terça-feira, 22 de abril de 2014
sábado, 22 de março de 2014
Minha mãe dizia
Minha
Mãe dizia
Hoje acordei com a lembrança insistente
de um dos provérbios que ouvi à exaustão quando era jovem: “Quem não se
enfeita, por si se enjeita”. Como sempre
faço quando algo se me apresenta à reflexão, fiquei tentando extrair algum
sentido, não dos “ensinamentos” que o ditado poderia (ou não) conter, mas
do fato de (man)tê-lo como pano de fundo durante parte da manhã - como aquelas
músicas que, de repente, se instalam em nossa mente a (nos fazer) cantarolar
por horas a fio.
Ditos populares, a meu ver, nem
sempre são tão ingênuos ou, se preferirem, simplórios, quanto as pessoas que os
repetem a torto e a direito. Por outro
lado, nem sempre contêm a sabedoria apregoada por nossos antepassados. Em outras palavras, eu diria que provérbios
são como os livros de auto-ajuda: uma bengala para aqueles cujos pensamentos
capengam por falta de uso, mas que – até por isso mesmo -, não deixam de ter alguma
utilidade.
Uma das questões mais perversas
desses bordões é que suas receitas, em geral, incluem dentre seus ingredientes ‘generosas’
doses de preconceito adocicadas com algumas colheradas de mel de suspeita
qualidade: a ‘pretensa’ sabedoria neles contidas. Não posso imaginar, por
exemplo, uma mãe repetindo o provérbio em questão a seu filho adolescente. Ao
contrário, provavelmente, como ouvi recentemente de uma mãe “zelosa de seus
deveres”, ela diria: “Troca essa bermuda toda amassada, rapaz! Vão pensar que
você não tem mãe (pra cuidar de suas roupas)”.
Às meninas é incutida a ideia de
que precisam se enfeitar para serem aceitas, até por si mesmas. Os meninos, ao contrário, são aceitos pelo
simples fato pertencerem ao sexo masculino, ou melhor, serem “homens com H
maiúsculo”, pois se não o forem, dá-lhe provérbios, piadas e toda sorte de
discriminações quiçá mais violentas que as reservadas às mulheres...
O fato é que, feliz ou
infelizmente, cresci ao som de ditados, nos quais minha mãe, em sua santa
ingenuidade de órfã precoce, sempre foi pródiga. Contestadora, às vezes eu
reagia à ‘lição’ e era colocada “de castigo” pelo desrespeito, sentada em um
banquinho (até confortável, diga-se de passagem), para pensar “sobre tudo isso”!?. E eu pensava mesmo! Pensava tanto que me habituei a refletir a
respeito de tudo que ouço-leio-vejo-sinto, embora não seja muito afeita a
sentar em banquinhos... Pensava tanto, que não via o tempo passar e, até hoje
me entrego com prazer a essa espécie de “solitude criativa”.
Enfim, acredito válido considerar
a lembrança da ‘máxima’ em questão, como uma sincronicidade, o que me levou a
conceber uma nova série em meus escritos, a que intitularei “Minha mãe dizia”. Embora meu baú de relíquias da espécie “ditos
populares” esteja razoavelmente sortido, as sugestões dos amigos e amigas com
certeza mais o enriquecerá.
Namastê!
sábado, 1 de fevereiro de 2014
"O Mundo da Lua"
O Mundo da Lua
Há exatos
trinta anos
você
atravessou meu caminho
sequer um
carinho trocamos
a não ser
aquele beijinho
que
minh’alma perfurou
minha lucidez
sombreou.
Ah, o
dourado perfeito
daquele tufo
em seu peito
o verde-mar
tão profundo
daquele
olhar vagabundo
que por
pouco, muito pouco
não
transforma o meu caminho
mas balançou
o meu mundo.
Chorei rios
mares oceanos
de uma
paixão desmedida
plena de
atos insanos
de dia até
disfarçava
à noite
soltava o pranto
e os alvos
lençóis molhava.
