mundo de exclusões em que vivemos.
Os estudos a respeito dessas questões básicas da alma humana, realizados transdisciplinarmente, ou seja, considerando-se os ensinamentos de mestres em muitas áreas do conhecimento, sejam psicólogos, sociólogos, filósofos, biólogos, ecologistas, antropólogos, etc., religiosos ou não, se encaminham sempre num mesmo sentido.
Se não tivermos a atenção e a sensibilidade de detectar, sentir e trabalhar em nós mesmos essas dores, acabaremos fazendo com que outros as sofram por nós, inclusive as outras espécies da natureza, com as quais, aliás, temos mantido uma abusiva e pretensiosa relação de dominação.
Acredito que a crise que a humanidade atravessa é o momento mais propício para acordarmos desse “sonho pecaminoso”, que não deve servir mais como um instrumento de projeção de culpa. A saída desse estado onírico de soberbo antropocentrismo e de narcisismo egóico culpável, encontraria no reconhecimento do outro o próprio sentido da vida, exorcizando o ancestral demônio da culpabilidade.
A propósito, a questão da culpa que nos tem sido tradicionalmente imposta de fora, - e que as mulheres, principalmente, conhecem tão bem -, é uma das dores mais agudas que atingem a humanidade, atormentando pacientes e terapeutas por sua conotação arquetípica.
Ao lado do ressentimento, que às vezes carregamos por toda a vida e do preconceito, que é covarde porque se volta sempre contra o mais frágil, a culpa forma um tripé doloroso que se opõe, no mínimo à busca por melhor qualidade de vida.
Nosso ego, instância relacional que é, debilita-se funcionalmente na construção de uma auto-imagem que idealizamos para ser aceitos pelos outros, fazendo-nos acreditar que somos tão bondosos e sábios, que o lado escuro – que os psicoterapeutas chamam de sombra – só existe nos outros. Ledo engano.
Rico ou pobre, branco ou negro, homem ou mulher, quem não carrega consigo alguma culpa, algum medo, alguma mágoa? Em sã consciência, quem pode afirmar que nunca foi sujeito ou objeto de preconceito? Será que nós, que escolhemos com tanto critério nosso alimento físico, como classe privilegiada da sociedade, temos parado para observar que tipo de alimento mental nós consumimos, que vem envenenando lentamente nossas almas?
Segundo os mais profundos pensadores contemporâneos, que resgataram a ideia dos ensinamentos dos grandes sábios da antiguidade, dando-lhe um enfoque mais consentâneo com a modernidade, a vida nada mais é do que uma imensa rede de relacionamentos, cuja grande riqueza é a biodiversidade.
Hoje, se faz premente pensar este relacionar-se em termos planetários inclusivos de todas as espécies da natureza, dentre as quais o homem se destaca como o “Grande Predador”. Pobre “homo-sapiens-demens” – para usar a preclara expressão cunhada por Edgar Morin -, que não se percebe como apenas um entre tantos milhões de filhos de Gaia, a Grande Mãe Terra.
Pobre ser humano, que tem utilizado sua “humanidade” como parâmetro subversivo de suas relações, por um lado, com irmãos “inferiores” e, por outro, com um divino “sobrenatural”, paradoxalmente concebido à sua própria imagem e semelhança, já que Lhe confere suas próprias emoções subjetivas.
Predador primordialmente de si mesmo, o homem se perde em lutas internas e externas, qual personagem-tipo de uma tragicomédia que, no imenso teatro da vida, chora e ri das desgraças que causa a si próprio e aos outros. Retirando (des) a benção divina (graça) de seus atos, dessacraliza a vida agregando peso ao já saturado fardo de culpabilidade inconsciente que carrega, ônus cultural indelével que herdou.
Como já tenho tido oportunidade de lembrar, temos que aprender a dialogar conosco mesmos e com o outro –seja ele quem for -, única maneira de nos exercitar para o diálogo com o divino, numa união meditativa que se dá também por meio da oração, misericordiosa e misteriosamente atendida. Mistério da Vida, mistério do Amor.
Todo relacionamento sobrevive à base de diálogos. Essa é a ética pela qual tanto clamamos, que deve substituir a falsa moral que tomou conta da sociedade. Baseada nessa forma de pensar - que respeita a complexidade do mundo e de cada um de nós - procuro transformar minhas palestras em diálogos com os participantes e meus escritos em diálogos com o leitor, a quem cabe o direito inalienável à interpretação.

* Síntese de palestra ministrada pela autora no ano de 2000, para membros do Rotary Clube Anchieta.

