segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Falsos profetas

Lilith adormece Eva

alegria desperta

corpo e alma a bailar

Shiva cósmico

no eterno Aqui-Agora

do não-espaço infinito.


Abro as portas do Templo

moléculas se fazem carne

ilusão atômica

conspurca o Cálice

emerjo embriagada

entre falsos profetas

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Grande Barco

O desenvolvimento da linguagem foi, provavelmente, o grande fator que levou os seres humanos a se diferenciarem das outras espécies animais. Infelizmente, porém, a palavra, falada ou escrita, logo passou a ser fonte de poder por parte de alguns reacionários que, arbitrariamente, manipulam a verdade, temerosos de que as transformações sociais – aliás, inevitáveis – possam abalar seu status.
Mas, como ensinam os grandes mestres, o grande poder do ser humano não está na reação destruidora, mas no exercício da capacidade, que todos possuímos, de agir conscientemente. A alegre irreverência do povo brasileiro consolidou esse ensinamento na fórmula “malandro que é bom não chora, espera a volta”, insinuando na entrelinha que, para superar as agressões, é necessária atenção às voltas que a vida dá.
Essa velha sabedoria popular é importante, mas, como lembra minha conselheira Dª Nena, não é suficiente, porque não basta esperar, há que agir perseverantemente no aqui-e-agora, pois, “quem sabe, faz a hora, não espera acontecer”. Esta estrofe, banida da linguagem musical pelos déspotas da ditadura, tornou-se um símbolo bem brasileiro da coragem e criatividade que nos são inatas e das quais não prescindimos, mesmo que sob pressão.
Ainda que esses dons sejam gratuitos, é necessário agir para mantê-los, construindo diuturnamente nossa plena liberdade de ser e de viver em comunidade, respeitando nossas opções e diferenças sem sermos manipuladores, nem nos deixarmos manipular, pois estamos todos no mesmo barco, ou melhor, nós somos o grande barco da vida, que deve se manter à tona haja o que houver.
Assim, se quisermos qualificar nosso dia-a-dia e legar às novas gerações esse estado de equilíbrio e compreensão social, será indispensável levantar do sonho utópico de que podemos ficar deitados eterna e comodamente em esplêndido berço e procurar adestrar nossa musculatura intelectual e emocional, tanto quanto exercitamos nossos músculos físicos.


* Publ. na “Coluna da Suzete” do Jornal Gazeta do Ipiranga de 14/01/2011, pág. A-4.

sábado, 18 de dezembro de 2010

RECONSTRUÇÃO

As festas de fim de ano se aproximam e lá vamos nós outra vez...prometendo a nós mesmos que no próximo ano tudo será diferente, sem nos darmos conta de que a vida não é um conto de fadas e, portanto, que não há fórmulas mágicas ou varinhas de condão que transformem automaticamente nossas vidas. Na euforia das comemorações, passamos ao largo da profunda metáfora contida nessas festividades: a oportunidade de renascer.

Assim, como diz minha conselheira Dª Nena, não basta sonhar, acreditar, prometer. Para renascer, há que pôr mãos à obra. Sair do conformismo, do medo das transformações e agir construtivamente, pois não nascemos prontos e acabados. Somos arquitetos de nós mesmos, seres livres para (re)construir a nós próprios e ao mundo do qual somos parte integrante, queiramos ou não.

Um mundo que precisa de nós tanto quanto precisamos dele para nossa própria sobrevivência. Uma liberdade que envolve sempre a liberdade do outro, seja ele quem for e que, Graças a Deus, impõe parâmetros a nosso egoísmo, pois é a livre existência do outro que nos permite encontrar um sentido para a aventura do existir. É no relacionamento com o divino, conosco mesmos e com a Natureza que construímos nossa própria humanidade.

