quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Relação ambivalente

Travo com as palavras uma relação de intimidade ambivalente, quase...pecaminosa. Eu as provoco e elas me desafiam. Sirvo-as em bandeja de prata para que sejam devoradas por quem a elas tiverem acesso, elas me expõem em praça pública em toda nudez de meus pensamentos. Fustigo-as durante o dia para que cumpram sua missão, atormentam-me noite adentro para que cumpra a minha. Inverto-as e subverto-as e elas se recompõem à minha revelia. Quando creio estar no comando, percebo-me à sua mercê. Escondem-se quando mais delas necessito para reaparecerem, debochadas, em momentos inoportunos. Pretendem-se poderosas porque as realço em toda a força de seus significados. Pretendem-me frágil porque se acreditam a ultima ratio de minha sobrevivência mental.
Lineares, desconhecem as dimensões da Consciência. Não obstante, eu as venero, descendentes que são do próprio Verbo Divino.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Clamores

Arcanos me acompanham noite adentro
ensejando sonhos proféticos
rimas me acompanham noite adentro
ensejando sonhos culturais
clamores me acompanham noite adentro
ensejando sonhos frenéticos
com personagens sofridos, esqueléticos,
a dispensar rimas e tarôs herméticos
projetos de fuga patéticos
a se arvorar em pleno epicentro
de escabrosas questões universais.

domingo, 25 de outubro de 2009

Por que?

Repetida mantricamente, qualquer asneira se transforma em verdade, ainda que dita em tom de blague. Assim se comportam os alienados e os políticos de má-fé. Dessa forma se perpetuam os estereótipos e, consequentemente as exclusões sociais.

Ah, homo-sapiens-demens, quanto sofrimento gratuito!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Diferentes e complementares

Dentre as questões existenciais que venho trabalhando há anos, talvez a mais arraigada no ser humano seja a do Preconceito, legado cultural do patriarcalismo que se revela, queiramos ou não, das mais simples atitudes e palavras do cotidiano à lógica de discursos que se pretendem, exatamente... antidiscriminatórios.

Nem mesmo conceituados cientistas, artistas e escritores escapam das armadilhas mentais que o preconceito nos arma, geralmente revelado em atos falhos ou nas entrelinhas de seus escritos, às vezes contidos inadvertidamente em livros e artigos que se pretendem... pedagógicos.

Assim, por exemplo, hoje leio na home da Uol, a seguinte “chamada”: O que fazer em casos de preconceito contra homossexuais na escola, que remete ao artigo intitulado Preconceito homossexual, de autoria do psiquiatra e escritor Içami Tida, constante da página Uol Educação.

No artigo, o autor discorre sobre hormônios e educação, informando que os preconceitos são assimilados pelas crianças, devido à cultura machista e “ensina”: “As mulheres são diferentes e complementares, mas não são inferiores aos homens”. (sic/grifei).

Pergunto: Teria o educador (cf. currículo) pretendido dizer que os seres humanos são diferentes e complementares entre si e, portanto, não há falar em hierarquia entre eles? Sujeito ao imprinting cultural que nos macula a todos, teria o Dr. Içami revelado inconscientemente seu próprio machismo?

Enfim, o autor de Quem ama, Educa (entre outras mais de duas dezenas de livros), conclui o artigo com o seguinte conselho: “Cabe a todos nós, professores, pais, educadores e cidadãos em geral preparar pessoas mais saudáveis, livres de preconceitos, não importa quais sejam”.

Com o devido respeito à experiência, conhecimentos técnicos e renome do ilustre psiquiatra, eu diria que cabe a cada um(a) de nós, nós prepararmos para que sejamos realmente pessoas mais saudáveis interior e exteriormente, vigiando nossos próprios preconceitos para que possamos – com transparência – servir de espelho às gerações mais jovens.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Loucura ou (in)coerência?

