Adoro desafios, especialmente aqueles relacionados com o que mais gosto de fazer além de ler: escrevinhar sobre a experiência humana. Assim, nada me causa mais deleite do que ‘agarrar’ um tema e esmiuçá-lo, extrair-lhe os possíveis significados e fazê-los ‘dançar’ ao sabor das circunstâncias e das necessidades da alma.
Assim, aceitei como provocação pessoal a sugestão de uma das participantes do evento “Um pouco de Poesia nas Agruras do Dia a Dia” que a AFPESP proporciona mensalmente a seus associados da Capital - e que neste mês de junho está completando 4 anos -, de que as impressões causadas pelo enriquecedor diálogo ali desenvolvido (que o educador Hosaná Dantas, idealizador e coordenador do “Agruras” propõe como um humilde “jogar conversa fora”) merecia ser registrado por escrito, embora “talvez não comportasse uma crônica”.
O encontro capitaneado por Hosaná e pela Coordenadora de Cultura da Associação, Magali de Barros de Oliveira, tem o condão de, a partir de uma poesia – às vezes de conteúdo à primeira vista quase simplório, como foi o caso - , permitir aos participantes embarcarem numa deliciosa ‘viagem’ sócio-cultural, proporcionando algumas visões panorâmicas sobre as mais variadas questões.
Tendo como ‘ponto de partida’ o poema “O menino doente”, de Manuel Bandeira, navegamos pelos mares do “amor materno” e do “acolhimento”, passando pela literatura e pela importância do lúdico na educação e na vida, nos achegamos a arrecifes que requerem maior atenção como a “condição feminina”, rumando suavemente mar adentro para temas tão profundos como “projeção” e “espiritualidade”, numa vivência cultural intensa e abrangente.
O acolhimento carinhoso por parte dos responsáveis pelo evento permitiu, no dizer da ativa participante Sílvia, que nos “sentíssemos inteligentes” e que o diálogo fluísse espontaneamente entre risos, abraços e fotos, sem que nos déssemos conta da passagem do tempo. Destaque ainda para a aniversariante Hertha e suas ‘agruras’ para não perder o encontro e para a gentileza de Alfa, que ofereceu o livro “Você é o autor da sua história”, de Steve Chandler, para ser sorteado entre os participantes.
O autor ‘abre’ o livro (que, haja sincronicidade, tive a sorte de ganhar) com uma frase de Nietzche: “E os que dançavam foram julgados loucos por aqueles incapazes de ouvir a música”. Com razão o poeta Pessoa: “Navegar é preciso”, pois ainda há muitos mares a serem desbravados.
*Publ. in Folha do Servidor Público nº 222, Maio/2011, pág. 11.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
domingo, 17 de abril de 2011
O MILAGRE DA VIDA
Às vezes, durante a vida, acontecimentos para os quais não estávamos preparados - se bem que poderiam ter sido previstos, se estivéssemos atentos -, nos abalam profundamente, a ponto de nos fazer sair do eixo, tal qual se deu com a Terra recentemente. Nesses momentos, pelos quais todos nós passamos, queiramos ou não, somos avassalados por tsunamis de emoção, que fazem transbordar nossas carências, nosso medo e insegurança a ponto de inundar os caminhos que antes percorríamos com displicente tranquilidade, sem nos dar conta de nossa vulnerabilidade.
É bem verdade que - por via das dúvidas, embora subestimando o poder dos mares revoltos – fomos construindo vida afora pequenos diques por toda a orla de nossas emoções, ingênuos mecanismos de defesa que acreditávamos ter o condão de nos proteger de todos os males. Diques que se rompem diante da pressão externa da mesma forma que, tomadas de surpresa, as fundações dos “sólidos edifícios” que construímos para nos abrigar das tormentas se desfazem qual castelos de areia, deixando desabrigados e perdidos nossos egos inflados em sua pretensiosa arrogância.
