sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Caixa livre


                                                               Caixa livre 

 

                                                                                                                                                      Suzete Carvalho*

                                                              

Semana passada, em dúvida entre dois temas para a crônica, acatei (com um pouco de má-vontade, confesso) a sugestão de minha sempre atenta conselheira Dª Nena: “Às vezes, uma simples voltinha no quarteirão pode ser inspiradora”.  Já estava contestando sua sabedoria, pois nada de novo me ocorrera nesse passeio forçado, quando não resisti ao chamamento de um irresistível aroma...  Sim, feliz ou infelizmente, eu moro próximo a uma dessas incríveis padarias que enriquecem ainda mais nossa região, com suas cores, aromas e sabores. 

Como o local estava lotado, optei por um pão de cenoura previamente embalado e estava tentando visualizar a data de vencimento, quando um senhor pegou um dos pacotes mais ao fundo da prateleira e me ofereceu, dizendo: “Este está bem fresquinho”. Antes que eu tivesse tempo para agradecer a gentileza, ele acrescentou com um sorriso: “Conheço você de algum lugar” e me olhou com alguma insistência enquanto nos dirigíamos à fila do caixa. 

“Já sei”, disse ele tão subitamente que me fez dar um passo atrás, “você tem uma Coluna na Gazeta! Reconheci por causa da foto”. Refeita do susto, respondi rindo: - “Você acaba de levantar meu moral, pois a foto que sai na Coluna da Suzete faz parte do arquivo do Jornal há mais de uma década. Ando até pensando em substituí-la pela caricatura feita pelo parceiro que tem ilustrado minhas crônicas”, respondi rindo. 

– “Percebi que você se assustou quando comecei a falar, então, vou tomar a liberdade de sugerir que, em uma de suas próximas crônicas, você escreva sobre o medo. Talvez seu parceiro...”.  – “Danilo Marques”. –  “Isso! Lembro de ter lido o nome dele. A caricatura deve ter ficado ótima, mas o que eu ia dizer é que o Danilo poderia fazer uma interessante ilustração sobre esse medo que a gente tem até da própria sombra, não é mesmo?”.

Envolvidos com a conversa, não nos demos conta de que a ‘mocinha do caixa’ proclamava alto:   “Caixa livre!!!”, até sermos alertados um tanto agressivamente por um empurrão de alguém afobado: - “Fila não é lugar pra bater papo” e, virando-se para o companheiro: “Esses velhos não têm o que fazer e ficam atrapalhando o caminho da gente”.  Sem maiores despedidas, tratei de pagar a conta e acenei para o senhor, cujo nome, infelizmente, não fiquei sabendo. Pretendendo me desculpar por “atrapalhar o caminho”, ainda olhei na direção da pessoa que nos empurrara, mas recebi um desagradável gesto de enfado.

Meu novo amigo aproveitou a ‘deixa’ para fazer mais uma sugestão, também em alto e muito bom som: - “Aproveite e escreva também sobre agressividade”.  Voltei para casa agradecendo a oportunidade de, em menos de meia hora, haver ganhado um amigo, novas experiências, muitas ideias para (re)trabalhar em meus escritos e até por ter conseguido não me sentir agredida por pessoas preconceituosas.  

 

*A autora escreve neste espaço toda segunda sexta-feira do mês.       

Publ.in Gazeta do Ipiranga, 11/10/2013, Cad.B-5.