Penélope
revivida
confeccionei
muitos mantos
mas você,
Odisseu, não voltou
sequer
notícias mandou
e eu
prossegui na vida
a tecer o
cotidiano
do
sofrimento esquecida.
Há exatos
trinta anos
você não
chegou a ser meu
eu não
cheguei a ser sua
mas por baixos
e altiplanos
por dias
meses e anos
andei no
Mundo da Lua.
Você não
chegou a ser meu
Eu não
cheguei a ser sua
Mas por dias
meses anos
Andei no
‘mundo da lua’.
Publ. na
Antologia “O Mundo da Lua” que está sendo lançada hoje (01/02/2014) em Lisboa, Portugal, pela Lua de Marfim
Editora, em grande festa comemorativa de seu aniversário. Ainda não tive acesso aos nºs das páginas
respectivas.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Exortação para a Paz
Exortação
para a Paz
Suzete Carvalho*
Em célebre discurso na Assembléia
das Nações Unidas, José Mujica, Presidente do Uruguai, referiu-se a uma das
mais famosas assertivas de Einstein: “Não há maior absurdo do que querer mudar
os resultados repetindo sempre a mesma fórmula”. Refletindo a respeito dessa sábia afirmação,
me ocorreu que nem sempre nos apercebemos do quanto somos repetitivos, seja em
nossas palavras, seja em nossas ações.
De alguma maneira, o dizer
científico de Einstein se encontra com a sabedoria arquimilenar de algumas
religiões, como o hinduísmo, o budismo e o próprio cristianismo, que utilizam
os mantras como fórmulas que, de tanto serem repetidas, se aninham em nossos
corações e nossas mentes, influenciando nossa forma de ser e de estar no mundo.
Como lembra minha conselheira Dª
Nena, diante desses ensinamentos é necessário que fiquemos alertas a respeito do
uso da palavra ‘violência’ que vem sendo repetida à exaustão, a ponto de se
impregnar inclusive em nossas emoções e corromper nossos relacionamentos.
Amplificado pela mídia, o medo nos coloca em um neurótico ‘estado de atenção’,
que nos faz reagir a qualquer movimento que nos pareça estranho.
Por outro lado, em que pese seu
lado consumista, consola-nos saber que ainda há esperança de reverter esse
quadro: as festas de fim de ano, especialmente as natalinas, tiveram o condão
de fortalecer a palavra ‘Paz’, a mais enunciada nos votos reciprocamente
trocados ente familiares e amigos(as), numa espécie de clamor oriundo do mais
profundo de nosso ser que encontrou eco mundo afora, com a rapidez de um raio,
ainda que virtualmente.
Embora a afirmação possa parecer
absurda às pessoas que não militam nas Redes Sociais, testemunhei pessoalmente
essa ‘força’ quando, ao postar à Zero Hora do dia primeiro do ano uma foto em
que fazia um pequeno ritual pela Paz no Mundo ao lado de minhas netas, fui contemplada
em poucos minutos com o ‘retorno’ (por via de ‘curtidas’ ou comentários), de amigos(as) residentes ou em viagem de
férias, em várias partes do planeta como, entre outros(as), Bibhu Prasad,
nepalense que reside em Dubai e Jô Ramos, jornalista carioca em passagem por
Paris de onde segue para Lisboa em seu mister de divulgar o trabalho de escritores e escritoras brasileiras .
Enfim, possamos nós fazer em 2014
uma verdadeira “exortação à Paz”, como propôs em comentário à minha postagem, o
arquivologista carioca, pesquisador de Cultura, Religião e Movimentos Sociais,
Glauco Rocha, adotando-a como um verdadeiro mantra ou, se preferirem, como a
fórmula a ser repetida e repetida até que se instale em nós de forma a fazer
com que “sejamos nós a paz que desejamos ao mundo”. Enfim, para usar as
palavras do Dalai Lama em sua Mensagem
de Ano Novo, enviada de Karnataka, na Índia: “...tentar criar a paz interior em
primeiro lugar dentro de nós e em seguida, compartilhar com outras pessoas para
construir um ano feliz”.