terça-feira, 10 de março de 2009

Complexo de Culpa

PARTE II

A modernidade acrescentou um bom número de novos motivos para perpetuar nosso sentimento antológico de culpa. A revolução sem precedentes nos costumes, em que pese haver trazido uma renovação nos valores, não nos preparou para enfrentar as questões práticas delas decorrentes.
Assim é que a emancipação feminina, se por um lado trouxe novas oportunidades à mulher, como a realização profissional, por outro ampliou seu espectro de culpas. Neste caso, por ver diminuída a sua disponibilidade para cuidar dos interesses da família e, principalmente, por não poder acompanhar de perto o desenvolvimento dos filhos, sente-se entre a cruz e a espada.
Afastados do cenário doméstico grande parte do dia e, às vezes, até à noite, marido e mulher buscam compensar a culpa detonada pelas longas ausências do lar, tornando-se permissivos com os filhos o que lhes acarreta nova dose de culpabilidade.
Bem a propósito, a Dra. Ana Aurélia Di Bella Napolitano, especializada em Medicina Familiar, propõe uma ação educacional no sentido de substituir a malfadada “culpa”, pela expressão “responsabilidade dividida”, desvinculando-a definitivamente de sua dolorosa acepção cultural.
Essa proposta vai ao encontro da teoria da complexidade, que propugna por uma mudança no modelo mental racional que adotamos, o qual, não levando em conta a rede na qual estamos todos inseridos, determina nossos condicionamentos e expressões por leis causais implacáveis.
As mulheres, principalmente, assoberbadas pelo ônus cultural que lhes impôs responsabilidades exclusivas na criação e educação dos filhos e nos cuidados com o lar, enfrentam o grande dilema de conciliar a carreira com o papel de mãe e esposa, o que não lhes permite desfrutar sem culpa as eventuais gratificações profissionais.
Em contrapartida, os homens se sentem angustiados diante da necessidade de se adaptar às novas realidades cotidianas, para as quais não foram preparados emocionalmente. Assim, o marido culpa-se por não ser mais o grande provedor; culpa a esposa por dedicar-se à carreira, em detrimento do lar; enfim, culpa-se por culpá-la.
O fato é que homens e mulheres não foram educados para a “responsabilidade dividida” a que se refere a Dra. Ana Aurélia. Não compreenderam, ambos, assim como a sociedade pós-moderna em geral, que numa sociedade em mudança, todos temos que nos adaptar às novas realidades, despindo-nos dos modelos pré-moldados de comportamento.
A crise decorrente deveria ser encarada como uma oportunidade de aprimoramento social, de aprendermos a nos compreender mutuamente e de nos descondicionarmos dos rígidos papéis sócio-familiares tradicionalmente impostos a homens e mulheres, que a todos limita e infelicita.
Mas não há como nos desvencilharmos desse ônus cultural, enquanto não aprendermos a superar a questão da culpa original, mantida por um modelo de pensamento linear, patriarcal, fragmentador e excludente.
Não basta repensar o modelo, há que colocar em prática os novos paradigmas que subjazem à crise da modernidade e um dos mais importantes é a recolocação da culpa em seu devido lugar. Há que retirar o status de virtualidade permanente que a civilização lhe ofereceu como cadeira cativa.
A culpa está assentada num trono arquetípico, do qual nos dirige tiranicamente, apossando-se de nossa impotente personalidade. Dentre seus escudeiros mais impiedosos, destaca-se o patriarcalismo que, impondo papéis rígidos e diferenciados entre homens e mulheres, a todos subjuga e desnorteia.
Assim, repensar a culpa implica, a priori, repensar nosso modelo mental, questionando as fórmulas prontas que nos têm sido impostas há séculos e que não se adequam à complexidade da realidade pós-moderna. Implica também recolocá-la em seus devidos parâmetros, permitindo que ocupe apenas o estrito lugar de reguladora moral em situações concretas de culpabilidade, erros que devem ser reconhecidos, até para que não se repitam.
Repensar a culpa, portanto, não significa reprimir o sentimento, pois assim o estaríamos reforçando, mas, ao contrário, procurar manter um diálogo franco e realista conosco mesmos, sobre seu cabimento diante das circunstâncias que a originaram.
Estabelecida a procedência do sentimento de culpa, a saída ética e racional é procurar recompor a situação com perseverança e determinação, porém, na medida de nossas possibilidades, sem nos perdermos em atitudes neuróticas ou pretensões onipotentes.
Essas são as bases de um arrependimento honesto, que busca uma reparação eficaz e coerente com a realidade, seja no pedido sincero de perdão ou no reconhecimento público da culpabilidade quando outra pessoa houver sido responsabilizada por nossos erros, seja na satisfação material como suporte da perda ou dano que possamos haver causado.
É importante que saibamos que nem todas as pessoas estão preparadas para perdoar, especialmente após enfrentarem alguma perda importante. Exigir o perdão ou pensar que dele não se é merecedor, são maneiras tão despropositadas de enfrentar a culpa, quanto projetá-la ou negar-se a repará-la.
Perdoar é des/culpar, eximir da culpa, e somente a própria consciência tem esse poder. Portanto, é no auto-perdão que se encontra a efetiva possibilidade de cura.
Mas saber desculpar-se perante o outro é uma forma de demonstrar arrependimento, necessária para aliviar o sofrimento de quem se sentiu injustiçado e, consequentemente, é uma forma de tranquilizar nossa própria consciência culpada e prepará-la para o auto-perdão e a cura.
O processo, muitas vezes, é lento e exige ajuda especializada, mas embora difícil, não é irremediável. Solucionar conflitos internos é uma questão de discernimento, boa vontade e perseverança e não condiz com vitimização e comodismo.
Mesmo se considerarmos que a culpa é um problema arquetípico, profundamente enraizado em nossa cultura, nossa potencialidade para a transcendência e a libertação também o é.
A impermanência é a lei da vida e, portanto, queiramos ou não, acabaremos por nos libertar da culpa, seja ela real ou imaginária. Nossa escolha se resume ao processo, que pode ser rápido ou lento, com maior ou menor dose de sofrimento, pois quanto mais nos dispusermos a mudar, mais rápida e menos dolorosamente se dará a mudança.
Se, ao contrário, nos entregarmos ao processo de vitimização, estaremos prolongando as dores de nossa alma, num martírio inglório e desnecessário que acabará por desqualificar uma parte preciosa dessa incrível experiência que é viver.

Ensaios da palestrante sobre temas correlatos às “Dores da Alma”:
Submissão – in THOT nº 72, Ed.Palas Athena, p. 69/75;
Violência e Cidadania: Um Diálogo Impossível – in THOT nº 76, p.37/42;
Ressentimento – in THOT nº 77, p. 44/52.