 

 

 

    

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Salomé e os ruídos de comunicação

Nos últimos tempos, tenho tido a felicidade de contar, em quase todas as minhas crônicas para a Gazeta do Ipiranga, com a importante parceria do ilustrador/caricaturista Danilo Marques. Eu escrevo e ele, generosamente, ilustra.  Hoje, celebramos um novo desafio, invertendo a situação: ele mandou a imagem e eu tentei (re)desenhar sua arte em palavras.  Espero haver conseguido.
O fato é que as imagens, assim como os aromas, têm o condão de ativar nossa memória, trazendo ao novo contexto antigas experiências que nos marcaram, algumas alegres e até engraçadas, outras mais tristes ou até mesmo dolorosas. Neste caso, a visão de alguém indignado “gritando” ao celular (imagem tão atual) me fez viajar a um tempo em que, dar um simples telefonema era uma verdadeira epopeia.
Acredito que muitos homens e mulheres do Ipiranga estarão lembrados de que até 1955 poucas pessoas da região tinham o privilégio de possuir um telefone residencial.  Quando, naquele ano, a Telefônica finalmente estendeu novas linhas à Região, desencadeou verdadeira euforia, inclusive por parte dos jovens de ambos os sexos, até então relegados à comunicação oral.
Numa época em que “ficar” – em especial para as adolescentes - significava “ficar em casa” sob os olhares zelosos das mães, sujeitas ainda a uma legislação que as considerava “semi-capazes” para os atos da vida civil e, portanto, sempre preocupadas com o que os outros iriam pensar, o acesso à telefonia soava como uma espécie de libertação das amarras (ou, se preferirem, “correntes”) que as atavam a uma cultura tradicional e androcêntrica. Ledo engano...
Antes que minha conselheira Dª Nena intervenha, dizendo que eu estou divagando, passo aos fatos objeto da crônica.  Pois bem, foi exatamente naquele ano que eu, que acabara de completar quinze anos e aquele que veio a ser marido (então com vinte), começamos a “namorar escondido”, com encontros ocasionais à saída da escola e uma ou outra “escapadela” para uma rápida conversa numa esquina próxima.
Por uma dessas coincidências que dão mais sabor à vida, nossas linhas telefônicas foram instaladas no mesmo dia e, de imediato, decoramos os números respectivos, prometendo que a primeira ligação seria “nossa”.  No auge do entusiasmo com a novidade, corri para a casa de minha - até hoje - amiga Clara, que também havia sido contemplada com uma linha telefônica e disquei (sim, a gente “discava” os números, comprometendo a vitalidade das unhas) o número que primeiro havia decorado.

- “Por gentileza, o João está?”.  Uma voz que me soou conhecida, retrucou: “Ah, então o nome dele é João!”.  – “Desculpe, foi engano”, foi a única coisa que me ocorreu dizer, antes de desligar com o coração aos pulos, pois a voz era, como já devem ter percebido... de minha mãe! Sim, eu ligara para a minha própria casa e, literalmente, entregara nossa cabeça numa bandeja, a minha e a de João Baptista.

Opressão pela linguagem

“A muitas pessoas pode passar despercebido, dado nosso condicionamento cultural, mas a mim me incomoda ver repetidas à exaustão, entre outras, frases como “Um país se faz com homens e livros”, escritas num contexto social fortemente androcêntrico e racista, em que às mulheres – ainda que alçadas a “importantes” personagens de romances e histórias infantis -   cabia o papel exclusivo de cuidarem da casa, de seu “senhor” e suas crianças. Às Anastácias, duplamente discriminadas, competia meramente servir às famílias de “bem”, ou, se preferirem, de “bens”.
Nada contra nosso grande escritor, muito ao contrário – até porque minha infância foi marcada pelas deliciosas reinações que o mais famoso Sítio literário do Brasil nos oferecia -, mas há que considerar que hoje vivemos um novo contexto social que, (re)tirando as mulheres do âmbito privado e do papel exclusivo de cuidadoras, santas ou prostitutas, começa a alçá-las, como às demais “ditas” minorias, a co-partícipes de fato e de direito de seus próprios destinos e, por consequência, dos destinos do país.  Hoje sabemos, pois, que a sociedade é bem mais complexa do que uma linguagem ultrapassada pode comportar.
Assim, acredito que, se nos propusermos a substituir a palavra “homem” pela palavra “pessoa”, toda vez que nos referirmos aos seres humanos em geral, conseguiremos paulatinamente amenizar uma das injustiças sócio-culturais mais potentes dos últimos milênios: a opressão pela linguagem.  Por outro lado, livros são, sim, necessários à nossa formação – eu mesma me considero um bicho-de-livro desde sempre - , mas conhecimento teórico já não é suficiente para dar conta das profundas desigualdades sociais que a cultura excludente gerou.
Já não nos basta repetir mântrica e aleatoriamente frases de pressuposta sabedoria das “autoridades” eleitas pelos donos do Poder, seja ele político, econômico ou literário.  Ler, sim, sempre, mas procurar agir conscientemente em prol de uma efetiva cidadania para todas as pessoas, participando na medida do possível de movimentos sociais, usando uma linguagem inclusiva e, portanto, menos androcêntrica, seria um passo importante para combater o analfabetismo funcional, midiático e ideológico, colaborando efetivamente para a implantação da Cultura de Paz que tanto almejamos.”