*A autora escreve neste espaço
toda segunda sexta-feira do mês.
Publ. no Jornal “Gazeta do Ipiranga”
nº 2828, 10/01/2014, pág. C-6.
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
De começos e Recomeços
Crônica
De Começos e Recomeços
Suzete Carvalho
Diz a Filosofia Budista, que a
lei da impermanência, ou se preferirem, da transformação, é a única verdade que
os seres humanos realmente podem conhecer e à qual estão inexoravelmente atrelados. O tempo passa (ou nós passamos por ele), com
a rapidez de um raio. Assim, lá vamos
nós outra vez encarar um Novo Ano que, acreditamos, terá o condão de, por si
só, ser melhor, mais próspero e auspicioso do que o presente.
Esquecidos de que devemos valorizar
e dar graças às boas experiências vivenciadas, nos lançamos ao novo tempo com a
avidez de um lobo faminto. Esquecemos
que somente somos o que somos ou temos o que temos, porque alguém criou,
começou, trabalhou para que as coisas fossem como são, ainda que esse alguém
tenhamos sido nós próprios, e que não há como recomeçar sem levar conosco esse
lastro de entrega e doação que recebemos como dádiva.
Ainda que Aristóteles não nos
houvesse deixado a reflexão, sabemos, instintivamente, que o ser humano é um
“animal político”. Político e gregário,
ou seja, queiramos ou não, necessitamos e dependemos de outras pessoas, para
que possamos sobreviver com um mínimo de dignidade. E a questão política, como
lembra bem a tempo e a propósito, minha Conselheira Dª Nena, nos leva à
complexa questão do Poder.
“Poder” que sempre acreditamos
saber exercer melhor do que aqueles que o detêm, seja no âmbito familiar, ou
institucional, onde se enquadram as organizações de todas as espécies, seja no
mundo político propriamente dito, nacional ou internacional. Parafraseando o antigo ditado popular, hoje
“de político e de louco, cada um tem um pouco”, o que nos leva ao tema inicial,
já que o próximo ano será pródigo em recomeços políticos, cujo sucesso (ou
retrocesso) dependerá de todos(as) e de cada um(a) de nós, independente do
envolvimento direto que tenhamos com o poder.
Enfim, espero que as necessárias
transformações que todo recomeço comporta, nos encontrem conscientizados de
nossas próprias fraquezas e grandezas e, portanto, aptos a fazer a nossa
parte, levando como ponto de partida (do
ano que se vai) ou de entrada (de um novo tempo) as sementes plantadas e
cultivadas por nossos antecessores, que estejam dando bons frutos. Feliz Ano Novo à comunidade ypiranguista e à
sociedade como um todo, nas quais tenho a felicidade de estar incluída.
*A autora é pós-graduada em
Jusfilosofia e Mestre em Direito pela USP. Ex-Diretora Cultural do CAY é também
patrona da Biblioteca-Centro de Estudos.
Publ. in Revista do Ypiranga, set/dez/2013, pág. 27
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
De laços e nós
DE LAÇOS E NÓS
Suzete Carvalho*
Sempre imagino organizações como a AFPESP – que adotam a
nobre missão de “servir” - como um colar trabalhado artesanalmente na mais fina
filigrana, onde cada elo se une, delicada, mas firmemente, ao outro. Mais antiga a joia, maior o valor agregado
pelos cuidados em mantê-la íntegra, pelo incansável zelo daqueles a quem
compete preservá-la, seja por função de ofício, seja pela opção generosa de
doar-se voluntariamente.
