quarta-feira, 3 de julho de 2013

A vida num sonho


A VIDA NUM SONHO

 

“Embora o prazo de validade já 

se aproxime de seu termo 

e as páginas  amarelecidas 

mal suportem novos carimbos 

tento honrar  o passaporte 

que me foi  concedido 

para atravessar  a dimensão 

do tempo  mera passagem 

de formas  a projetar 

incompletudes entre si. 

Foto já um tanto obscurecida 

minhas vistas obnubiladas 

não mais a reconhecem 

pouco importa porquanto 

sei que restam  apenas 

poucas  fronteiras a cruzar    

muitas doações entretanto 

ainda serão necessárias 

até que eu consiga  

me desfazer  das tantas 

quinquilharias  acumuladas 

lembranças arraigadas

na volúpia do apego 

dolorosas penas. 

Firmei propósito no entanto 

de atravessar  com leveza  

e humildade a última aduana 

que me levará  de volta ao lar 

qual filha pródiga carregarei  

tão somente as peças necessárias 

ao último lance  do jogo 

de uma vida atrevida

que se acreditou bem vivida 

realizada e soberana 

mas que na verdade

transcorreu insana 

sofrida e manipulada.

Acordo sobressaltada 

teria  eu viajado 

ou meramente sonhado?”

 

sc/janeiro/2013 

*Publ. na Antologia “A Vida num Sonho”, Lisboa, Portugal:Lua de Marfim Editora, 2013, p.88/80. 

domingo, 30 de junho de 2013


                                                   Brioches
A amiga (há quatro décadas): “Mariazinha, já que você é tão inteligente, lê tanto, escreve tão bem, por quê você não diz o que pensa sobre o governo militar?”. Mariazinha: “Porque eu sou covarde e preciso do meu emprego. Simples assim.”    A “amiga” (há quatro dias): “Maria, já que você é tão inteligente, lê tanto, escreve tão bem, por quê você apoia esse governo que usa o “nosso” dinheiro pra distribuir ‘bolsa família’ e incentivar a vagabundagem?”.   Maria: “Porque sou grata à vida, que nos dá oportunidade de nos redimirmos de nossa covardia”.  A amiga: “Não entendi...  Maria, acorda(!), eu estou falando com você!”.   Maria, ‘acordando’: “Desculpe, eu me distraí olhando a sua bolsa.  Linda, né?”.  A “amiga”, com ar importante: “É Vuitton. Comprei em Paris.”   Maria: “Ah! Agora vamos à sua pergunta...”.    A amiga, interrompendo: “Deixa esse papo pra lá e vamos ao lanche. Advinha o que eu mandei a cozinheira preparar!”.   Maria: “Brioches?”...”

 

sc/25/06/2013.  Da série “Microcontos macrorrealistas”. Postada hoje, tb em m/Mural no Facebook.     

terça-feira, 25 de junho de 2013


Acredito que os conceitos abaixo, sobre os quais venho trabalhando há mais de uma década, podem ser objeto de reflexão neste complexo momento pelo qual a sociedade está passando.

 

VIOLÊNCIA  E  CIDADANIA - UM  DIÁLOGO  IMPOSSÍVEL

 

 

Violência é o uso da força - física ou não - para constranger ou para coagir alguém a fazer ou deixar de fazer alguma coisa.  É agressão, conduta destrutiva que, em princípio, não se confunde com a agressividade, entendida esta como força ou dinamismo necessário até mesmo à sobrevivência. Assim, a agressividade geralmente é positiva, enquanto a violência é sempre negativa.  Violência ou agressão era a forma de solução de conflitos pré-jurídica, em que se utilizavam as vias de fato, às quais mais tarde vieram a sobrepor-se as vias de direito.  Toda violação de direito é, portanto, uma espécie de violência.

 

(...)

 

Violência simbólica - Por outro lado, um pequeno número de privilegiados que detêm o poder sócio-político, midiático ou econômico, alia-se na criação de formas hábeis de manutenção de seu status, agindo em geral subrepticiamente, com receio de perder a hegemonia.

         Não sendo física, essa invisível “violência doce da razão”, geralmente passa despercebida inclusive por aqueles contra quem se destina, cuja ingênua cumplicidade acaba por legitimar a imposição, ajudando a neutralizar as possíveis reações, pela consensualidade.

