segunda-feira, 2 de junho de 2014

A CARTA


A  C A R T A

 

Por que partiste 

Amada minha? 

Uma a uma 

As lembranças manuseio 

Quais cartas que, relendo,  

Saboreio apalpo aspiro  

Tão somente com receio 

De lavá-las com meu pranto, 

Saudosa de teu olhar 

De gata mansa... 

Onde quer que estejas 

Mãezinha querida  

Recebe esta cartinha    

Mas não te preocupes 

Com as agruras 

Desta breve vida minha 

Nem te deixes levar, 

Como eu, pela saudade 

Apenas repousa   

Pois cedo ou tarde 

Bem o sabemos 

Nos reencontraremos 

Enquanto aguardas 

Minha gatinha 

Desfruta da paz 

Que tanto almejaste. 

Descansa...

 

Sc/Publicada na Colectânea “Cartas”, lançada sábado (31/05/2014) pela Lua de Marfim Editora, em Lisboa Portugal.

 

 

 

 

 

    

 

 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

2014 Promete...


C r ô n i c a escrita em fevereiro 2014 e “Censurada” pelo Jornal com o qual colaborava há anos e que foi “abduzido” por um Partido Político...

                                               “2014 promete...”                  

Uma das fontes de inspiração de quem se dedica a escrever crônicas, é ouvir conversas de pessoas desconhecidas, em lugares públicos.  Assim é que, há dias, em uma lanchonete, ouvi a instigante frase de um dos jovens que ocupavam uma mesa próxima: “Pois é, “véi”, 2014 promete!”. Uma voz feminina se fez ouvir: “Verdade, mas...” e, infelizmente, o papo promissor se interrompeu, com a chegada da garçonete: “Querem fazer o pedido agora?”.  Para minha frustração, eles queriam, sim – afinal é para isso que se vai a uma lanchonete, não?

Durante alguns minutos, apurei os ouvidos na esperança de que a conversa retomasse seu rumo, mas qual(!), a turma já “sacara” seus Iphones/Ipods/Smarths, sei lá mais o quê e o diálogo(?)  assumiu uma linguagem um tanto codificada: - “Oh isso, mano!”. – “Demorô!”... e as frases e risadas soltas, entremeadas por termos em inglês e “internautês” – só inteligíveis aos iniciados – tiveram o condão de fazer com que eu me recolhesse às minhas próprias reflexões, reprimindo a vontade de me aproximar e fazê-los retomar o assunto.

“É nisso que dá ficar ouvindo a conversa alheia”, brincou minha nobre conselheira Dª Nena. – “Você não percebe que eles me inspiraram?” retruquei, indignada com sua risadinha de quem parece estar pensando: “Ponha-se no seu lugar, mulher!”. O fato é que a simples expressão “Verdade, mas...”,  emitida pela jovem, soou como música a meus ouvidos, pois estou certa de que ela, se instada a falar - como, aliás, a maioria dos adolescentes, em que pese sua linguagem cifrada – nos ajudaria a repensar alguns dos tantos temas candentes a serem enfrentados pelos cidadãos e cidadãs brasileiras, neste Ano da Graça de 2014.

A grande questão é que 2014 é um ano decisivo e promete, sim, mas promete o quê, exatamente? Acredito que a resposta mais plausível a essa importante questão, proposta por jovens aparentemente desconectados da realidade social, seria: “Depende de mim, de você que me lê, de todos nós, brasileiros e brasileiras. Depende da nossa consciência e atitude”. Aproveito para lembrar, já que estamos em “Ano de Copa”, que já é hora de deixarmos de lado, por exemplo, o velho “complexo de vira-latas” (para usar a expressão criada por Nelson Rodrigues, exatamente a respeito do futebol) atitude que já começa a se tornar piada na imprensa estrangeira.  Será que é isso que queremos?