Talvez as águas do rio Léthe – que me perdõe Mnemosina, por quem (e por cujas filhas) tenho um dever de gratidão –, a par da conhecida característica de induzir ao esquecimento aqueles que inadvertidamente as ingerem, contivessem também alguma propriedade alucinógena e, ao atravessá-lo, tenhamos tod@s sido fatalmente afetad@s pela droga.


Conta-nos Platão na sua indefectível República (Mito de Er ou da Reminiscência) que, no reino dos mortos, permite-se à alma escolher o modo de vida que pretende viver ao reencarnar e nos informa que aqueles que pretendem viver uma vida de poder (lato senso), ingerem uma grande quantidade de água durante a “travessia”.


Ora, sabido que o poder enlouquece e que o poder absoluto “enlouquece absolutamente” como diz Morin; sabido mais que a imaginação não deixa de ser uma espécie de “loucura”; sabido, enfim, que a história humana não passa de uma Grande Insanidade – haja vista a barbárie (surtos generalizados?) que a domina ciclicamente -, quiçá estejamos tod@s vivendo um grande “sonho coletivo”.


Por outro lado, se como diz Platão, as almas daqueles que optaram por viver uma vida de sabedoria quase não bebem daquelas águas e, portanto, podem lembrar-se das ideias que contemplaram (Alethéia), estariam os homens e mulheres de saber, menos sujeitos ao efeito da droga - e, portanto, em plena lucidez -, nos alertando para a ilusão (Maya) da matéria ou para o Grande Vazio (wu wei) que a tudo con-forma?


Teriam generosamente essas almas puras optado por "atravessar o rio" para nos ajudar (qual Bodhisatvas) a escapar desta “viagem” sem rumo e encontrar o caminho de volta? Se o espaço-tempo é convencional e relativo, qual a dimensão a que pertencemos ou que nos pertence realmente?


Àquel@s cuja lógica inspira um sorriso condescendente a esse pensar "irracional", proponho a teoria mais “coerente” de nossa tradição: a ideia de um Pai vingativo que, a uma desobediência de seu único casal de filhos, expulsa-os implacavelmente de Casa, condenando-os e a todos os seus descendentes a viver per ominia seculum no sofrimento (parindo na dor e obtendo alimento com o suor de seus rostos), sob os olhares atentos de Satanás e seu séquito demoníaco.

domingo, 18 de outubro de 2009

Silo da memória

Palavras pródigas

qual leite materno

a brotar do

seio do tempo

história secreta

do silo da memória

do eterno.

O Caminhar

Todo caminho nada mais é do que um caminho, cabendo-nos a decisão de nele prosseguir ou abandoná-lo, quantas vezes necessário for. Importante, como alerta Carlos Castañeda, é decidir sem medo ou ambição e, se a opção for trilhá-lo, verificar se ele possui um coração.
Cada novo insight é uma etapa vencida que – embora todas se interliguem - representa um novo nível de consciência e liberdade (uma nova e mais apurada percepção da realidade) a ser compreendido e trabalhado enquanto durar a jornada.
Como regra, traçamos uma meta a ser alcançada a qualquer custo, sem nos atermos à importância de cada passo, à beleza das flores que enfeitam a estrada (Olhai os lírios do campo), suavizando o caminhar às necessidades dos companheiros, cujas dificuldades foram ou serão, provavelmente, as nossas em outro momento do percurso.
Literalmente, desembestamos, escorregando aqui e ali, e nos ferindo e sofrendo, na tentativa de derrubar os demais peregrinos, numa competitividade desenfreada e enceguecida por algo de cuja falta de sentido só nos conscientizaremos tarde demais.
Estar atento ao caminhar, aspirar o indefectível aroma das flores, sentir cada momento como se fosse o único, compadecer-se do outro-seja-ele-quem for, é a postura do sábio, que faz seu caminho ao andar, conduz seu auto-traçado destino suavemente e esculpe a vida até torná-la uma obra prima.

*Trecho do cap.5 (Insight ou emergência espiritual?), do meu (ainda inédito) Micro-Ensaio sobre a Consciência.