 

(...)

 

Alguns, mais conscientizados, movimentam-se no sentido de uma participação efetiva em busca de melhores paradigmas, esquivando-se das torrentes manipulatórias e procurando apreender o verdadeiro significado dos acontecimentos, sem se deixar levar pela visão estereotipada com que lhes são apresentados.  Reconhecem, assim, a premência de uma participação ativa de todos os atores sociais para que se efetive a necessária mudança de comportamento mental, que deve preceder as transformações sócio-político-econômicas.

 

(...)

 

Ser cidadão, portanto, é aplicar e fazer aplicar concreta e indiscriminadamente os direitos (e deveres) humanos, tirando-os de sua condição de mera abstração e desvirtuamento; é reconhecer os pontos de fragilidade do sistema e envidar esforços para sua superação, participando efetivamente da busca de soluções que nos beneficiarão a todos. Assim, o alcance da cidadania plena não se coaduna com a violência sob qualquer de suas formas.

 

 

sc/ Extratos de palestra ministrada no Espaço “Creche da Cidadania”, na Livraria Ícone, em S.Paulo, no dia 23/04/2001, publ. na íntegra, sob o título acima, in Thot 76/2001, pág.37/42.

 

 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Educação com Afeto


COLUNA DA SUZETE

 

                                               Educação com afeto

 

                                                                                                                                                      Suzete Carvalho*

 

Talvez pela sensibilidade exacerbada com que a idade nos brinda, o mês de maio soou a meus olhos e ouvidos já um tanto cansados, como um mês atípico em minha vida pessoal, pleno de acontecimentos “fortes” – uns muito bons, outros nem tanto -.  Refletindo sobre essas experiências, entendi oportuno compartilhar com os leitores e leitoras aquela que apreendi como uma lição a ser, talvez, replicada.

Antes de passar ao fato em si, cabe lembrar que a Memória é fator imprescindível para que se possa preservar o conhecimento adquirido pelo ser humano.  Nossos antepassados sabiam disso e, antes mesmo que a escrita fosse inventada, faziam a sua parte narrando suas experiências de vida às novas gerações. Com a vida moderna, as famílias foram perdendo o hábito da “contação de histórias” o que, de alguma forma, fez com que as crianças perdessem um pouco suas raízes.

Por esses motivos, achei muito interessante o projeto de preservação da memória familiar concebido por uma Escola de Educação Infantil, para o qual, na condição de avó, fui uma das convidadas para contar uma história pessoal, respaldada por fotos de família, para meninos e meninas entre 4 e 6 anos. A participação das crianças, sua curiosidade e entusiasmo, e o apoio discreto e amoroso da jovem professora Juliana, demonstraram que pode (e deve), sim, haver diálogo entre as gerações.

O projeto transcende o resgate das histórias familiares, incentivando também o amor pela leitura e pela escrita, ao propor a recontação coletiva dessas histórias pelas próprias crianças, com vistas à edição de um livro artesanal a ser lançado e autografado pelos escritores e escritoras-mirins, com a presença de familiares e convidados, em evento de encerramento das atividades do semestre. Fica a dica.

Enfim, acredito importante registrar aqui ainda, uma sincronicidade ou, se preferirem, uma “coincidência significativa”. Estava terminando de escrever esta crônica quando recebi uma inspiração extra pelas Redes Sociais, via Cláudio Salles: “Educação é tudo. Educação sem afeto é quase nada.”   Minha conselheira Dª Nena, sempre pronta a deixar sua marca, complementa: “Sim, é isso! Educação com afeto, por uma Cultura de Paz”.

 

*A autora escreve neste espaço toda segunda sexta-feira do mês. Alguns de seus demais escritos podem ser acessados e comentados no facebook, no tuiter e no blog www.novaeleusis.blogspot.com  

**A ilustração é de Danilo Marques, cujos trabalhos estão disponíveis na Pág. ILUSTRADOR DANILO MARQUES, do facebook e no site www.danilomarques.com.br

 

 

  

 

 

sábado, 8 de junho de 2013


“Misteriosa 

e deslumbrante 

a vida  segue  adiante 

depressa demais   

para meus passos

de  pessoa idosa. 