sc/ 26/08/2013

domingo, 18 de agosto de 2013


VIDA BURLESCA

 

“Escrevo de corpo e alma 

tanto em prosa quanto em verso 

não sei se é minha a alma 

ou se é do Universo 

escrevo no dia a dia 

e também na noite adentro 

em busca do epicentro 

que deflagra a inspiração 

mas por vezes confusão 

perco a calma a alma a palma

afundo em melancolia 

elucubro e tergiverso 

busco nova melodia 

mudo o tom e desconverso 

finjo estar em euforia 

novos rumos nova vida 

em altos brados proclamo 

tentando me convencer 

de que há como escapar 

das tramas que as moiras tecem 

embora no fundo eu saiba 

que não passa de utopia.

 

Resultado adverso 

por fim me dou por vencida 

faço a volta e recomeço 

sigo em frente 

enfrento a mente 

e torno ao que mais eu amo 

plantando nova semente    

escrevendo dia a dia 

escrevendo noite a dentro 

mente, alma e corpo acalmo   

linha a linha palmo a palmo 

linhas retas linhas tortas 

nas ondas do meu viver    

pois são muitas as questões 

que espero resolver 

são dores e são mazelas 

tristezas e esparrelas 

são dúvidas e ideais 

caminhos a percorrer. 

 

Será que fazem sentido  

tantas considerações 

poético-filosóficas 

ou simplesmente serão 

palavras desavisadas 

e meramente utópicas 

embora as tenha vivido 

na alma e no coração 

ah! quem sabe busco em vão 

 entender qual a razão 

de estarmos a girar 

nessa nave gigantesca 

no Cosmos a penetrar 

tendo uma visão dantesca 

do espaço sideral 

sem sequer poder saber

quem somos pra onde vamos...

ah! a condição humana 

sempre paradoxal 

por vezes angelical 

por vezes animalesca...    

que situação burlesca!”

 

sc/ 2013

Publ. in “Palavras Desavisadas de Tudo – Antologia Scortecci de Poesias, Contos e Crônicas 2013” vol.I, 1.ed., SP:Scortecci, 2013, pág.232/233.

 

 

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Convite

Participo aos amigos e amigas, o lançamento de m/ sétima participação em livros nos três últimos anos, três das quais (inclusive esta) na Categoria "Poesia". As demais foram publicadas como ensaios em Antologias Jurídicas (três) e , para variar, ano passado fiz minha iniciação na Categoria "Conto".
 
 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013


                                               A hora é agora

 

Há milênios o ser humano se reconhece como animal gregário por excelência (Aristóteles dizia “animal político”), mas o espaço público nem sempre pertenceu a todas as pessoas, ou melhor, até recentemente, os espaços públicos eram privilegiados, já que seu acesso era negado – e o é, ainda, em várias partes do mundo - a grande parte da população: as chamadas minorias que, se somadas, totalizam a maioria arrasadora dos seres humanos.

