terça-feira, 22 de julho de 2014

Maria Alice


Maria Alice

 

“Grande amiga, quase irmã 

gostava de codinomes 

chamava-me Suzi Bel 

tratava-a por Mary Mel 

loucura pouca é bobagem 

dizia com muito charme 

mas um dia extrapolou 

e lançou um desafio 

pra testar minha coragem 

propôs um pacto à antiga 

só se não for de sangue 

manguei com a minha amiga 

me encarou falando a sério 

quem de nós morrer primeiro 

dá um jeito de voltar 

e contar todo mistério 

ponto a ponto por inteiro 

dessa passagem secreta 

e qual será nosso código 

perguntei de brincadeira 

prontamente respondeu 

proponho um puxão na perna 

ou uma boa gargalhada.

 

Como sói acontecer 

o tempo se encarregou 

de afastar nossos caminhos 

mas um dia a encontrei 

e perguntei se lembrava 

do nosso trato maluco 

Alia jacta est 

 não tem como sair dessa 

foi o que me respondeu 

o pacto está selado  

pra confirmar brindaremos

com um gole deste suco 

de uva a lembrar o sangue

rimos e nos abraçamos  

novo encontro combinamos 

mas por obra do destino 

mão mais nos reencontramos.

Eis, porém, que certo dia 

não muito tempo depois

o telefone tocou... 

tive um doloroso impacto 

um mal súbito a levara 

alguém me comunicou 

sequer me lembrei do pacto 

e o  tempo foi passando 

a vida continuando 

a memória se esgarçando  

até que ontem, do nada 

me bateu uma saudade...

e eis senão que de repente 

um arrepio me percorreu 

 tive a nítida impressão  

de ouvir sua risada 

debochada, escancarada.

Seria imaginação?   

Na dúvida, fico alerta 

de alma e de mente aberta 

a qualquer revelação 

e aqui me comprometo 

a transmitir  aos leitores 

toda e qualquer descoberta.

Pacta  sunt servanda!”

 

sc/22/07/2014

 

 

 

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Relação Ambivalente


Relação Ambivalente

 

 

“Travo com as palavras  

relação de intimidade

ambivalente

quase...pecaminosa

eu as provoco

elas me desafiam

sirvo-as em bandeja de prata

me expõem em praça pública

fustigo-as durante o dia

atormentam-me à noite

inverto-as e subverto-as

mas se recompõem

à minha revelia 

e quando creio  

estar no comando

percebo-me à sua mercê.

 

Brincalhonas

diria mesmo 

abusadas  

escondem-se quando  

mais delas necessito

e reaparecem

debochadas

em horas inoportunas

pretendem-se poderosas 

porque as realço

em toda a força

de seus significados

pretendem-me frágil

porque se acreditam

a ultima ratio

de minha existência. 

 

Nada obstante

eu as venero

descendentes que são

do próprio Verbo Divino.

 

Sc/16/07/2014.

Adaptação poética de reflexão postada aqui, em data de 28/10/09, sob o Marcador Reflexões

 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A CARTA


A  C A R T A

 

Por que partiste 

Amada minha? 

Uma a uma 

As lembranças manuseio 

Quais cartas que, relendo,  

Saboreio apalpo aspiro  

Tão somente com receio 

De lavá-las com meu pranto, 

Saudosa de teu olhar 

De gata mansa... 

Onde quer que estejas 

Mãezinha querida  

Recebe esta cartinha    

Mas não te preocupes 

Com as agruras 

Desta breve vida minha 

Nem te deixes levar, 

Como eu, pela saudade 

Apenas repousa   

Pois cedo ou tarde 

Bem o sabemos 

Nos reencontraremos 

Enquanto aguardas 

Minha gatinha 

Desfruta da paz 

Que tanto almejaste. 

Descansa...

 

Sc/Publicada na Colectânea “Cartas”, lançada sábado (31/05/2014) pela Lua de Marfim Editora, em Lisboa Portugal.

 

 

 

 

 

    

 

 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

2014 Promete...


C r ô n i c a escrita em fevereiro 2014 e “Censurada” pelo Jornal com o qual colaborava há anos e que foi “abduzido” por um Partido Político...

                                               “2014 promete...”                  

Uma das fontes de inspiração de quem se dedica a escrever crônicas, é ouvir conversas de pessoas desconhecidas, em lugares públicos.  Assim é que, há dias, em uma lanchonete, ouvi a instigante frase de um dos jovens que ocupavam uma mesa próxima: “Pois é, “véi”, 2014 promete!”. Uma voz feminina se fez ouvir: “Verdade, mas...” e, infelizmente, o papo promissor se interrompeu, com a chegada da garçonete: “Querem fazer o pedido agora?”.  Para minha frustração, eles queriam, sim – afinal é para isso que se vai a uma lanchonete, não?

Durante alguns minutos, apurei os ouvidos na esperança de que a conversa retomasse seu rumo, mas qual(!), a turma já “sacara” seus Iphones/Ipods/Smarths, sei lá mais o quê e o diálogo(?)  assumiu uma linguagem um tanto codificada: - “Oh isso, mano!”. – “Demorô!”... e as frases e risadas soltas, entremeadas por termos em inglês e “internautês” – só inteligíveis aos iniciados – tiveram o condão de fazer com que eu me recolhesse às minhas próprias reflexões, reprimindo a vontade de me aproximar e fazê-los retomar o assunto.