Egos que nos fazem esquecer que somos um entre bilhões de seres humanos, assim como a Terra é nada mais que um entre bilhões de planetas a girar em torno de bilhões de sóis, dispersos em bilhões de galáxias. Egos que, encarcerados nos individualismo, não se apercebem de nossa insignificância, da interdependência entre todos os seres e saberes e da necessidade de unirmos nosso conhecimento e nossas energias em prol do interesse comum.
O fato é que somos ignorantes até mesmo de nossos próprios processos mentais – e, principalmente, emocionais - , o que nos torna joguetes de forças que desconhecemos, sejam elas gravitacionais, atômicas ou mesmo econômico-financeiras, e que pretensiosamente acreditamos poder manipular, colocando inadvertidamente em risco, com nossa soberba, a vida do planeta e de seus habitantes.
Sentindo-me acuada por meus próprios pensamentos, peço socorro a minha conselheira Dª Nena que, prontamente, me tranquiliza: “Sua metáfora é interessante, mas talvez você devesse enfatizar mais a potencialidade para a superação, inata tanto nos seres humanos, quanto na Mãe-Terra. Potencialidade que se revela na pequena flor que desabrocha nos lugares mais inóspitos e devastados, ou no heroísmo cotidiano daqueles que revertem seu próprio sofrimento em solidariedade e amor. Esse o milagre da vida que, haja o que houver, renasce, se recria, continua...”
Publ. in Gazeta do Ipiranga, em 15/04/2011, pág. B-8.
É bem verdade que - por via das dúvidas, embora subestimando o poder dos mares revoltos – fomos construindo vida afora pequenos diques por toda a orla de nossas emoções, ingênuos mecanismos de defesa que acreditávamos ter o condão de nos proteger de todos os males. Diques que se rompem diante da pressão externa da mesma forma que, tomadas de surpresa, as fundações dos “sólidos edifícios” que construímos para nos abrigar das tormentas se desfazem qual castelos de areia, deixando desabrigados e perdidos nossos egos inflados em sua pretensiosa arrogância.
Egos que nos fazem esquecer que somos um entre bilhões de seres humanos, assim como a Terra é nada mais que um entre bilhões de planetas a girar em torno de bilhões de sóis, dispersos em bilhões de galáxias. Egos que, encarcerados nos individualismo, não se apercebem de nossa insignificância, da interdependência entre todos os seres e saberes e da necessidade de unirmos nosso conhecimento e nossas energias em prol do interesse comum.
O fato é que somos ignorantes até mesmo de nossos próprios processos mentais – e, principalmente, emocionais - , o que nos torna joguetes de forças que desconhecemos, sejam elas gravitacionais, atômicas ou mesmo econômico-financeiras, e que pretensiosamente acreditamos poder manipular, colocando inadvertidamente em risco, com nossa soberba, a vida do planeta e de seus habitantes.
Sentindo-me acuada por meus próprios pensamentos, peço socorro a minha conselheira Dª Nena que, prontamente, me tranquiliza: “Sua metáfora é interessante, mas talvez você devesse enfatizar mais a potencialidade para a superação, inata tanto nos seres humanos, quanto na Mãe-Terra. Potencialidade que se revela na pequena flor que desabrocha nos lugares mais inóspitos e devastados, ou no heroísmo cotidiano daqueles que revertem seu próprio sofrimento em solidariedade e amor. Esse o milagre da vida que, haja o que houver, renasce, se recria, continua...”
Publ. in Gazeta do Ipiranga, em 15/04/2011, pág. B-8.
terça-feira, 29 de março de 2011
sábado, 19 de março de 2011
Ora, minha Senhora!
Vez ou outra, pisciana que sou, meu aniversário coincide com os festejos de Carnaval. Este ano, a par dessa coincidência, outra efeméride ocorre no tríduo de Momo: o Dia internacional da Mulher. Essas considerações e uma expressão usada esta semana por famoso apresentador de televisão, me fizeram recordar um fato ocorrido há várias décadas ou, se preferirem, há muitos (muitos mesmo) Carnavais, em que, recém-casados, eu e meu marido nos refugiamos em pacata cidade do interior paulista para uma comemoração mais intimista.