Enfim, aproveito para lembrar que é também “Ano de Eleições”, o que requer o exercício consciente de nossa responsabilidade para o futuro do país e que já é hora de pensarmos por nós mesmos, sem nos deixarmos levar pelos ‘maucaratistas’ de plantão (ou, se preferirem, pelos ‘arautos do caos’), sempre prontos a denegrir iniciativas sociais que vêm recebendo aplausos e sendo, literalmente, copiadas e implantadas mundo a fora. É preciso que nos cuidemos, para não sermos inocentes úteis, nas mãos daqueles que venderiam a própria mãe, a alma, o país, em sua ânsia pelo Poder.
 

sábado, 22 de março de 2014

Minha mãe dizia


                               Minha Mãe dizia

 

Hoje acordei com a lembrança insistente de um dos provérbios que ouvi à exaustão quando era jovem: “Quem não se enfeita, por si se enjeita”.  Como sempre faço quando algo se me apresenta à reflexão, fiquei tentando extrair algum sentido, não dos “ensinamentos” que o ditado poderia (ou não) conter, mas do fato de (man)tê-lo como pano de fundo durante parte da manhã - como aquelas músicas que, de repente, se instalam em nossa mente a (nos fazer) cantarolar por horas a fio.

Ditos populares, a meu ver, nem sempre são tão ingênuos ou, se preferirem, simplórios, quanto as pessoas que os repetem a torto e a direito.  Por outro lado, nem sempre contêm a sabedoria apregoada por nossos antepassados.  Em outras palavras, eu diria que provérbios são como os livros de auto-ajuda: uma bengala para aqueles cujos pensamentos capengam por falta de uso, mas que – até por isso mesmo -, não deixam de ter alguma utilidade.

Uma das questões mais perversas desses bordões é que suas receitas, em geral, incluem dentre seus ingredientes ‘generosas’ doses de preconceito adocicadas com algumas colheradas de mel de suspeita qualidade: a ‘pretensa’ sabedoria neles contidas. Não posso imaginar, por exemplo, uma mãe repetindo o provérbio em questão a seu filho adolescente. Ao contrário, provavelmente, como ouvi recentemente de uma mãe “zelosa de seus deveres”, ela diria: “Troca essa bermuda toda amassada, rapaz! Vão pensar que você não tem mãe (pra cuidar de suas roupas)”.

Às meninas é incutida a ideia de que precisam se enfeitar para serem aceitas, até por si mesmas.  Os meninos, ao contrário, são aceitos pelo simples fato pertencerem ao sexo masculino, ou melhor, serem “homens com H maiúsculo”, pois se não o forem, dá-lhe provérbios, piadas e toda sorte de discriminações quiçá mais violentas que as reservadas às mulheres...

O fato é que, feliz ou infelizmente, cresci ao som de ditados, nos quais minha mãe, em sua santa ingenuidade de órfã precoce, sempre foi pródiga. Contestadora, às vezes eu reagia à ‘lição’ e era colocada “de castigo” pelo desrespeito, sentada em um banquinho (até confortável, diga-se de passagem), para pensar “sobre tudo isso”!?.  E eu pensava mesmo!  Pensava tanto que me habituei a refletir a respeito de tudo que ouço-leio-vejo-sinto, embora não seja muito afeita a sentar em banquinhos... Pensava tanto, que não via o tempo passar e, até hoje me entrego com prazer a essa espécie de “solitude criativa”.

Enfim, acredito válido considerar a lembrança da ‘máxima’ em questão, como uma sincronicidade, o que me levou a conceber uma nova série em meus escritos, a que intitularei “Minha mãe dizia”.  Embora meu baú de relíquias da espécie “ditos populares” esteja razoavelmente sortido, as sugestões dos amigos e amigas com certeza mais o enriquecerá.

Namastê!

sábado, 1 de fevereiro de 2014

"O Mundo da Lua"


O Mundo da Lua 

 

Há exatos trinta anos 

você atravessou meu caminho 

sequer um carinho trocamos 

a não ser aquele beijinho 

que minh’alma perfurou 

minha lucidez sombreou.

 

Ah, o dourado perfeito 

daquele tufo em seu peito 

o verde-mar tão profundo 

daquele olhar vagabundo 

que por pouco, muito pouco

não transforma o meu caminho 

mas balançou o meu mundo. 

 

Chorei rios mares oceanos 

de uma paixão desmedida 

plena de atos insanos 

de dia até disfarçava 

à noite soltava o pranto 

e os alvos lençóis molhava. 