Leia a primeira parte: Parte I

terça-feira, 3 de março de 2009

A Luta da Mulher contra a Violência

Comemorações como o Dia Internacional da Mulher, me soam como uma condescendência um tanto hipócrita com grupos considerados minoritários. Afinal, o que significa a existência de um dia dedicado à nossa luta, senão a confirmação da dolorosa realidade de estarmos inseridas numa cultura fundada basicamente no patriarcalismo? Alguém já viu um ‘dia’ dedicado ao homem?
O fato é que nossa herança cultural greco-romana não apenas negou, sistematicamente, cidadania às mulheres, como a relegou a um papel subalterno, no qual a violência real ou simbólica sempre se revelou onipresente.
Não obstante, porém, o sistemático condicionamento a que nossos cérebros têm sido tradicionalmente submetidos pelo mundo masculino, nós, mulheres temos, sim, conquistado alguns significativos progressos, ao lado dos portadores de deficiência, dos negros, dos homossexuais, e outras tantas chamadas “minorias” que começam a vislumbrar uma tendência à igualdade (meramente formal, ainda), mais por contingência econômica - já que vivemos num mundo de Mercado -, do que por conscientização igualitária.
Mas o senso comum ainda alimenta preconceitos em ditados populares do tipo “Em briga de marido e mulher, não se põe a colher”, que subestima a violência doméstica ou em piadas de humor no mínimo duvidoso, que nos desqualificam como seres pensantes e deliciam os cérebros e egos dos menos competentes dentre os representantes dos machos da espécie humana, que se iludem com devaneios de superioridade de gênero e grau.
Tão sofredores quanto as mulheres, esses seres atormentados submetem-se à tortura de ter que demonstrar aptidões que nem sempre possuem, mas que lhes foram impostas pelo racionalismo, herança cultural que nos condiciona a agir sob a égide das estereotipias. Pesa-lhes a responsabilidade de terem que provar serem sempre competentes, provedores do lar, mantenedores da “honra” (palavra cuja ambiguidade mereceria, por si só, uma palestra) e outros baluartes da alegada supremacia masculina, fundada na força física.
Assim é que todos nós, homens e mulheres, nos tornamos vítimas do mito da superioridade do (auto-proclamado) sexo forte, ao qual nos vergamos submissos, sem perceber a violência simbólica contida nas pretensas verdades que nos têm sido incutidas há milênios e que só aproveitam aos poderosos.
A manipulação daqueles que venderiam a própria alma visando a manutenção do status no panteão masculino, leva não somente à bipolarização de direitos e deveres entre os sexos, mas também à fragmentação social geradora de mais e mais exclusões. Assim, as chamadas minorias, na verdade compostas pela imensa maioria dos homens e mulheres, são subjugadas intelectual e moralmente pelos detentores da verdade (e do dinheiro) e transformadas num imenso contingente de deficientes cívicos.
A insegurança e o medo acabam por contribuir decisivamente para a fragilização do eu individual e coletivo, selando a hegemonia do autoritarismo - contrapartida da submissão. Reconhecida a fragilidade, e isto se aplica principalmente à questão feminina, emergem carências e se acentua o medo da perda de eventuais e até supostos "bens maiores".
Geralmente supervalorizados por ingenuidade ou medo da liberdade, esses bens tanto podem ser representados pela prole, quanto por um falso status, metaforizado, por exemplo, na "rainha do lar". Ao medo da perda, pode juntar-se ainda a também ilusória segurança de viver sob as asas protetoras de um "pai" - representado pelo Estado, o patrão ou o marido todo-poderoso -, que teria o condão de nos isentar de responsabilidades.
O temor infantil da rejeição paterna renasce e se apresenta como insuportável a um ego fragmentado pela introjeção da culpa, seja individual ou social, formando um quadro protelatório de decisões, cada vez mais propício à instalação do conformismo e da mesmice. Krishnamurti nos ensina que é dessa dependência medrosa que nascem todos os nossos problemas, pois, onde houver medo sempre haverá ansiedade, ódio, ciúme, posse e dominação.
Em outras palavras, o medo é sempre gerador de violência, cuja banalização nos relacionamentos íntimos e/ou na convivência familiar, manipulada de forma estereotipada, aumenta e radicaliza o preconceito, deteriora a auto-estima e realça o dualismo vítima/carrasco. Cria-se aí a possibilidade da vítima, prevalecendo-se da situação, lançar um forte apelo emocional ao sentimento de compaixão dos que compartilham o seu entorno, os quais ingenuamente acabam por perpetuar a dualidade, agora na forma protegido/protetor.
Eventualmente, mulheres que adotam o papel de vítimas se comprazem na chantagem emocional de filhos, amigos, compadres, vizinhos compadecidos ou mesmo de membros de incautas organizações assistenciais que, ávidos por diminuir carências, acreditam cumprir sua missão alimentando a dependência infantil e ociosa dessas sofridas, imaturas e inconsequentes almas, que por sua vez se tornam algozes de seus bem intencionados protetores, inaugurando um novo círculo vicioso.
As partes envolvidas se esquecem que o discernimento é um pressuposto indispensável para o cultivo e aprimoramento de sentimentos nobres como o amor e a compaixão, cuja existência só faz sentido no exercício da solidariedade responsável e transformadora, caso contrário, eles se anularão no perverso jogo de poder que rege as relações de autoritarismo.
Outras vezes, na busca de uma saída "honrosa" para a situação, o ego (nossa instância relacional), enseja a adoção de mecanismos de defesa reveladores de uma violência contida que reflete o cinismo vigente. Mas a humildade, como virtude, é consagradora da alma e não combina com o servilismo medroso e hipócrita de quem se inclina diante de outrem com o coração magoado ou manchado de ódio.
A falsa harmonia exterior da razão cínica pode tornar-se insustentável a ponto de inviabilizar todo diálogo - pressuposto básico do conviver -, levando, em momentos de crise, a explosões de violência irracional por uma ou ambas as partes envolvidas na relação de dominação.
Muitas, dentre nós, passaram a vida preenchendo as expectativas da sociedade, dos pais, do marido e dos filhos, sendo cobradas e até agredidas quando não as preenchiam totalmente. Quem preencherá nossos sonhos, nossos desejos, nossas carências?
Em suma, acredito que o trabalho de todos que estão envolvidos com a luta pela não-violência contra a mulher, passa necessariamente pela conscientização de que o problema é muito mais abrangente, pois está enraizado, no mínimo, em arcaicas questões culturais.
A meu ver, tão importante quanto resolver situações graves e específicas, que emergem diuturnamente, será desenvolver um trabalho paralelo de reconquista da auto-estima, estimulando a ideia de que a dignidade é tão importante quanto a própria sobrevivência. Estamos o tempo todo fazendo escolhas e, se nem sempre podemos escolher o que fazer, haverá sempre a possibilidade de escolher como fazer para minimizar o sofrimento.
Urge clamar por políticas públicas efetivas para preservar a dignidade e a integridade da mulher, como ser humano completo que é, cuja realização não pode mais estar ligada exclusivamente ao papel de objeto, consubstanciado na esposa subserviente, dona de casa prestimosa e mãe dedicada, que lhe foi destinado.
Já é hora de abandonar a vitimização e dizer um basta ao mero paternalismo que corrompe nossas mentes e nossos egos, transformando-nos em cidadãs capengas, alijadas de direitos humanos básicos e inalienáveis como a liberdade, o respeito e a dignidade.
Vamos exercer de fato e com a eficiência com que cuidamos de nossos lares, os direitos que nos são constitucionalmente assegurados, especialmente o de liberdade de expressão, como arma potente nessa luta tantas vezes inglória. Lutar pela não-violência é não compactuar com a vilania, utilizando de todos os meios pacíficos na solução dos conflitos sem aguardar passivamente que as coisas aconteçam, como ensinava Gandhi.
Temos que nos posicionar desde o início de cada relacionamento, impondo-nos como seres humanos completos e não admitindo concessões sequer ao primeiro ato de agressão ou indignidade. Perdoar sim, mas não permitir jamais que uma única violência se repita é a única forma possível de nos libertar e romper com essa saga que já nos acompanhou por tempo demais.
Sabemos que esses problemas são dificílimos e muito complexos e, até por isso, temos que direcionar nosso combate às causas e não apenas às conseqüências, como estratégia para que consigamos, no mínimo, selar um armistício, um pacto de não-violência e de cooperação mútua, nesta Guerra que é de todos nós.
É imperativo, portanto, que as mulheres se façam ouvir, não com lamúrias que banalizam a questão, mas com a autoridade de quem sabe que tem muito a oferecer a uma sociedade cuja crise talvez se deva, em parte, exatamente à ausência da participação feminina.


* Edição de pronunciamento feito pela autora em 10/10/2000, em Mesa Redonda realizada pela Escola de Educação e Unidade da Mulher, na Sala de Cultura Urusvati.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A Educação e os modelos de pensamento

O raciocínio lógico-dedutivo, que até hoje utilizamos como modelo fundamental para a formação de nossas crianças (na família, nas escolas, na Igreja), remonta à cultura grega, realimentado de tempos em tempos, por pensadores racionalistas (ou neo-platônicos).