Que as festas de fim de ano, desta vez, não se resumam a um consumismo repetitivamente alienado, mas que nos possam trazer maior conscientização sobre seu(s) verdadeiro(s) significados. Natal, como um renascimento da virtude da compaixão por nossos irmãos na Terra que, ao compartilhar dores e alegrias, mitiga aquelas, aumenta estas. Ano Novo, como uma possibilidade de recomeçar, de reconstruir relações e de ‘crescer junto’, tornando mais digna e mais feliz esta incrível experiência que é viver.

Publ. na “Coluna da Suzete”, do Jornal Gazeta do Ipiranga, ed. de 17/12/2010, pág. A-2.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Sonhos de Verão

Os meses de dezembro e janeiro representam para os brasileiros em geral, homens e mulheres de todas as idades, um tempo de alegria. Festas, capitaneadas por Papai Noel e férias escolares regadas por muita água, salgada ou doce - que a nós a Natureza concedeu como um privilégio – são os pontos altos do verão tropical, cujas estrelas são as crianças e os jovens.

A chegada de um novo ano, por seu lado, traz a possibilidade de um mergulho mais profundo, no qual resgatamos e trazemos à tona nossa capacidade de sonhar. Assim, a simbologia do renascimento, representada solenemente nas comemorações do Natal, apresenta-se em toda a sua grandiosidade: a possibilidade de recomeçar, que a todo ser humano é dada. Essa é a crença que nos fortalece e nos permite prosseguir a jornada.

Ano após ano, o ritual se repete. Sonhos frustrados renascem em toda sua potência, mas... vão se esvaindo paulatinamente, soterrados pela realidade, pela opressão do cotidiano. Como me disse há anos um amigo querido, o dramaturgo Luiz Carlos Cardoso: “Porque somos assim?”. O que não nos permite perpetuar esse estado de Graça em nossa vida e relacionamentos?

Consulto minha conselheira Dª Nena que, sempre disponível a uma boa reflexão, não se faz de rogada: “Sua preocupação é válida, filha, mas o assunto é muito complexo para ser debatido em uma simples crônica. Envolve aspectos desafiadores, como os condicionamentos culturais, o individualismo e a inversão de valores, o consumismo...” – “Pensei que você tivesse alguma resposta mais objetiva”, retruquei desconsolada.

Com um sorriso complacente, Dª Nena ponderou: “Não há como ser objetiva, em questões subjetivas. Talvez a graça, para a maioria das pessoas, esteja exatamente nisso: Aproveitar o verão para curtir as dádivas da Natureza e, porque não dizer, desfrutar os prazeres que sua situação econômica lhes oferece, sem se dar ao trabalho de grandes reflexões. Afinal, é tempo de férias e alegria, como você mesma disse”.

“Você tem razão”, respondo sem muita convicção, “mas, e quanto aos sonhos nunca postos em prática?”. – “Será que sonhos existem para ser postos em prática ou para manter nossa ilusão?” - “Ah, será que isso tem a ver com ideia hindu de Maya, a Grande Ilusão?”. – “Você não se emenda”, replica a sábia senhora, encerrando a conversa.

Então, para não perder a deixa - na verdade meu objetivo desde o início - , aproveito para apresentar a todas as pessoas que se dignarem a ler esta crônica, meus votos de sonhos alvissareiros e de que a alegria das Festas as acompanhe por todo o decorrer de 2011.

* Pub. in REVISTA DO YPIRANGA, ed. nº 153 – Nov/dez/2010 – pág. 13

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A Espada de Alexandre

Há meses não tenho oportunidade de postar artigos para a série Nó Górdio que fundei no blog, incentivada pelas “provocações” da jornalista Maristela Ajalla. Ontem, relendo trechos de O Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinck, deparei com o Mito de Midas, rei da Frigia e filho de Górdio, a quem se atribui um nó “a propósito do qual se dizia que, quem fosse capaz de desatá-lo, tornar-se-ia senhor de toda a Ásia”.

Como entender as origens das expressões que usamos, nos auxilia a entender as profundas metáforas tantas vezes nelas contidas, entendi por bem escrevinhar esta crônica reproduzindo a parte do mito que nos interessa, ou seja, no momento em que Górdio, um pobre camponês, chegou com a mulher e o filho numa carroça, à praça pública em que o povo estava exatamente deliberando sobre uma profecia do oráculo, segundo a qual o novo rei chegaria numa carroça.