 

Nos braços da poesia 

tento acompanhá-la 

mas fria e ardilosa 

por entre os dedos 

me escapa  e segue... 

cheia de prosa.   

 

Sigo-lhe o rastro colorido 

e quando penso alcançá-la

restam-me nas mãos 

apenas alguns suaves 

diria mesmo desbotados 

tons de azul e rosa.” 

 

sc/08/06/2013

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 31 de maio de 2013


Minhas reflexões no tuiter (@carvalhosuzete), neste mês de maio do Ano da Graça de 2013:
 
1º Maio – Rede segura requer linha forte, não linha dura. 
03/05 – A criatividade nos introduz em uma consciência atemporal.  Dura é a volta à realidade. 

05/05 – Redes sociais: nova Ágora em que a mulher também tem voz.
09/05 – Indiferença social é o caldo de cultura que realimenta as exclusões.
15/05 – Não basta ser Verde, há que respeitar todas as cores. 
15/05 – Por uma Cultura de Paz, num mundo colorido e diversificado.
19/05 – A quem aproveitam esses boatos que levam a atos de barbárie?
21/05 – Provérbios e piadas são algumas das formas de desconstrução do feminino que perpetuam a discriminação.
23/05 – Eu e você(s) formamos nós, às vezes cegos, às vezes górdios.  Que tal transformá-los em laços?
24/05 – Tragicômico o espetáculo da dança dos egos.
25/05 – Quem tem o que dizer, pode falar baixo que tod@s ouvirão.
31/05 -  História sem Memória é cultura manipulada.

quinta-feira, 23 de maio de 2013


 

 

XEQUE-MATE

 

                                                                      Suzete Carvalho*

 

Como toda escritora que se preza, procuro manter olhos e ouvidos bem abertos e, na medida do possível, a boca fechada, ainda que não me rodeiem mosquitos.  A propósito, só pra não perder o mote, é bom lembrar que nós, ypiranguistas, teremos que redobrar os cuidados, pois a dengue está aí a nos rondar, pronta para o ataque.  Mosquitos à parte, o fato é que, eventualmente, sou brindada com alguns insights mais (do meu ponto de vista) ou menos (do ponto de vista da crítica de plantão) interessantes.

 

Consideradas as palavras acima como mero preâmbulo, o que quero dizer é que a(o) observador(a) mais atento, toda reunião de pessoas com objetivos “pretensamente” comuns, seja em encontros de trabalho, de lazer ou até mesmo familiares, acaba se revelando como um microcosmo que reflete as mazelas – e as alegrias, porque não dizer - da sociedade como um todo.

 

Assim, por conta da fidelidade a compromissos sócio-familiares - e quem não os tem -, tenho participado necessariamente de discussões, debates ou diálogos (como prefiro chamar esses encontros) que me permitem filosofar, inclusive nas redes sociais, sobre nossos papéis nos diferentes contextos relacionais e as máscaras que utilizamos para desempenhá-los. O tema me é tão caro, que já há mais de dez anos publiquei por aqui – Rev.nº 116, mai/jun/2002 – uma crônica intitulada “Máscaras de Si”.

 

Peões e peoas despreparados que somos neste descomunal jogo de xadrez em que transformamos a vida, movemos nossos egos (ou por eles somos movidos) em busca do xeque-mate – meta suprema de todo jogador -, medindo “forças” com o pretenso adversário, sem nos darmos conta de que o outro é apenas um(a) parceiro(a) e de que o objetivo do jogo é o aprimoramento de nossas relações pessoais e comunitárias.

 

Abrir caminho para a vitória “comendo” peças que possam tornar-se empecilhos, tocaiar o inimigo, excluí-lo sempre que possível, nos causam verdadeiro frenesi nessa ânsia desenfreada pela dominação.  Humilhar o Rei – aquele em quem projetamos poderes imaginários -, subjugando-o e o fazendo dobrar-se ante todos é o supremo delírio a inflar nossos egos.

 

 

*A autora é pós-graduada em Jusfilosofia e Mestre em Direito do Trabalho pela USP. Ex-Diretora Cultural do Cay, é também patrona da Biblioteca-Centro de Estudos e seus demais escritos podem ser acessados no Facebook e no blog www.novaeleusis.blogspot.com .   

 

Publ. in Revista do Ypiranga, mar/abril/2013, pág. 13.