Hoje, em que pesem as conhecidas exclusões, homens e mulheres “ganharam” as ruas em várias partes do mundo, como locais apropriados a toda forma de expressão política. Assim, a  cidadania vem ganhando progressivamente um status nunca visto, apoiada agora por caminhos jamais sonhados ou, como dizia o poeta, por “mares nunca dantes navegados” - os espaços virtuais, com suas Redes que acatam todos os clamores e ideologias, sem exceção, acabando por estabelecer um debate.

É bem verdade que todas as pessoas que se dignarem ler esta crônica, sabem que esses espaços são vigiados – oh, a premonição de George Orwell que, com seu “1984” antecipou o Grande Irmão (Big Brother)! -, mas, a inteligência coletiva sempre encontrará formas de driblar o “Olho que (acredita) tudo vê” e se expandir a ponto de transformar o debate em diálogo, pressuposto necessário da liberdade. 

O que quero dizer é que, ainda que à revelia de fanáticos e manipuladores, a tendência mundial é a de uma democratização (e uso essa expressão à falta de uma melhor, que com certeza surgirá) sem precedentes de todos os espaços públicos, inclusive os da grande mídia que, atordoada ante a força das vozes sociais, se vê forçada a mudar o tom, inclinando-se ainda que com certa timidez por ora, a esse novo Poder que, se bem usado, terá o condão de reverter valores distorcidos pelos sempiternos donos do Poder, seja androcêntrico ou político-ideológico, seja religioso, seja a mais perversa das dominações porque mantém a fome no mundo: o Poder de Mercado.

Sim, minha experiência de mais de seis décadas de observação, me faz crer que esta é a hora e a vez dos grupos excluídos, sejam as mulheres antes confinadas ao espaço privado ou os idosos a seus aposentos (daí o nome “aposentados); sejam as pessoas cujo nível de pobreza as levaram a serem contempladas com a chamada bolsa-família – como um primeiro passo para a inclusão social – como é o caso também das cotas para indígenas e afro-descendentes; sejam, enfim, todos os homens e mulheres que não se “enquadram” nas arcaicas e pré-determinadas concepções comportamentais que lhe têm sido impostas desde sempre.

Algumas pessoas, mais místicas, dirão que essa é a consciência da Nova Era. Outras,mais racionais, que isso é pura utopia, mas, como o Educador Paulo Freire, acredito que toda utopia é uma “esperança revolucionária”, aquela esperança que nos faz ir pacífica e persistentemente à luta (ou às ruas e às redes sociais), na certeza de que “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.  Enfim, nas palavras de mestre Eckhart Tolle: “A hora é agora. O que mais existe?”.

*Publ. na “Coluna da Suzete” do JornalGazeta do Ipiranga”, hoje (09/08/2013), Cad. A-5.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A vida num sonho


A VIDA NUM SONHO

 

“Embora o prazo de validade já 

se aproxime de seu termo 

e as páginas  amarelecidas 

mal suportem novos carimbos 

tento honrar  o passaporte 

que me foi  concedido 

para atravessar  a dimensão 

do tempo  mera passagem 

de formas  a projetar 

incompletudes entre si. 

Foto já um tanto obscurecida 

minhas vistas obnubiladas 

não mais a reconhecem 

pouco importa porquanto 

sei que restam  apenas 

poucas  fronteiras a cruzar    

muitas doações entretanto 

ainda serão necessárias 

até que eu consiga  

me desfazer  das tantas 

quinquilharias  acumuladas 

lembranças arraigadas

na volúpia do apego 

dolorosas penas. 

Firmei propósito no entanto 

de atravessar  com leveza  

e humildade a última aduana 

que me levará  de volta ao lar 

qual filha pródiga carregarei  

tão somente as peças necessárias 

ao último lance  do jogo 

de uma vida atrevida

que se acreditou bem vivida 

realizada e soberana 

mas que na verdade

transcorreu insana 

sofrida e manipulada.

Acordo sobressaltada 

teria  eu viajado 

ou meramente sonhado?”

 

sc/janeiro/2013 

*Publ. na Antologia “A Vida num Sonho”, Lisboa, Portugal:Lua de Marfim Editora, 2013, p.88/80.