segunda-feira, 23 de julho de 2012

C I N ZA S



Quisera oferecê-las

à deusa Ganga

cujas madeixas

brotam das neves

eternas do Himalaia

aprisionada porém

à força das circunstâncias

entendi haver por bem

transformar o último

ritual de sua passagem

que sonhara grandioso

em humilde oferenda local.



Com status de floresta

em mágica montanha

o parque se engalanou

pleno de luz e de amores

e a festa de despedida

deu-se na pequena fonte

que brotou da Terra Pura

e levou por entre as flores

o que restou de uma vida.



sc/

sexta-feira, 13 de julho de 2012

COLUNA DA SUZETE


Idades da Vida

Suzete Carvalho*

Minha mãe, recém falecida, dizia que eu já nasci “lendo e escrevendo”, tamanha a paixão que sempre devotei à palavra escrita, mas foi somente após minha aposentadoria, há pouco mais de duas décadas, que comecei realmente a usufruir dessa dádiva que somente ao ser humano é concebida: a capacidade de compreender, interpretar, pensar e repensar a vida.

Estava exatamente elucubrando a esse respeito dia desses, quando me caiu às mãos interessante artigo da Revista Época deste mês, intitulado “Como a idade faz nosso cérebro florescer”, no qual são analisadas algumas das possíveis origens biológicas da sabedoria que a maturidade – a estação da colheita, segundo o Talmude - pode (e deve, a meu ver) proporcionar.

O fato é que, nossos condicionamentos culturais eivados de todo tipo de preconceito, não nos permitem perceber o quanto a linguagem é opressora e limitativa de nossas possibilidades, confinando o próprio pensamento. Assim, por exemplo, a palavra aposentar vem do antigo apousentar (sentar pouso), de onde aposento (quarto), ou seja, aposentado seria aquele que se limita a seus próprios aposentos, deixa de voar, se recolhe, pressupondo, portanto, inatividade.

Como escrevi algures, o aposentado geralmente é idoso, de idadoso, aquele que tem muita idade, visto pelo senso comum como ‘aquele que já passou da idade ativa’. Hoje esse conceito está mudando, mas como ocorre em todo processo cultural, antes que se encontre um novo equilíbrio o pêndulo tende a oscilar, e então os mais afoitos caem no extremo oposto utilizando expressões que também não correspondem à realidade, como é o caso da falaciosa expressão ‘melhor idade’.

Enfim, todas as idades têm seus privilégios, desde que haja qualidade de vida, assim como em todas as fases há percalços. O que jamais se pode perder é a capacidade de indignação diante da injustiça, a vontade de expressar aquilo que sentimos, o desejo de lutar por tudo em que acreditamos e de desfrutar daquilo que conquistamos. Para isso é essencial participar, trocar experiências e, nessa troca, renovar nossas visões de mundo e ativar nossas potencialidades físicas e intelectuais, sejamos homens ou mulheres, jovens ou idosos de todas as cores, tendências e procedências.



*A autora escreve neste espaço toda segunda sexta-feira do mês. Alguns de seus escritos em prosa e verso podem ser acessados e comentados no blog www.novaeleusis.blogspot.com

**Publ. no Jornal “Gazeta do Ipiranga”, edição de 13/07/2012, Caderno D, pág. 6







domingo, 8 de julho de 2012

Haicai do mês




“Pensar a vida

repensar a morte e

não pensar a dor.”



Publ. no facebook em 08/07/20122

sexta-feira, 29 de junho de 2012

EU DIGO NÃO AO NÃO




Nasci vivi e cresci

sob o signo do não

dura palavra de ordem

dos adultos de então

hoje semeio desordem

nas asas de um outro não

pois muito muito sofri

com a discriminação

e pois digo não ao não

não e não porquê não

não ninguém pode dizer

que o não da mulher

é sim bem assim

tal qual pretendem

patriarcas de plantão

não podem não

pois lá no fundo eles sabem

que um não será sempre não

por princípio e vocação

e que um bem dito não

não requer explicação

se é que me entendem

os que vivem na ilusão

dos tempos que lá se vão

quando o povo era refém

da pouca legislação

que dava ensejo também

à angústia da exclusão

aos guetos eu digo não

pois não aceito esse não.



Publ. in Antologia “Eu digo não ao não”. Póvoa de Sta.Iria, Portugal: Lua de Marfim Editora, 2012, pág. 73.











quarta-feira, 13 de junho de 2012

domingo, 10 de junho de 2012

”A Casa parece lotada”, disse a visitante. - “No inverno sempre há vagas, porque muitos se vão”. Ingênua, perguntou: “A família vem buscá-los”?”. – “Não, querida, os deuses”, respondeu a diretora da Casa de Repouso.


Da série “Micro contos Macrorrealistas”