Em lá chegando, ficamos felizes em conhecer um simpático casal de portugueses, também fugitivos de folias e foliões, o que nos pareceu fechar com chave de ouro nosso projeto de celebrar en petit comitê minha entrada na maioridade, em que pese eu haja suspeitado uma ligeira arrogância por parte do bem falante senhor, em flagrante contraste com a, digamos, humilde e silenciosa postura de sua bela esposa.
Conversa vai, conversa vem, acatamos alegremente a proposta para uma partida de “buraco”, inocente jogo de baralho em que – à falta de televisão, ainda incipiente nos lares e pequenos hotéis de classe média -, éramos craques (a “tranca” ainda não estava na moda). Logo percebemos que minha suspeita tinha fundamento, pois, à sugestão feita por meu marido, de sortearmos uma carta para a formação dos pares, o “bem falante” parceiro saiu-se com a seguinte pérola: “Bobagem sortear, vamos jogar casal contra casal, assim fica ‘um forte, uma fraca, um forte uma fraca’.” (!)
Inquirido sobre a razão que o levava a ter tanta certeza de que eu seria necessariamente uma adversária fraca, o ilustre cavalheiro respondeu com evidente tom de desprezo: - “Ora, minha senhora!”. Meu marido, brincando, utilizou um bordão de famoso comediante à época: - “Cuidado, moço”, o que despertou um brilho de inteligência na mulher e de deboche no homem. Bem, resta contar que, após perder várias partidas, nosso companheiro parece também ter perdido o apetite, pois, recolheu-se a reclamar da falta de atenção da esposa (aliás, bem mais atenta do que ele).
Hoje, em que pese a decantada evolução da condição feminina na sociedade e o advento do Dia Internacional da Mulher, ouço do supra-referido âncora da mídia televisiva, um sonoro “Ora, minha senhora”, ao se referir a alguém que incautamente ousou contradizê-lo. Meu marido, cuja memória e senso de humor continuam afiados, pergunta: - “Será que ele joga buraco?”.
* Publ. in Revista do Ypiranga, jan/fev 2011, pág. 16.
Em lá chegando, ficamos felizes em conhecer um simpático casal de portugueses, também fugitivos de folias e foliões, o que nos pareceu fechar com chave de ouro nosso projeto de celebrar en petit comitê minha entrada na maioridade, em que pese eu haja suspeitado uma ligeira arrogância por parte do bem falante senhor, em flagrante contraste com a, digamos, humilde e silenciosa postura de sua bela esposa.
Conversa vai, conversa vem, acatamos alegremente a proposta para uma partida de “buraco”, inocente jogo de baralho em que – à falta de televisão, ainda incipiente nos lares e pequenos hotéis de classe média -, éramos craques (a “tranca” ainda não estava na moda). Logo percebemos que minha suspeita tinha fundamento, pois, à sugestão feita por meu marido, de sortearmos uma carta para a formação dos pares, o “bem falante” parceiro saiu-se com a seguinte pérola: “Bobagem sortear, vamos jogar casal contra casal, assim fica ‘um forte, uma fraca, um forte uma fraca’.” (!)
Inquirido sobre a razão que o levava a ter tanta certeza de que eu seria necessariamente uma adversária fraca, o ilustre cavalheiro respondeu com evidente tom de desprezo: - “Ora, minha senhora!”. Meu marido, brincando, utilizou um bordão de famoso comediante à época: - “Cuidado, moço”, o que despertou um brilho de inteligência na mulher e de deboche no homem. Bem, resta contar que, após perder várias partidas, nosso companheiro parece também ter perdido o apetite, pois, recolheu-se a reclamar da falta de atenção da esposa (aliás, bem mais atenta do que ele).
Hoje, em que pese a decantada evolução da condição feminina na sociedade e o advento do Dia Internacional da Mulher, ouço do supra-referido âncora da mídia televisiva, um sonoro “Ora, minha senhora”, ao se referir a alguém que incautamente ousou contradizê-lo. Meu marido, cuja memória e senso de humor continuam afiados, pergunta: - “Será que ele joga buraco?”.
