quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Incesto

Inspiração insolente

persistente envolvente

s’insinua em minha cama

do sonho fugir m’obriga

do sono sair m’instiga

sonambulando obedeço

a perguntar se mereço

parir produtos do incesto.

Acordo sob protesto.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Maioria (i)moral

O filósofo esloveno Slavoj Zizek opõe o fundamentalismo autêntico ao que chama de “fundamentalistas pífios da Maioria Moral”, tomando como instrumento de distinção a inveja como pecado capital: “...o fundamentalista da Maioria Moral é sempre assaltado pela atitude ambígua de horror e inveja em relação aos indizíveis prazeres a que se entregam os pecadores” ... “fundamentalistas autênticos não invejam os diferentes prazeres de seus vizinhos”.[1]


Suas palavras evidenciam a hipocrisia dos puritanos, o jogo invejoso com que temos sido impregnados pela cultura, que faz com que projetemos agressivamente sobre todos aqueles que ousam ser diferentes (pecadores), nosso incomensurável e reprimido desejo de assumir as nossas próprias (pecaminosas) diferenças. A coragem daquele que ‘se assume como realmente é’, é um pecado imperdoável ao olhar do invejoso, vale dizer, da maioria (moral).


Assim é que, premida pela moral, a transgressão aos preceitos incutidos pela tradição patriarcal se nos apresenta como inconcebível e, dessa forma, perdemos a oportunidade de nos individualizar. Sem coragem para enfrentar nosso ‘desejo de pecar’, somos lançados à vala comum da Maioria Moral que se deixa corroer pela inveja.


Vale a pena lembrar que pecado, do latim peccatu, tem o sentido original de transgressão de um preceito religioso, violação da vontade de Deus. Etimologicamente, como ensina Geraldino Alves Ferreira Netto, pecar significa “dar um passo em falso”, de onde se teria originado a expressão “cair em pecado”.


Com o tempo, a Igreja ampliou o espectro pecaminoso, agregando as transgressões contra os homens e, principalmente, contra o próprio corpo, sacralizando o sexo – elegido como o grande tabu – sob o manto da intocabilidade, o que revelaria uma certa fixação pelos problemas carnais.


As pessoas essencialmente invejosas não conseguem se dar o direito ao prazer, privando-se de experiências felizes, e priorizando a crítica e a hostilidade em relação aos outros e a autocomiseração em relação a si próprias. Mas o problema se agrava quando a hipocrisia se instala e os prazeres são exercidos subrepticiamente, pois o ‘gozo secreto’ escapa ao controle externo rompendo às vezes as fronteiras psicológicas, morais, sociais e até as legais.

*Trecho do sub-título 2 (Hipocrisia Social) do cap. VI (Fundamentalistas da maioria Moral), da Parte I (As Faces da Inveja - e questões correlatas) do livro O Olhar da Caprichosa (Em fase de revisão e atualização).

[1] “Budismo Ocidental? Não Obrigado”, Folha de S.Paulo, Caderno Mais, 03/12/2000.

domingo, 11 de outubro de 2009

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Café Filosófico

Numa dessas agradáveis manhãs de domingo, em que trancamos o estresse em casa para desfrutar de um descontraído encontro com amigos e, literalmente, jogar conversa fora, eu e meu marido nos dirigimos ao clube sem maiores pretensões e acabamos nos deleitando com um autêntico café-filosófico.
Éramos quatro à mesa num blá-blá-blá ao sabor do vento, quando alguém, gentilmente, nos ofereceu um café. Meu marido prescindiu: - “Pra mim não, obrigado”, enquanto eu informava que o meu era puro mesmo, sem mais nada. “É que eu já sou doce, brinquei”. Por sua vez, nossos amigos expressaram suas opções: um com açúcar e outro com adoçante: “quatro gotinhas, por favor”.
Quatro cabeças quatro sentenças, filosofamos em uníssono. Na simples degustação de um café, uma cabal demonstração da diversidade. Nossos sentidos reagem aos estímulos de diferentes maneiras, nossas mentes apreendem a realidade de acordo com nossa capacidade (ou vontade) de ver e ouvir, nossos músculos são pouco ou muito aptos para as atividades físicas, mas todos temos alguma “saída” filosófica, ainda que alguns tendam mais às grandes elucubrações.
Cada qual com seus gostos, seus interesses, suas paixões, seus sonhos. Cada qual com seus defeitos e virtudes, dificuldades e potencialidades, todos temos algo a oferecer, ainda que seja tão somente um sorriso ou um cafezinho. É por nossas particularidades que nos enriquecemos mutuamente, essa a grande sacada.
Somos seres complexos – e um pouco complicados, verdade seja dita -, mas somos iguais na diferença e essa é a nossa humanidade, sejamos homens ou mulheres, cultos ou analfabetos, ricos ou pobres, brancos, negros ou amarelos.

