domingo, 3 de novembro de 2013

O elevador


“A secretária, precisando dar um recado urgente, chamou o elevador “privativo” do Tribunal.  Quando as portas se abriram, só teve tempo de ver o olhar “superior” da autoridade e ouvir: “Fecha!”.  Mais um olhar, agora angustiado, da ascensorista obediente, e um quase inaudível “Cuidado!”. Não teve tempo de desviar, nem de dar o recado a tempo. Só sentiu a intensidade da dor, quando o chefe imediato desferiu o golpe final: “Incompetente”.”

 

sc/03/11/2013

Da série “microcontos macrorrealistas”.

sábado, 26 de outubro de 2013

A lógica de Madame


A Madame: “Despedi mesmo e só não dei parte à polícia porque tenho bom coração.” A amiga: “Mas como você pode ter certeza de que foi ela quem roubou seu colar?”  - “Ora, quem mais poderia ter feito isso?” – “Não sei... não entrou nenhum estranho ultimamente na sua casa? Ou será que você não guardou em algum lugar diferente?”   - “Claro que não, sou muito ordeira e na minha casa não entra qualquer um!” – “Desculpe, é que seu filho, por exemplo, tem tantos amigos, nunca se sabe...” – “Os amigos de meu filho são de confiança, rapazes ‘de bem’, filhos de boas famílias.”  - “Acredito, mas é que você disse que sua empregada trabalhava com vocês há dezessete anos. Ela roubou alguma coisa durante todos esses anos?”  - “Não. Nunca percebi nada... é nisso que dá confiar nessa gente.”

 

sc/26/10/2013. 

Da série “Microcontos macrorrealistas”.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Fica a dica


Fica a dica 

“Um hábito (ou, se preferirem, um “microrritual”) que cultivo há décadas e me traz muita paz: antes de iniciar as refeições, envio discretamente uma vibração de Gratidão à Mãe Terra e a todas as pessoas que, de alguma forma, contribuíram para que aqueles alimentos fossem postos à minha disposição (quem plantou, colheu, pescou, comercializou, preparou...).  É rápido, indolor e, creiam, os aromas e sabores se apuram e acrescentam magia ao simples ato de comer.”

sc/11/09/2013.

 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Inverno


I n v e r n o  
 
Minha vida já se faz inverno 

Em que pesem os tons primaveris  

E os resquícios de verões acalorados 

Em que dancei labaredas no inferno 

Mas também flanei em céus iluminados 

Por entre estrelas e arcanjos bem sutis 

Que tantas lutas gentilmente (de)cantaram 

Desta longa e tortuosa caminhada 

E foram tantos, oh quantos! 

Tantos foram meus perfis  

Que os ventos  outonais arrebataram...  

Quiçá não veja a próxima florada. 

 

sc/21/10/2013. 

 

 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Caixa livre


                                                               Caixa livre 

 

                                                                                                                                                      Suzete Carvalho*

                                                              

Semana passada, em dúvida entre dois temas para a crônica, acatei (com um pouco de má-vontade, confesso) a sugestão de minha sempre atenta conselheira Dª Nena: “Às vezes, uma simples voltinha no quarteirão pode ser inspiradora”.  Já estava contestando sua sabedoria, pois nada de novo me ocorrera nesse passeio forçado, quando não resisti ao chamamento de um irresistível aroma...  Sim, feliz ou infelizmente, eu moro próximo a uma dessas incríveis padarias que enriquecem ainda mais nossa região, com suas cores, aromas e sabores. 

Como o local estava lotado, optei por um pão de cenoura previamente embalado e estava tentando visualizar a data de vencimento, quando um senhor pegou um dos pacotes mais ao fundo da prateleira e me ofereceu, dizendo: “Este está bem fresquinho”. Antes que eu tivesse tempo para agradecer a gentileza, ele acrescentou com um sorriso: “Conheço você de algum lugar” e me olhou com alguma insistência enquanto nos dirigíamos à fila do caixa. 

“Já sei”, disse ele tão subitamente que me fez dar um passo atrás, “você tem uma Coluna na Gazeta! Reconheci por causa da foto”. Refeita do susto, respondi rindo: - “Você acaba de levantar meu moral, pois a foto que sai na Coluna da Suzete faz parte do arquivo do Jornal há mais de uma década. Ando até pensando em substituí-la pela caricatura feita pelo parceiro que tem ilustrado minhas crônicas”, respondi rindo. 

– “Percebi que você se assustou quando comecei a falar, então, vou tomar a liberdade de sugerir que, em uma de suas próximas crônicas, você escreva sobre o medo. Talvez seu parceiro...”.  – “Danilo Marques”. –  “Isso! Lembro de ter lido o nome dele. A caricatura deve ter ficado ótima, mas o que eu ia dizer é que o Danilo poderia fazer uma interessante ilustração sobre esse medo que a gente tem até da própria sombra, não é mesmo?”.

Envolvidos com a conversa, não nos demos conta de que a ‘mocinha do caixa’ proclamava alto:   “Caixa livre!!!”, até sermos alertados um tanto agressivamente por um empurrão de alguém afobado: - “Fila não é lugar pra bater papo” e, virando-se para o companheiro: “Esses velhos não têm o que fazer e ficam atrapalhando o caminho da gente”.  Sem maiores despedidas, tratei de pagar a conta e acenei para o senhor, cujo nome, infelizmente, não fiquei sabendo. Pretendendo me desculpar por “atrapalhar o caminho”, ainda olhei na direção da pessoa que nos empurrara, mas recebi um desagradável gesto de enfado.