 

Penélope revivida 

confeccionei muitos mantos 

mas você, Odisseu, não voltou  

sequer notícias mandou 

e eu prossegui na vida 

a tecer o cotidiano 

do sofrimento esquecida. 

 

Há exatos trinta anos 

você não chegou a ser meu 

eu não cheguei a ser sua 

mas por baixos e altiplanos 

por dias meses e anos 

andei no Mundo da Lua. 

 

 

Você não chegou a ser meu 

Eu não cheguei a ser sua 

Mas por dias meses anos 

Andei no ‘mundo da lua’.

 

Publ. na Antologia “O Mundo da Lua” que está sendo lançada hoje (01/02/2014)  em Lisboa, Portugal, pela Lua de Marfim Editora, em grande festa comemorativa de seu aniversário.  Ainda não tive acesso aos nºs das páginas respectivas.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Exortação para a Paz


                                               Exortação para a Paz

 

                                                                                                                                                      Suzete Carvalho*

 

Em célebre discurso na Assembléia das Nações Unidas, José Mujica, Presidente do Uruguai, referiu-se a uma das mais famosas assertivas de Einstein: “Não há maior absurdo do que querer mudar os resultados repetindo sempre a mesma fórmula”.  Refletindo a respeito dessa sábia afirmação, me ocorreu que nem sempre nos apercebemos do quanto somos repetitivos, seja em nossas palavras, seja em nossas ações.

De alguma maneira, o dizer científico de Einstein se encontra com a sabedoria arquimilenar de algumas religiões, como o hinduísmo, o budismo e o próprio cristianismo, que utilizam os mantras como fórmulas que, de tanto serem repetidas, se aninham em nossos corações e nossas mentes, influenciando nossa forma de ser e de estar no mundo.

Como lembra minha conselheira Dª Nena, diante desses ensinamentos é necessário que fiquemos alertas a respeito do uso da palavra ‘violência’ que vem sendo repetida à exaustão, a ponto de se impregnar inclusive em nossas emoções e corromper nossos relacionamentos. Amplificado pela mídia, o medo nos coloca em um neurótico ‘estado de atenção’, que nos faz reagir a qualquer movimento que nos pareça estranho.

Por outro lado, em que pese seu lado consumista, consola-nos saber que ainda há esperança de reverter esse quadro: as festas de fim de ano, especialmente as natalinas, tiveram o condão de fortalecer a palavra ‘Paz’, a mais enunciada nos votos reciprocamente trocados ente familiares e amigos(as), numa espécie de clamor oriundo do mais profundo de nosso ser que encontrou eco mundo afora, com a rapidez de um raio, ainda que virtualmente.

Embora a afirmação possa parecer absurda às pessoas que não militam nas Redes Sociais, testemunhei pessoalmente essa ‘força’ quando, ao postar à Zero Hora do dia primeiro do ano uma foto em que fazia um pequeno ritual pela Paz no Mundo ao lado de minhas netas, fui contemplada em poucos minutos com o ‘retorno’ (por via de ‘curtidas’ ou comentários),  de amigos(as) residentes ou em viagem de férias, em várias partes do planeta como, entre outros(as), Bibhu Prasad, nepalense que reside em Dubai e Jô Ramos, jornalista carioca em passagem por Paris de onde segue para Lisboa em seu mister de divulgar o trabalho de  escritores e escritoras brasileiras .

Enfim, possamos nós fazer em 2014 uma verdadeira “exortação à Paz”, como propôs em comentário à minha postagem, o arquivologista carioca, pesquisador de Cultura, Religião e Movimentos Sociais, Glauco Rocha, adotando-a como um verdadeiro mantra ou, se preferirem, como a fórmula a ser repetida e repetida até que se instale em nós de forma a fazer com que “sejamos nós a paz que desejamos ao mundo”. Enfim, para usar as palavras do  Dalai Lama em sua Mensagem de Ano Novo, enviada de Karnataka, na Índia: “...tentar criar a paz interior em primeiro lugar dentro de nós e em seguida, compartilhar com outras pessoas para construir um ano feliz”.

 

*A autora escreve neste espaço toda segunda sexta-feira do mês.  

Publ. no Jornal “Gazeta do Ipiranga” nº 2828, 10/01/2014, pág. C-6.