Assim, noções como a da sobrevivência do mais apto (Darwin), do átomo como uma estrutura rígida e indivisível (Newton), e de que a mente é separada do corpo (Descartes), fortaleceram os princípios da causalidade (a cada ação corresponde uma determinada reação) e da separatividade (eu sou eu, você é você), reforçando a noção de culpa (cada um tem o que merece) e, conseqüentemente, a exclusão.

Todos esses ensinamentos nos foram transmitidos de forma a exacerbar um individualismo competitivo (o que importa é vencer), excludente (os perdedores são incompetentes e não merecem consideração) e materialista (cada um vale pelo que tem, e não pelo que é).

Esse padrão mental linear e reducionista a que fomos condicionados nos apresenta, pois, um mundo sem saídas, que tem como característica básica a bipolarização do ser e do saber, já que alimenta arcaicas e perversas dualidades como certo/errado, bem/mal, apego/rejeição, rico/pobre, forte/fraco, sujeito/objeto, etc.

Nesse contexto, nosso mecanismo de fuga é nos entregarmos a uma alienação comodista, que aceita soluções prontas e imediatistas, que nos são dadas como verdade absoluta, na forma de estereótipos e de ditados populares. A falta de saídas criativas, que é fruto de um automatismo que privilegia o argumento da autoridade, transforma em senso comum noções sem fundamento na realidade, que perpetuam preconceitos e favorecem uma ideologia de dominação, que se resume em exclusão social e violência.

A supervalorização do desenvolvimento técnico-científico e a submissão a uma Economia de Mercado globalizada foram a contribuição final do pensamento linear para a crise generalizada que ora atravessamos e que se traduz, em suma, no desrespeito progressivo aos direitos humanos, numa inversão, ou mesmo perda total dos mais básicos valores universais.

A par de atingir a sociedade como um todo, essa situação se reflete profundamente na área da Educação, atingindo alunos e professores que se defrontam com questões como a miséria, o desemprego e a desagregação familiar crescentes, a par da desenfreada proliferação de drogas e violência no interior das próprias escolas, não bastassem os problemas específicos que a missão educacional envolve.

Reconhecendo que os parâmetros do pensamento centrado exclusivamente na razão humana são insuficientes para solucionar os problemas dele mesmo decorrentes, hoje se propõe a mudança para um paradigma ecocentrado. Melhor dizendo, propugna-se por um deslocamento do antropocentrismo – pensamento centrado no homem, que utiliza a natureza segundo seus interesses, como um bem a ser dominado -, para a noção ecológica, que leva em conta a necessária participação relacional entre natureza, seus seres e seus saberes, na harmonia do todo sistêmico em que estamos inseridos.

A essa maneira de pensar deu-se o nome de pensamento sistêmico, pois dá elasticidade ao racional, admitindo a intuição, a meditação, o sonho e o insight como fontes complementares do conhecimento, que é necessariamente multicultural e transdisciplinar. A utopia passar a ser vista como “esperança revolucionária”, para usar a expressão do educador Paulo Freire.

Quanto à formação educacional institucionalizada, passa a permitir a elaboração de currículos mais integrados à realidade do aluno, nos quais as várias disciplinas são vistas como interdependentes entre si e com a totalidade do conhecimento a ser transmitido, mas voltadas às necessidades concretas da vida.

A idéia central do pensamento sistêmico foi enunciada por Pascal como a impossibilidade de se conhecer as partes sem conhecer o todo, assim como é “impossível conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes”. O cerne dessa idéia, desenvolvida entre outros pelo filósofo francês Edgar Morin, é distinguir, sem separar.

O reconhecimento da interdependência de todas as coisas, embora se apresente com nova roupagem, sob o título de Teoria da Complexidade, foi encampado dos antigos ensinamentos que apresentavam o mundo como uma imensa e dinâmica teia ou rede de relacionamentos que a tudo interconecta. A Biologia, a Física Quântica (sub-atômica), a Informática e a Filosofia pós-moderna tiveram extraordinário avanço com a adoção dos “novos” princípios que informam o pensamento complexo.

Edgar Morin resgatou o antigo sentido do verbo latino complexere (abraçar), entendendo o pensamento complexo (com + plexus (enlaçamento) = “o que está tecido junto”) como a conjugação entre o pensamento linear (tão útil às questões mecânicas) e o pensamento sistêmico (mais apropriado aos problemas bio-psico-sociais).

Complexidade, assim, passa a ser entendida filosoficamente como uma visão mais abrangente da vida, do homem e do mundo, com suas semelhanças, diferenças e contradições, que se interpenetram e interagem entre si, de maneira invisível, mas profunda.

Entender o pensamento complexo, portanto, é compreender que, entre o sim e o não, existe uma gama de possibilidades que se revelam como um talvez (princípio da incerteza) e que as coisas não são isto ou aquilo, mas isto e aquilo (princípio da inseparabilidade e, portanto, da inclusão).

Se o “pensamento complexo é aquele que pratica o abraço”, como diz Morin, conceitos como alteridade e altruísmo (de alter, “outro”), cooperação, diversidade e co-participação devem ser abraçados como imprescindíveis não somente à harmonia, como também à própria sobrevivência de todas as espécies, inclusive a do homo-sapiens.

Nesse contexto, cabe aos educadores reavaliar o importante papel que desempenham na construção social, levando em conta os novos paradigmas que se impõem à formação responsável das gerações mais jovens. Coragem (agir com o coração), criatividade, consciência ética e disposição para o aprendizado e o trabalho, são alguns dos fatores indispensáveis para que concretizem a nobre missão pela qual optaram.


Resumo de paletra ministrada para professores da rede pública de SP, em outubro de 98.



quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Violência e Cidadania: Um Diálogo Impossível


Violência é o uso da força - física ou não - para constranger ou para coagir alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa. É agressão, conduta destrutiva que, em princípio, não se confunde com a agressividade, entendida esta como força ou dinamismo necessário até mesmo à sobrevivência. Assim, a agressividade geralmente é positiva, enquanto a violência é sempre negativa. Violência ou agressão era a forma de solução de conflitos pré-jurídica, em que se utilizavam as vias de fato, às quais mais tarde vieram a sobrepor-se as vias de direito. Toda violação de direito é, portanto, uma espécie de violência.

O conceito de cidadania tem variado no tempo e no espaço. Na Grécia Antiga, apenas os homens livres eram cidadãos, ficando excluídos os escravos, as mulheres e os estrangeiros, ou seja, a maioria da população. Até fins do século XIX, guardadas as devidas proporções e os diferentes contextos, a situação não era melhor, especialmente nas colônias européias sob a égide escravagista.