* Publ. in Revista do Ypiranga, jan/fev 2011, pág. 16.
sábado, 12 de março de 2011
De Carnavais e outros Ais
Dizem que no Brasil o ano começa realmente depois do Carnaval. Não concordo, “punto e basta”, como dizia o herói da novela, atribuindo a frase aos italianos, como se estes a repetissem a torto e a direito. A fama de indolente dos brasileiros, reporta-se aos primórdios da “Nação-Colônia”, em que se imputava aos índios e negros, talvez como mecanismo de defesa (projeção) - pois, esses eram os únicos que, na verdade, trabalhavam -, a pecha da vadiagem.
O próprio Carnaval requer, para que se concretize como uma das maiores festas populares do mundo, um trabalho insano, braçal e intelectual, que se desenvolve a partir já do dia imediato ao de seu fim (a quarta-feira de cinzas), se é que termina, dizem aqueles que nos atribuem outra pecha: a de festeiros natos e eternos, sem contar a de “terra do jeitinho”, etc, etc.
Ora, pois, pois, diria minha avó portuguesa. Avó postiça, pois segunda esposa de meu avô; portuguesa mesmo, com a coragem e disposição de trabalho que soem ter as nascidas lá na “santa terrinha”, como de resto em outras tantas terras que nos legaram o estofo de que somos revestidas para enfrentar carnavais e muitos, muitos outros “ais”.
Já se vê que tento, aqui, privilegiar pela linguagem o componente feminino dessa nossa inefável população, formada de homens e mulheres (fifity/fifity, digo em inglês pra não perder a onda de ‘americolonização’ que perpetua nossos rótulos). Homens e mulheres, repito, que já têm (pasmem!) os mesmos direitos – e deveres, claro! – embora o senso comum ainda não se tenha conscientizado desse fato social, legal e constitucional.
Enfim, deponho aos pés da comunidade feminina minhas homenagens pela passagem do Dia Internacional da Mulher, cujos “ais” nem sempre são ouvidos – haja vista as recentes pesquisas sobre a violência doméstica –, mas não me furto a cumprimentar também a tantos homens, a quem não foi dedicado um “Dia”, mas que se fazem parceiros de nossos “ais” e carnavais.
*Publ. in Gazeta do Ipiranga, ed. de 11/03/2011, pág. C-8
O próprio Carnaval requer, para que se concretize como uma das maiores festas populares do mundo, um trabalho insano, braçal e intelectual, que se desenvolve a partir já do dia imediato ao de seu fim (a quarta-feira de cinzas), se é que termina, dizem aqueles que nos atribuem outra pecha: a de festeiros natos e eternos, sem contar a de “terra do jeitinho”, etc, etc.
Ora, pois, pois, diria minha avó portuguesa. Avó postiça, pois segunda esposa de meu avô; portuguesa mesmo, com a coragem e disposição de trabalho que soem ter as nascidas lá na “santa terrinha”, como de resto em outras tantas terras que nos legaram o estofo de que somos revestidas para enfrentar carnavais e muitos, muitos outros “ais”.
Já se vê que tento, aqui, privilegiar pela linguagem o componente feminino dessa nossa inefável população, formada de homens e mulheres (fifity/fifity, digo em inglês pra não perder a onda de ‘americolonização’ que perpetua nossos rótulos). Homens e mulheres, repito, que já têm (pasmem!) os mesmos direitos – e deveres, claro! – embora o senso comum ainda não se tenha conscientizado desse fato social, legal e constitucional.
Enfim, deponho aos pés da comunidade feminina minhas homenagens pela passagem do Dia Internacional da Mulher, cujos “ais” nem sempre são ouvidos – haja vista as recentes pesquisas sobre a violência doméstica –, mas não me furto a cumprimentar também a tantos homens, a quem não foi dedicado um “Dia”, mas que se fazem parceiros de nossos “ais” e carnavais.
*Publ. in Gazeta do Ipiranga, ed. de 11/03/2011, pág. C-8
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