Meu novo amigo aproveitou a ‘deixa’ para fazer mais uma sugestão, também em alto e muito bom som: - “Aproveite e escreva também sobre agressividade”.  Voltei para casa agradecendo a oportunidade de, em menos de meia hora, haver ganhado um amigo, novas experiências, muitas ideias para (re)trabalhar em meus escritos e até por ter conseguido não me sentir agredida por pessoas preconceituosas.  

 

*A autora escreve neste espaço toda segunda sexta-feira do mês.       

Publ.in Gazeta do Ipiranga, 11/10/2013, Cad.B-5.

 

 

 

    

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Salomé e os ruídos de comunicação

Nos últimos tempos, tenho tido a felicidade de contar, em quase todas as minhas crônicas para a Gazeta do Ipiranga, com a importante parceria do ilustrador/caricaturista Danilo Marques. Eu escrevo e ele, generosamente, ilustra.  Hoje, celebramos um novo desafio, invertendo a situação: ele mandou a imagem e eu tentei (re)desenhar sua arte em palavras.  Espero haver conseguido.
O fato é que as imagens, assim como os aromas, têm o condão de ativar nossa memória, trazendo ao novo contexto antigas experiências que nos marcaram, algumas alegres e até engraçadas, outras mais tristes ou até mesmo dolorosas. Neste caso, a visão de alguém indignado “gritando” ao celular (imagem tão atual) me fez viajar a um tempo em que, dar um simples telefonema era uma verdadeira epopeia.
Acredito que muitos homens e mulheres do Ipiranga estarão lembrados de que até 1955 poucas pessoas da região tinham o privilégio de possuir um telefone residencial.  Quando, naquele ano, a Telefônica finalmente estendeu novas linhas à Região, desencadeou verdadeira euforia, inclusive por parte dos jovens de ambos os sexos, até então relegados à comunicação oral.
Numa época em que “ficar” – em especial para as adolescentes - significava “ficar em casa” sob os olhares zelosos das mães, sujeitas ainda a uma legislação que as considerava “semi-capazes” para os atos da vida civil e, portanto, sempre preocupadas com o que os outros iriam pensar, o acesso à telefonia soava como uma espécie de libertação das amarras (ou, se preferirem, “correntes”) que as atavam a uma cultura tradicional e androcêntrica. Ledo engano...
Antes que minha conselheira Dª Nena intervenha, dizendo que eu estou divagando, passo aos fatos objeto da crônica.  Pois bem, foi exatamente naquele ano que eu, que acabara de completar quinze anos e aquele que veio a ser marido (então com vinte), começamos a “namorar escondido”, com encontros ocasionais à saída da escola e uma ou outra “escapadela” para uma rápida conversa numa esquina próxima.
Por uma dessas coincidências que dão mais sabor à vida, nossas linhas telefônicas foram instaladas no mesmo dia e, de imediato, decoramos os números respectivos, prometendo que a primeira ligação seria “nossa”.  No auge do entusiasmo com a novidade, corri para a casa de minha - até hoje - amiga Clara, que também havia sido contemplada com uma linha telefônica e disquei (sim, a gente “discava” os números, comprometendo a vitalidade das unhas) o número que primeiro havia decorado.

- “Por gentileza, o João está?”.  Uma voz que me soou conhecida, retrucou: “Ah, então o nome dele é João!”.  – “Desculpe, foi engano”, foi a única coisa que me ocorreu dizer, antes de desligar com o coração aos pulos, pois a voz era, como já devem ter percebido... de minha mãe! Sim, eu ligara para a minha própria casa e, literalmente, entregara nossa cabeça numa bandeja, a minha e a de João Baptista.

Opressão pela linguagem

“A muitas pessoas pode passar despercebido, dado nosso condicionamento cultural, mas a mim me incomoda ver repetidas à exaustão, entre outras, frases como “Um país se faz com homens e livros”, escritas num contexto social fortemente androcêntrico e racista, em que às mulheres – ainda que alçadas a “importantes” personagens de romances e histórias infantis -   cabia o papel exclusivo de cuidarem da casa, de seu “senhor” e suas crianças. Às Anastácias, duplamente discriminadas, competia meramente servir às famílias de “bem”, ou, se preferirem, de “bens”.
Nada contra nosso grande escritor, muito ao contrário – até porque minha infância foi marcada pelas deliciosas reinações que o mais famoso Sítio literário do Brasil nos oferecia -, mas há que considerar que hoje vivemos um novo contexto social que, (re)tirando as mulheres do âmbito privado e do papel exclusivo de cuidadoras, santas ou prostitutas, começa a alçá-las, como às demais “ditas” minorias, a co-partícipes de fato e de direito de seus próprios destinos e, por consequência, dos destinos do país.  Hoje sabemos, pois, que a sociedade é bem mais complexa do que uma linguagem ultrapassada pode comportar.
Assim, acredito que, se nos propusermos a substituir a palavra “homem” pela palavra “pessoa”, toda vez que nos referirmos aos seres humanos em geral, conseguiremos paulatinamente amenizar uma das injustiças sócio-culturais mais potentes dos últimos milênios: a opressão pela linguagem.  Por outro lado, livros são, sim, necessários à nossa formação – eu mesma me considero um bicho-de-livro desde sempre - , mas conhecimento teórico já não é suficiente para dar conta das profundas desigualdades sociais que a cultura excludente gerou.
Já não nos basta repetir mântrica e aleatoriamente frases de pressuposta sabedoria das “autoridades” eleitas pelos donos do Poder, seja ele político, econômico ou literário.  Ler, sim, sempre, mas procurar agir conscientemente em prol de uma efetiva cidadania para todas as pessoas, participando na medida do possível de movimentos sociais, usando uma linguagem inclusiva e, portanto, menos androcêntrica, seria um passo importante para combater o analfabetismo funcional, midiático e ideológico, colaborando efetivamente para a implantação da Cultura de Paz que tanto almejamos.”


sc/ 26/08/2013