Exemplo dramático de ausência de cidadania é também a exploração de mão-de-obra na Revolução Industrial, com suas trágicas condições de vida e profundas injustiças sociais paradoxalmente fundamentada nas propostas igualitárias do liberalismo jurídico e econômico então dominantes. A respeito, destaquei em meu Ensaio “Consciência Linear e Relações Humanas”, publicado na Revista Thot 68/98, um impressionante relato de Segadas Vianna, como alerta aos simplórios ou mal-intencionados propugnadores do neoliberalismo desestatizante.

Mesmo no “democratizado” século vinte, em períodos de ditadura, a cidadania, em seu sentido mais estrito, de liberdade de ir e vir ou de votar e ser votado, tem sido praticamente abolida, mas são geralmente regimes de exceção, em que vigora o Estado de Força e não de Direito, muitas vezes demasiadamente prolongados.

Nossa experiência democrática é muito recente e submissa às ideologias dominantes. Mulheres, analfabetos e jovens entre os dezesseis e os dezoito anos de idade recém-conquistaram o direito de voto. Nosso modelo mental ainda é essencialmente dualista e, portanto, excludente, não obstante a chamada Constituição Cidadã (1988) ofereça garantias contra a discriminação.

Na prática, há uma fragmentação social geradora de grupos privilegiados, com consequente exclusão das “minorias” que, na verdade, compõem a maior parte da população. Essas "minorias" são levadas a se fechar em grandes guetos, nos quais muitas vezes se comportam como ratos enjaulados, que se devoram uns aos outros na luta por espaço e sobrevivência, seja por falta de união ou de acesso ao conhecimento e às condições mínimas de saúde, lazer, higiene e trabalho, isto é, por não gozarem da verdadeira cidadania.

Violência simbólica - Por outro lado, um pequeno número de privilegiados que detêm o poder sócio-político, midiático ou econômico, alia-se na criação de formas hábeis de manutenção de seu status, agindo em geral subrepticiamente, com receio de perder a hegemonia.

Não sendo física, essa invisível “violência doce da razão”, geralmente passa despercebida inclusive por aqueles contra quem se destina, cuja ingênua cumplicidade acaba por legitimar a imposição, ajudando a neutralizar as possíveis reações, pela consensualidade.

Bons exemplos são a culpabilização dos servidores públicos pelos desmandos da Administração ou as chamadas “leis para inglês ver”, que concedem benefícios jamais auferíveis pela população, por prescindirem de regulamentação, sempre adiada.

O caso mais flagrante, embora haja inúmeros, é o do salário mínimo, fixado num valor que permite tão só a compra de uma cesta básica de alimentos. Emparedados entre a violência real e a violência simbólica, trabalhadores, em geral desempregados ou mal pagos, idosos, mulheres, negros, deficientes, analfabetos, permanecem mentalmente anestesiados, mal se apercebendo da discriminação jurídico-social a que são submetidos.

Dessa forma, tornam-se joguetes de uma mídia-laranja, a serviço de políticos e empresários poderosos, recebendo as notícias por um prisma distorcido, assimilando uma cultura nivelada por baixo e consumindo bens que lhe são impostos como necessidades e que os mantém atados a uma roda de ilusões e ...dívidas.

Alguns, mais conscientizados, movimentam-se no sentido de uma participação efetiva em busca de melhores paradigmas, esquivando-se das torrentes manipulatórias e procurando apreender o verdadeiro significado dos acontecimentos, sem se deixar levar pela visão estereotipada com que lhes são apresentados. Reconhecem, assim, a premência de uma participação ativa de todos os atores sociais para que se efetive a necessária mudança de comportamento mental, que deve preceder as transformações sócio-político-econômicas.

Esse é o verdadeiro sentido do diálogo, pressuposto da cidadania como participação plena, que exige direitos e obrigações recíprocas, cuja práxis demanda, no mínimo, humanidade no trato com o outro, seja ele quem for. Aqui se incluem até mesmo as ações ecológicas, das quais depende o futuro da Mãe Terra e de seus filhos, dentre os quais somos apenas uma espécie, infelizmente a mais predatória. Ouvir a voz da natureza, da qual somos parte, e antecipar os riscos que podemos causar à sobrevivência do planeta é um trabalho tão importante quanto a prevenção de doenças, drogas e criminalidade. É, portanto, uma ação de cidadania.

Cooperação - Todas essas ações exigem cooperação, pois o individualismo e a competitividade são duas das mais importantes causas da fragilidade generalizada e do medo que afetam a população, tornando-a propensa a aceitar a dominação e a violência real ou simbólica que impossibilitam o resgate da cidadania.

Ser cidadão, portanto, é aplicar e fazer aplicar concreta e indiscriminadamente os direitos (e deveres) humanos, tirando-os de sua condição de mera abstração e desvirtuamento; é reconhecer os pontos de fragilidade do sistema e envidar esforços para sua superação, participando efetivamente da busca de soluções que nos beneficiarão a todos. Assim, o alcance da cidadania plena não se coaduna com a violência sob qualquer de suas formas.

· Resumo de palestra ministrada no Espaço “Creche da Cidadania”, na Livraria Ícone, em S.Paulo, no dia 23/04/2001, publ. na íntegra in Thot 76/2001, pág.37/42.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Não-violência