Publicado in Revista do Ypiranga nº 146, fev/abril/2009, pág. 5

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Equilibristas

Equilibristas que somos todos nesta gigantesca esfera que rodopia vertiginosamente no espaço, na qual fomos lançados por algum poder imperscrutável, nossa única certeza é a morte. E, ‘santa ignorância’ ou descabida pretensão, nos acreditamos todo-poderosos sem sequer conhecermos a nós mesmos, sem saber de onde viemos ou para onde vamos, se é que vamos para algum lugar, se é que existe algum lugar, se é que realmente existimos. Aliás, talvez essa inconsistência seja um dos sentidos de Maya (a Grande Ilusão) dos ensinamentos hinduístas.
E, como mecanismo de fuga, tentamos nos assegurar de nosso ‘controle sobre o inexorável’, exercitando persistentemente nossa única inalienável certeza, a finitude. Nós nos matamos e matamos nossos companheiros da grande viagem cósmica que o existir nos proporciona, num afã sistemático de aniquilação de todos os seres e da própria Terra que (n)os abriga.
Com uma pertinácia que não aplicamos a qualquer outro mister, nos dedicamos diuturnamente a criticar, julgar, discriminar, invejar, odiar, humilhar, desprezar, subestimar, culpar e até a agredir fisicamente nossos parentes, vizinhos, amigos, colegas, conhecidos, empregados, patrões e governantes, utilizando todos os meios capazes de atingi-los.
Da maledicência à indiferença e desprezo, da grosseria prepotente ao sarcasmo, da violência simbólica à agressão explícita, nós os assassinamos lentamente, com requintada crueldade. Mas, convenhamos, somos equânimes. Com o mesmo empenho, nos devotamos à nossa própria destruição, lentamente.
Descuidamos de nosso corpo e de nossa alma, ingerindo gulosamente toda espécie de alimento, assim como engolimos, sem digerir, as ofensas e dissabores do dia-a-dia; nos deixamos agredir por pessoas, coisas e situações sem sentido, submetendo-nos aos flagelos físicos, mentais e psíquicos que nos auto-impomos ou que nos são impostos pela cultura, pela sociedade, pelo poder; envenenamos o ar que respiramos e nos deixamos prazerosamente intoxicar; renunciamos a nossos direitos e descumprimos nossos deveres.
Entregamo-nos docilmente aos caprichos da Fortuna e nos deixamos enredar nas malhas das paixões - entre elas o poder, a inveja e o ciúme -, em nome das quais cometemos desatinos, e nos culpamos, nos ressentimos, adoecemos e morremos, sem saber porque nascemos, vivemos e... morremos. Essa tem sido a nossa saga cotidiana, a saga da (falta de) consciência. Ausência de discernimento, essa a avidya de que nos falam os mestres hindus.
Nesse sentido, temos sido, todos – homens ou mulheres, jovens ou velhos, ricos ou pobres, eruditos ou analfabetos, brancos, pretos ou amarelos -, um tanto sadomasoquistas. Raríssimos artistas, sábios e santos têm sido exceções, quando não se recolhem à sua própria aura iluminada.
De alguns, recebemos legados valiosos, que em geral interpretamos literalmente, ignoramos, subestimamos ou mesmo repetimos por mero diletantismo, ‘como papagaios’. Quando não, procuramos algum ponto fraco para desqualificá-los como um todo, em vez de assimilar a sabedoria contida em muitos de seus ensinamentos, arrogância que nos leva a perder a oportunidade de dar um sentido maior à vida.
Sentido que às vezes chegamos a pressentir, especialmente nos momentos mais críticos, nos estados de emergência em que permitimos que a Providência nos visite, e então nos é dada (ainda que por nós mesmos) a oportunidade de descobrir que somos todos interdependentes e que o sofrimento nos afeta a todos, inexoravelmente. Se nesses momentos de lucidez, conseguirmos romper os velhos padrões, encontraremos os pontos de alavancagem para uma existência mais digna. Esse o salto quântico de uma ética fugaz e fragmentária para uma totalidade ética mais efetiva e eficiente. Esse, o outro lado do grande paradoxo humano: a nossa infinita grandeza.