“É nisso que dá ficar ouvindo a conversa alheia”, brincou minha nobre conselheira Dª Nena. – “Você não percebe que eles me inspiraram?” retruquei, indignada com sua risadinha de quem parece estar pensando: “Ponha-se no seu lugar, mulher!”. O fato é que a simples expressão “Verdade, mas...”,  emitida pela jovem, soou como música a meus ouvidos, pois estou certa de que ela, se instada a falar - como, aliás, a maioria dos adolescentes, em que pese sua linguagem cifrada – nos ajudaria a repensar alguns dos tantos temas candentes a serem enfrentados pelos cidadãos e cidadãs brasileiras, neste Ano da Graça de 2014.

A grande questão é que 2014 é um ano decisivo e promete, sim, mas promete o quê, exatamente? Acredito que a resposta mais plausível a essa importante questão, proposta por jovens aparentemente desconectados da realidade social, seria: “Depende de mim, de você que me lê, de todos nós, brasileiros e brasileiras. Depende da nossa consciência e atitude”. Aproveito para lembrar, já que estamos em “Ano de Copa”, que já é hora de deixarmos de lado, por exemplo, o velho “complexo de vira-latas” (para usar a expressão criada por Nelson Rodrigues, exatamente a respeito do futebol) atitude que já começa a se tornar piada na imprensa estrangeira.  Será que é isso que queremos?

Enfim, aproveito para lembrar que é também “Ano de Eleições”, o que requer o exercício consciente de nossa responsabilidade para o futuro do país e que já é hora de pensarmos por nós mesmos, sem nos deixarmos levar pelos ‘maucaratistas’ de plantão (ou, se preferirem, pelos ‘arautos do caos’), sempre prontos a denegrir iniciativas sociais que vêm recebendo aplausos e sendo, literalmente, copiadas e implantadas mundo a fora. É preciso que nos cuidemos, para não sermos inocentes úteis, nas mãos daqueles que venderiam a própria mãe, a alma, o país, em sua ânsia pelo Poder.
 

sábado, 22 de março de 2014

Minha mãe dizia


                               Minha Mãe dizia

 

Hoje acordei com a lembrança insistente de um dos provérbios que ouvi à exaustão quando era jovem: “Quem não se enfeita, por si se enjeita”.  Como sempre faço quando algo se me apresenta à reflexão, fiquei tentando extrair algum sentido, não dos “ensinamentos” que o ditado poderia (ou não) conter, mas do fato de (man)tê-lo como pano de fundo durante parte da manhã - como aquelas músicas que, de repente, se instalam em nossa mente a (nos fazer) cantarolar por horas a fio.

Ditos populares, a meu ver, nem sempre são tão ingênuos ou, se preferirem, simplórios, quanto as pessoas que os repetem a torto e a direito.  Por outro lado, nem sempre contêm a sabedoria apregoada por nossos antepassados.  Em outras palavras, eu diria que provérbios são como os livros de auto-ajuda: uma bengala para aqueles cujos pensamentos capengam por falta de uso, mas que – até por isso mesmo -, não deixam de ter alguma utilidade.

Uma das questões mais perversas desses bordões é que suas receitas, em geral, incluem dentre seus ingredientes ‘generosas’ doses de preconceito adocicadas com algumas colheradas de mel de suspeita qualidade: a ‘pretensa’ sabedoria neles contidas. Não posso imaginar, por exemplo, uma mãe repetindo o provérbio em questão a seu filho adolescente. Ao contrário, provavelmente, como ouvi recentemente de uma mãe “zelosa de seus deveres”, ela diria: “Troca essa bermuda toda amassada, rapaz! Vão pensar que você não tem mãe (pra cuidar de suas roupas)”.

Às meninas é incutida a ideia de que precisam se enfeitar para serem aceitas, até por si mesmas.  Os meninos, ao contrário, são aceitos pelo simples fato pertencerem ao sexo masculino, ou melhor, serem “homens com H maiúsculo”, pois se não o forem, dá-lhe provérbios, piadas e toda sorte de discriminações quiçá mais violentas que as reservadas às mulheres...

O fato é que, feliz ou infelizmente, cresci ao som de ditados, nos quais minha mãe, em sua santa ingenuidade de órfã precoce, sempre foi pródiga. Contestadora, às vezes eu reagia à ‘lição’ e era colocada “de castigo” pelo desrespeito, sentada em um banquinho (até confortável, diga-se de passagem), para pensar “sobre tudo isso”!?.  E eu pensava mesmo!  Pensava tanto que me habituei a refletir a respeito de tudo que ouço-leio-vejo-sinto, embora não seja muito afeita a sentar em banquinhos... Pensava tanto, que não via o tempo passar e, até hoje me entrego com prazer a essa espécie de “solitude criativa”.

Enfim, acredito válido considerar a lembrança da ‘máxima’ em questão, como uma sincronicidade, o que me levou a conceber uma nova série em meus escritos, a que intitularei “Minha mãe dizia”.  Embora meu baú de relíquias da espécie “ditos populares” esteja razoavelmente sortido, as sugestões dos amigos e amigas com certeza mais o enriquecerá.

Namastê!