Escolhido assim para governar a Frigia, Górdio teria dedicado a carroça à divindade do oráculo, atando-a com o famoso nó. Muitos teriam tentado desatá-lo em vão, até a chegada de Alexandre Magno que não se deu por vencido pelo insucesso de sua própria tentativa: impacientou-se, “arrancou da espada e cortou-o”. Com o tempo, Alexandre subjugou toda a Ásia, o que nos dá alento para tentar desfazer os nós górdios (ou os passos dados no passado e no presente, como diria Maristela) que nos atam, vez por outra, a situações aparentemente insolúveis.

E naqueles casos mais renitentes, em que quanto mais tentamos desamarrar, mais fortalecemos os nós, há, sim, que substituir o Jó que em nós subsiste e nos permitir uma dose de impaciência que nos leve a tomar de nossas espadas e cortá-los definitivamente. Só assim, talvez, conseguiremos “cumprir os termos do oráculo em sua verdadeira significação” subjugando nossos apegos.

Na primeira oportunidade, retornarei ao tema em artigo específico (Nó Górdio VI) e ficaria encantada se recebesse sugestões sobre questões que nos amarram inadvertidamente, para que pudéssemos unir nossos esforços para seu desate.

Namastê.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Ouviram do Ipiranga...

Procurando um mote para a crônica, resolvo dar uma perambulada pela vizinhança em companhia de Dª Nena, amiga e conselheira de sempre. Com a sabedoria de quem viveu as grandes transformações do século vinte, a sábia senhora me alerta a olhar o bairro com “olhos de ver” e não somente de criticar: - “Nossa tradição histórica é tão importante, que está representada no próprio Hino Nacional. Apesar de seus problemas, há também beleza e grandeza em tudo que nos cerca, portanto, não se atenha apenas às críticas”.

- “Por isso mesmo temos que ter vergonha na cara e procurar, no mínimo, mantê-lo limpo e à altura de suas tradições. Afinal, essa é uma das lições de cidadania que já devíamos ter incorporado”, retruquei. – “Está bem. Então vamos ao trabalho, mas seja mais flexível, observe as pessoas com compaixão, sinta os aromas, os sons....”.

A sirene de uma ambulância que passava em alta velocidade não me permitiu escutar o final da frase. Resolvi me fixar nos aromas, quando um ônibus que se aproximava reengatou a marcha, exalando um bocado de gás carbônico. “Há algo de podre no reino da Dinamarca”, pensei, sorrindo desanimada para mim mesma. Uma senhora que passava levantou meu astral ao retribuir simpática e alegremente o sorriso.

Reanimada, voltei meus olhos para uma bela árvore plantada nas proximidades. Sobre um pequeno canteiro que a rodeava, notei um pacote. Que conteria? Não precisei chegar muito perto...o odor revelou seu conteúdo. Alguém levara seu animal a passear e recolhera devidamente suas fezes em um saquinho, mas, que pena!, esquecera-se de fechá-lo e colocá-lo na lixeira. Apreendera a lição de cidadania pela metade. Com essa Dona Nena não contava. Nem eu.

Distraída, quase tropecei em uma mulher envolta em trapos, sentada no chão com a cabeça apoiada no muro de uma bela mansão tombada. Envergonhada pelo desequilíbrio social e, porque não dizer, pelos palavrões que me foram dirigidos, mal tive tempo de pensar na lição de Dª Nena sobre compaixão, pois logo à frente a potente campainha do palacete, tocada com insistência por um elegante senhor, atingiu meus tímpanos e meu cérebro.

Dª Nena me consolou: - “Irritou-se por que? Não era um mote que você queria? Pois já o tem...”.


*Publ.na "Coluna da Suzete" do Jornal Gazeta do Ipiranga, ed.de 12/11/2010, pág. C-4