Trecho do 3º sub-título (Ética e Valores Humanos), do cap.III (Inveja e Ressentimento) de meu Ensaio Transdisciplinar sobre Inveja, Preconceito e fenômenos afins, intitulado O Olhar da Caprichosa (em fase de atualização e revisão).

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O copo está transbordando

Certa vez, em uma palestra sobre as Dores da Alma, ao dizer aos participantes que as crianças têm muito a nos ensinar, fui interrompida por um senhor muito indignado: - “Eu não tenho nada a aprender com meu filho. A senhora está invertendo as coisas. São os pais que devem ensinar as crianças e não o contrário”.
Percebendo que algumas mulheres meneavam a cabeça, discordando de meu interlocutor, propus-me a intermediar, mesmo antes do fim do encontro, um debate sobre a questão e não me surpreendi com o resultado: praticamente todas as mulheres que se dispuseram a falar concordaram com minha teoria, enquanto a maior parte dos homens achava a ideia uma “subversão de valores”.
O fato me veio à lembrança ontem, quando, desabafando em família uma questão (externa) que poderá nos trazer aborrecimentos, declarei num rompante: - “Nem que eu tenha que vender meu carro, prefiro gastar meu dinheiro com o melhor advogado da área do que pagar uma dívida que não é minha. Quero que esse bandido vá parar no olho da rua”. Minha filha, assustada (e preocupada com minha pressão arterial), retrucou: - “Pelo amor de Deus, mamãe, controle-se. Você não é assim”.
Nesse momento, Amanda, minha neta, que a tudo ouvia fingindo brincar, declarou do alto de sua “experiência” de seis anos de idade: - “Deixa a vovó desabafar, mamãe. Você não está vendo que o copo dela está cheio?”. E virando-se para mim: - “Você está certa, vó. Quando a raiva transbordar, você vai tomar a água mais limpa e resolver o problema com calma”.
Instantaneamente me reequilibrei, fascinada com sua “sabedoria”. Quando tentei elogiá-la e agradecer, Amanda desconversou: “Adoro suco de maracujá”. Até agora não sei se ela realmente estava com vontade de tomar um suco, ou se esse era mais um conselho (dadas as propriedades calmantes da fruta).
Já ia terminar esta crônica-depoimento, quando minha eterna conselheira Dª Nena, intervém: - “Você não acha que seus leitores e leitoras têm o direito de saber o que a atormentou a ponto de tirá-la do sério?”. – “Acho, sim, mas antes vamos ouvir o que a advogada (com quem marcamos uma consulta para amanhã) nos aconselha a fazer. Por enquanto, estou fazendo um download de tudo isso”.
Acho que, sem querer, acabei mexendo com seus “brios” de conselheira exclusiva, pois Dª Nena encerrou a conversa abruptamente: - “Quem tem muitos conselheiros, não tem nenhum”. É, parece que todo ego (mesmo que super ou alter) tem seus momentos de desequilíbrio. O jeito é deixar transbordar (permitir-se desabafar de alguma forma inofensiva a nós próprios e a outrem) esses sentimentos tão próprios do ser humano - a indignação contra as injustiças ou mesmo o ciúme, entre tantos outros – antes que contaminem a água de nosso copo.
Namastê.