A Mídia, nossos amigos e familiares, nos bombardeiam diariamente com problemas relacionados à miséria crescente, ao abandono de menores, ao abuso sexual, à corrupção, à guerra, à discriminação, às drogas, o que se resume numa palavra que vocês conhecem melhor do que eu: VIOLÊNCIA! A toda hora assistimos, ouvimos, vemos e convivemos, pensamos e até sonhamos com violência, o que no caso da polícia chega ao limite do insuportável, sendo essa profissão considerada pelos especialistas como uma das mais estressantes do mundo.
Estamos tão impregnados de violência, tão prevenidos contra ela, que ao menor gesto do outro, revidamos com alguma forma de agressão, seja verbal, gestual ou física, e, assim, vamos contribuindo sem perceber, para aumentar numa proporção alarmante o conflito social.
Nossa proposta é inverter essa situação enquanto há tempo, desfraldando a bandeira da NÃO-VIOLÊNCIA. Se todos sabemos que violência gera violência, claro está que não-violência só pode gerar não-violência, porque desarma o adversário, que esperava uma reação agressiva.
Esta idéia, desenvolvida por Mahatma Gandhi, foi praticada por milhões de indianos na primeira metade do século, levando a Índia a conseguir libertar-se da violenta dominação inglesa sem pegar em armas. Vejam a força da não-violência.
Embora ele tenha morrido há mais de 50 anos, a proposta de Gandhi se torna atual, não apenas porque estamos atravessando uma crise, mas porque também estamos submetidos a uma espécie de dominação - tão assustadora quanto aquela -, a do poder econômico.
Para Gandhi, não-violência, que também pode ser entendida como paz ou mesmo amor no seu sentido mais elevado, é a tradução da expressão ahimsa que, literalmente, quer dizer “não-dano”, ou seja, não causar dano a nenhum ser vivente. Portanto, não é unicamente não matar, mas é também não causar sofrimento, nem alimentar pensamentos e palavras que aumentem os desejos de vingança, ódio ou inimizade, de que o mundo já está saturado.
Em suma, não ser violento não significa abandonar covardemente o posto ou o cumprimento do dever, mas agir na medida justa da necessidade, sem reagir a provocações irresponsáveis e sem usar de violência fútil, inútil e desnecessária.
A não-violência foi concebida por Gandhi como uma força mais ativa, mais efetiva e “infinitamente mais potente do que as armas inventadas pelo homem”, porque não gera, como estas, um círculo vicioso de medo, ódio e ressentimento.
Sempre que agimos de forma agressiva,, mais cedo ou mais tarde, temos enfrentar as consequências de nosso ato. Portanto, não valeria a pena ser violento, nem que fosse tão-somente por puro egoísmo. Um momento de reflexão antes de agir, pode literalmente transformar nossas vidas, mas essa capacidade só se adquire com a prática diária, que deve começar nas situações mais simples, para que se torne um hábito.
Estamos tão condicionados a reagir instantaneamente a pretensas provocações e a agir impensadamente, sem considerar os sentimentos e as emoções do outro, que esquecemos a importância dos pequenos gestos de atenção.
Nos sentimos injustiçados, sem perceber a nossa participação na injustiça generalizada. Participação é palavra-chave e tem que ser assumida com responsabilidade. Queiramos ou não, direta ou indiretamente, participamos desse caos globalizado, seja por omissão, seja por extrapolar nossa função, nossa competência, enfim, nossa missão.
Fazer apenas nossa parte, reconhecendo que cada um de nós tem direitos e obrigações, sentimentos bons e ruins, enfim, limites e qualidades que devem ser respeitados, é contribuir para uma sociedade mais harmônica e justa.
Não basta reconhecer que todos temos um lado negativo, se o colocarmos para fora de forma agressiva. Temos que aprender a transformar essa energia, usando-a positivamente, na construção de um futuro mais digno e menos sofrido para nossas crianças e, porque não, para usufruir uma velhice mais saudável e tranqüila, entre pessoas que não nos desprezem por nosso passado violento.
Ser justo é reconhecer no outro um ser humano que sofre e erra, como nós, e que, muitas vezes, por não ter tido acesso a um emprego ou à instrução, por não ter recebido afeto ou orientação familiar, ou até mesmo por falta de alimentação e ambiente adequados ao desenvolvimento inteligente e responsável da personalidade, torna-se desajustado.
Devo lembrar ainda uma vez que, praticar a não-violência não significa “bancar o bobo”, deixar de cumprir o dever ou fugir acovardado, mas, ao contrário, é demonstrar grandeza e humanidade, usando, quando necessário, nossa autoridade responsável e não um autoritarismo pernicioso.
Portanto, participar é dar de si para uma sociedade mais justa, não é retribuir na mesma moeda contra adversários que não tiveram as mesmas oportunidades que nós, mas ter a coragem e a grandiosidade de possibilitar-lhes agora, dentro de nossa competência, uma chance de reabilitação e de dignidade.

*Edição de palestra ministrada em 1988, para a Polícia Militar.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A arte de pensar

Todos acreditamos sermos livres para pensar, mas será que sabemos ou podemos usar essa liberdade?

Para encontrar a resposta, devemos lembrar que são as nossas emoções, sentimentos e condicionamentos que geram e alimentam os nossos pensamentos. Devemos ainda ter em mente que mantemos uma relação de interdependência com o meio cultural que nos cerca, cuja influência determina constantes modificações em nossa estrutura.

Além disso, nossa inserção numa determinada tradição cultural faz com que sejamos herdeiros de alguns fortes elementos nela contidos, sempre realimentados por aqueles que estão interessados na manutenção de algum status, como o poder político, econômico ou religioso.

Alguns desses elementos, mantidos na cultura ocidental desde os gregos são, por exemplo, o patriarcalismo, o individualismo, a abordagem compartimentada das questões, etc. Esse modo de ver o mundo baseado na lógica aristotélica é muito reducionista, pois tende a excluir tudo e todos que não se enquadrem no padrão mental puramente racional, seqüencial e dualista.

A noção que ele nos dá dos fenômenos, é a de que eles se enfileiram um atrás do outro, produtos que seriam de uma causalidade única e imediata, sem levar em consideração as circunstâncias de sua produção e os incontáveis elementos que se combinam.

Esse modo de pensar nos apresenta um mundo de verdades inquestionáveis, onde o argumento da autoridade deve sempre prevalecer. Assim, ou você acredita e obedece, ou está excluído. É o mundo do ‘sim ou não’, ‘certo ou errado’, ‘rico ou pobre’, ‘forte ou fraco’, onde a razão é soberana e as saídas criativas - que podem levar em conta a infinita gama de possibilidades entre esses extremos de dualidade -, são consideradas "irracionais" e, portanto, abortadas.

Nesse sistema linear de pensamento, a educação é apresentada em blocos separados de conhecimento, que parecem não manter nenhuma relação entre si. As disciplinas não se comunicam, orgulhando-se de uma pretensa autonomia que acaba por isolá-las da realidade, que tem na diversidade de saberes e visões a sua grande riqueza.

O mundo não é "isto ou aquilo", mas "isto e aquilo". Há um inter-relacionamento dinâmico-circular entre todos os seres e coisas, formando uma rede de interconexões que não pode ser fragmentada, porque perde seus pontos de referência. É o que está acontecendo com o mundo globalizado que, fragmentando o econômico e o social, perdeu seus valores éticos, gerando a crise que estamos atravessando.

Esse processo é o mesmo em todos os sistemas, inclusive o humano, em que as partes (os sub-sistemas) se relacionam entre si para o bom andamento do todo, que depende da harmonia entre elas, caso contrário, entrará em crise.

Mas o fato é que toda crise é necessária e muito bendita, ao contrário do que imaginamos, pois é uma oportunidade de transformação que nos permite usar novos referenciais. Se estivermos atentos, podemos perceber seus sintomas antes que se agrave - seja uma crise física ou psicológica, individual ou coletiva -, e reequilibrar o organismo ou a situação paulatinamente, até que se encontre a justa medida.

A vida nada mais do que uma imensa teia de relacionamentos entre todas as coisas, os seres e saberes, ensinamento que remonta a antiquíssimas visões de mundo, repetitivamente divulgadas por sábios e santos de muitos lugares e épocas. Essas concepções milenares vêm sendo agora resgatadas e atualizadas à luz das mais recentes descobertas científicas, por estudiosos de vários ramos do conhecimento, que se interconectam transdisciplinarmente.

A essa múltipla conexão de vários elementos entre si e com o todo, eu chamaria de transconexão, ou seja, o estabelecimento de ligações com o maior número possível de pessoas, disciplinas ou quaisquer outros elementos necessários ao conhecimento, fazendo-os dialogarem entre si.

Para isso, faz-se necessário que as pessoas envolvidas usem sua visão sistêmica, capacidade intuitiva, disponibilidade para se reciclar, auto-estima e segurança, deixando de lado seus condicionamentos e pressupostos. Há que usar nossas potencialidades, para que possamos abrir-nos para o novo.

Humildade, tolerância, compaixão, solidariedade, e outros alimentos do espírito, um pouco em desuso devido à competitividade desenfreada e predatória que hoje campeia, poderiam também ser resgatadas com toda a força de seus significados, como um processo de cura pessoal e social, de superação da crise e de liberdade mental.

O importante é perceber aqui que, embora tenhamos sido fortemente influenciados por uma tradição cultural excludente e fragmentadora, nossos pensamentos não têm que, necessariamente, se submeter ao mero raciocínio lógico-linear, que nos foi apresentado como única possibilidade mental "normal".

A propósito, a busca ansiosa (ou neurótica) pela normalidade, que se traduz por um medo fóbico de transgressão às verdades autorizadas, tem criado gerações de "normóticos" do saber e do poder, que impedem toda criatividade inovadora.

Ao defrontar-se com os paradoxos naturais de que a vida e o homem são pródigos, as neuroses transformam-se na esquizofrenia coletiva que aí está a deformar ainda mais a realidade. Estou convicta de que esse quadro pode ser revertido e também de que as armadilhas que o pensamento padronizado e repetitivo coloca em nosso caminho, podem ser facilmente detectadas e desarmadas.

O mundo não é um "dado", mas um "construto", ou seja, algo que tem que ser construído cotidianamente, com os elementos de que dispusermos. Nessa engenharia, o pensamento é o grande arquiteto e com ele podemos embarcar em sempre renovada e maravilhosa aventura, se ao raciocínio lógico agregarmos nossa imaginação criadora, nossos sonhos e insights, nossa inteligência emocional e experiências de vida, a par de uma visão transdisciplinar dos vários ramos da ciência.

É necessária coragem (agir com o coração) para evitar padrões de comportamento discriminatórios, moralistas, conformistas; não ter medo de inovar ou ser diferente; jogar fora as catalogações, o script repetitivo e estressante e ousar encarar nossas limitações e potencialidades, como formas de pensar criativamente.

Saber rir espontaneamente, inclusive de nós mesmos, sem precisar lançar mão de piadas preconceituosas ou vulgares, utilizando outras formas de irreverência sutil e inteligente contra as verdades absolutas e seus "donos" prepotentes, são maneiras saudáveis de propugnar pela liberdade de pensamento e de expressão.

* Edição de Palestra realizada em 31/10/2000 para estudantes de Nutrição.

O Belo



O conceito de ‘belo’, em princípio, é cultural e não universal, pois - como de resto, os conceitos em geral -, está diretamente relacionado às crenças e conhecimentos dominantes num determinado tempo e/ou num determinado espaço. Melhor dizendo, geralmente somos levados a aceitar ou rejeitar as expressões humanas de acordo com a ideologia que perpassa cada sociedade.

Assim é que, apesar do esforço atual por ‘posturas politicamente corretas’, que tentam abafar preconceitos, a arte africana, por exemplo, ainda é considerada primitiva e praticamente desconhecida no Ocidente, que padece de um inexplicável ‘branqueamento cultural’. A propósito, o black is beautiful é uma noção que quase sempre se restringe aos movimentos de conscientização cultural promovidos por militantes afrodescendentes.

A noção da beleza, portanto, é muito abrangente e tem a ver com tudo o que a vista alcança. É uma questão sensorial infelizmente ‘represada’ pelo raciocínio, que contrapõe o feio ao belo, o rico ao pobre, o certo ao errado. E, numa cultura de mercado, como a nossa, tem a ver também com o que nos é impingido como um valor a ser alcançado, mas que interessa realmente tão-somente ao Poder Econômico. Nesse sentido a beleza negra é hoje decantada na exata medida em que se apresenta como um novo filão no mercado consumidor.

Para a cultura helênica, o máximo parâmetro de beleza se concentrava no efebo, em que pese a importância da divindade feminina – haja vista o mito de Demeter/Perséfone.-. Mas, a literatura grega gira em torno do ‘homem jovem cidadão’ cuja beleza interior e exterior é ressaltada, em detrimento da mulher, praticamente invisível naquela sociedade. Essa ambigüidade – que contrapõe o mito feminino à realidade patriarcal – foi-se tornando mais evidente a partir dos pré-socráticos e se consolidou no raciocínio aristotélico, a partir do qual a lógica se cristalizou, subestimando a mitologia.

Embora sejamos herdeiros dessa tradição cultural, o culto ao físico (masculino) tão caro aos helênicos hoje se aplica tanto a homens como a mulheres, numa ditadura da beleza que se impõe a ambos. Aos homens é impingida a necessidade de sentirem-se ‘sempre’ jovens, a qualquer preço, seja na vaidade de serem vistos como ‘sarados’, ou pela união com belas mulheres, com idade para serem suas filhas, mesmo que para alcançar esse objetivo vejam desfeitas longas uniões anteriores. A beleza está compreendida na juventude ou mesmo na capacidade de atraí-la.

Às mulheres é imposta a ditadura da magreza, que gera deturpações como a anorexia, e também da ‘eterna juventude’ que a indústria cosmética alimenta com a cumplicidade da mídia falada e escrita, em submissão ao Poder Econômico que chega a deturpar a própria ética médica, com desnecessárias cirurgias plásticas, que vão da lipoaspiração a perigosos implantes.

Mas, talvez se possa falar num consenso (ainda que relativo, como tudo na vida) sobre o belo, que se dá na admiração pelas incríveis paisagens engendradas pela natureza - da qual somos parte integrante -, ou suas mais artísticas representações. Admirá-las nos deixa inebriados - numa inefável sensação de prazer e paz, amor e união com o Todo -. Praias paradisíacas, montanhas enigmáticas, rios caudalosos ou regatos cantantes, assim como rostos sublimes, se aliam às flores, à fauna, e ao próprio cosmos para nos encantar.

Infelizmente, o homem moderno está muito ‘eletro-tecnicamente ocupado’ para contemplar as estrelas como sugeria o poeta. A propósito, a poesia engajada também quebrou, de certa forma, o encanto da beleza pura, das palavras extasiantes, não obstante sua eventual ‘beleza sociológica’, o que demonstra a relatividade e abrangência do conceito.

A licença poética, que permite o jogo de palavras, com suas conotações metafóricas, ainda é, quando bem utilizada, um fator de êxtase intelectual, uma forma sutil de cultivo ao belo. A boa música é outro fator de reencantamento da vida, um pouco relegada hoje, pois a criatividade atual muitas vezes se resume a mero ruído, às vezes acompanhado por gritos e letras extremamente vulgares.

O fato é que pintores, dramaturgos, escultores, poetas, compositores se imortalizam em obras que enlevam geração após geração, porque dizem diretamente à alma, num tempo em que (quase) tudo é descartável e a criatividade se nivela às necessidades primárias. A arte, que parece ter nascido com o próprio homem, tem sido a forma mais decantada do belo, inclusive em suas formas surrealistas, enigmáticas ou até mesmo escatológicas.

Mas, por deslumbrante que seja, a arte é mera representação da vida, esta sim revestida da mais profunda e enigmática beleza que o ser humano pode contemplar. Saber vivê-la em sua plenitude, com dignidade e Amor, reencantando o mundo, é a mais nobre forma de expressão do Belo que se pode conceber.

*Resumo de palestra ministrada em curso de Introdução à Filosofia.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A Violência simbólica como fator de perda de auto-estima e de direitos dos servidores públicos*



Há muitos anos venho participando de Congressos e Seminários sobre servidores públicos e confesso que me sinto bastante frustrada com os resultados - se é que existem – dessa luta dolorosa por aceitação e dignidade que a classe tanto tem feito por merecer. Estava meditando sobre as possíveis causas dessa impotência, quando me caiu em mãos um artigo em que se relatava interessante experiência americana sobre a atenção.

Trata-se mais ou menos do seguinte: Num estádio fechado, foram reunidas duas equipes de jogadores. Uma, usava uniformes totalmente brancos e portava uma bola branca; a outra usava roupa totalmente preta, e portava uma bola preta. Ambas foram reunidas em um grande círculo, em que as cores se revezavam: um branco, um preto, um banco, um preto, e assim por diante.

Foi explicado aos participantes que o jogo consistiria em fazer simultaneamente passes -sempre para a própria equipe. A platéia também foi dividida em dois grupos: a um foi explicado que deveriam contar o número de passes da equipe branca; ao outro foi sugerido que contassem o número de jogadas da equipe preta.

Pois bem, a certa altura do jogo, sem que ninguém anunciasse, adentrou no estádio um grande gorila - claro que era um homem disfarçado de gorila - que foi até o centro do círculo e fez muitas micagens, inclusive batendo ameaçadoramente as mãos no próprio peito. A seguir, retirou-se, sem que o jogo sofresse interrupção.

Ao final do jogo, foi perguntado à platéia e aos próprios jogadores, o que haviam achado da participação do gorila e ... pasmem: a maioria respondeu: "Que gorila?". Acreditem, a maior parte dos expectadores não havia sequer visto o enorme animal e os que notaram sua presença desviaram os olhos para não perder a contagem!

Meditando sobre essa experiência - que não é apenas uma parábola, é um fato real - tive um insight: Nós não vemos o ‘gorila’! Somos tão submissos àquilo que nos mandam fazer, que simplesmente não enxergamos, não temos consciência do que está acontecendo ao nosso redor, da violência que está em jogo, no jogo do poder.

Isso é o que acontece com a violência simbólica, uma forma sutil, mas, nefasta, de manipulação, que há muito tempo vem sendo utilizada pelos detentores do poder e que consiste na afirmação de algo, como realidade insofismável, que embora não contendo bases sólidas, serve para desviar a atenção popular do arbítrio cometido.

Dessa forma, as questões verdadeiras, estas muito mais sérias, não se tornam motivo de conflito e acabam sendo legitimadas pelo consenso das massas e até pelas próprias vítimas que não enxergam a arbitrariedade embutida e até participam do processo, quer por comodismo, quer por desconhecer sua própria força.

Assim, a ignorância dos problemas estruturais, facilita a eleição de culpados, aliviando a consciência da ralé política e social. Num esforço mal intencionado de personificar o mal, projetam-se todas as mazelas e desmandos sobre alguns "bodes expiatórios", dentre os quais os servidores públicos.

Essa imagem distorcida da realidade que se chama ideologia ou consciência falsa incita a ralé, entendida como aqueles que se deixam levar por ideologias inconseqüentes, a participar de um populismo histérico, insuflado por aqueles que se beneficiam da situação, os ‘fazedores de ralé’ ou, melhor dizendo, os exploradores da ignorância e da submissão popular.

O senso comum é formado por idéias estereotipadas que nos são sistematicamente transmitidas e não passam pelo crivo da consciência, de tal forma que estigmatizamos outros grupos, sem perceber o quanto somos também estigmatizados.

Assim, por exemplo, todos os servidores públicos são vagabundos, corruptos, marajás; todos os aposentados são inúteis; todas as crianças de rua são viciadas e perigosas; todos os pobres são incompetentes. Vocês conhecem outros exemplos de preconceito, principalmente os alimentados por piadas e arremedos grosseiros cotidianamente repetidos contra grupos ‘ditos’ minoritários, como as mulheres, os negros, os judeus, os homossexuais, os portadores de deficiências, etc.
A fórmula utilizada no caso dos servidores públicos é a de colocá-los em oposição aos trabalhadores que "pagam impostos para sustentar a ineficiente máquina administrativa", como se os servidores não fossem também contribuintes e nem mesmo trabalhadores, sendo ‘sustentados’ pelos ‘cidadãos de bem’ (!?).
Põe-se ênfase na ineficiência, ocultando-se as principais razões pelas quais as Instituições Públicas não conseguem dar conta dos problemas que lhe são afetos. São desconsiderados fatores determinantes, como falta de material e de condições mínimas de trabalho e perda de direitos como o de reajuste dos já baixíssimos salários da esmagadora maioria, alimentando a baixa-estima generalizada e degradando a força de trabalho.
O fato é que fazemos parte de uma complexa rede social, que sofre os efeitos de uma cultura competitiva, preconceituosa e dualista que separa os seres humanos em bons ou maus, certos ou errados, vencedores ou fracassados, sem perceber que não somos "isto ou aquilo", mas "isto e aquilo". Tudo isso faz com que perpetuemos a discriminação, seja contra ou a nosso favor. E quanto mais discriminarmos, mais seremos discriminados.

Talvez devêssemos começar a refletir sobre nossa verdadeira participação na perpetuação de uma cultura que faz da arbitrariedade e da discriminação o jogo do contente, no qual nada mais somos do que cidadãos capengas, meras peças que se deixam ingenuamente manipular.

* Edição de palestra realizada no III Seminário Nacional de Servidores Públicos – AFPESP – Guarujá – 25/08/2001.