Há que convir, entretanto, que toda corrente – sim, é disso
que estamos tratando: uma corrente de solidariedade – corre o risco de se
enroscar se não a mantivermos aberta (ao diálogo), livre para desempenhar seu
precípuo papel (de ligação) e, principalmente, se não nos dispusermos a
respeitar e aceitar as sutis diferenças entre as partes que compõem todo
trabalho artístico.
Desatar nós e criar laços, essa a verdadeira e difícil arte
do relacionar-se. Não por outro motivo,
antigas culturas da polinésia cultivavam um ritual pré-nupcial, no qual as
mulheres deviam desfazer nós muito elaborados, como metáfora para os problemas
a enfrentar. Já, quanto aos laços, requerem muita ‘coordenação’, haja vista a
dificuldade que as crianças têm para aprender a ‘amarrar’ os cordões de seus
próprios tênis e sapatos.
Posta a questão de forma mais objetiva, poder-se-ia dizer que
toda organização, em especial aquelas cujos estatutos adotam o sistema de
trabalho voluntário para dirigentes e conselheiros, para que possa cumprir com
fidelidade suas funções, a par de ser coordenada com competência, necessita
solidariedade e desprendimento por parte dos membros que a compõem, vale dizer,
apoio mútuo, pois somente dessa forma manterá sua integridade.
Enfim, considerando que estamos sob o signo do Natal, como
lembra minha sábia conselheira Dª Nena, espero que consigamos nos despir de
nossas vaidades, oferecendo a todos, associados e companheiros, o melhor que há
em cada um(a) de nós, ornamentado com o mais belo e colorido laço (de união)
que nossa arte pessoal – embora tão diversificada - nos permita.
*A autora é associada da AFPESP, ex-professora universitária,
ex-presidente de Associação de Classe e tem centenas de matérias publicadas.
Pós-graduada em Filosofia do Direito e Direito do Trabalho (USP). http://novaeleusis.blogspot.com
**Publ.in Folha do Servidor Público, dez/2013, pág.21.
sábado, 14 de dezembro de 2013
A Idade Apura a Visão
COLUNA DA SUZETE
A
Idade Apura a Visão
Suzete Carvalho*
Há algumas décadas, ao visitar as
Cataratas do Iguaçu, fui tomada de súbita emoção ao imaginá-las como um apelo
da Natureza, a jorrar lágrimas torrenciais, premonitórias das (in)consequências
da sistemática e desmedida ambição humana que pode levar a verdadeiros
cataclismos. Em socorro à tristeza que já me ia invadindo ao escrever essas
linhas, literalmente ‘cai em minhas mãos’ o “Poema ao rio Iguaçu” do multifacetado
artista Solivan Brugnara (fotógrafo/escultor/poeta) do qual tomo a liberdade de
transcrever os dois versos finais: “/mas tua rosa flor branca/abre-se em Foz do
Iguaçu”.
Acredito que caiba aqui lembrar
que a palavra ‘catarata’ vem do grego katarkaktes
(kata, para baixo) e arkattein (golpear forte). Já
‘cataclismo’ vem de kata e klysein, ‘lavar, inundar’, significando
grande desastre, convulsão social ou de terreno, inundação. Minha conselheira Dª Nena, não perde o
momento para me chamar às falas: “Pensei que você fosse falar em poesia e você
me sai com etimologia? O que, afinal, tudo isso tem a ver com o tema que você
elegeu para a crônica?”.
- “Assim, você me faz perder o
encadeamento das ideias”, reclamo, mas por via das dúvidas, vou direto ao ponto,
ou seja, tentar entender porque o passar do tempo nos leva a ir perdendo
(deixando cair) nossa capacidade de enxergar (‘catarata’, como opacidade da
lente do olho). Se o termo ‘queda’ fosse levado ao pé da letra, poderíamos
pensar na atração exercida pela Lei da gravidade, mas, claro!, esse não é o
caso. Estaria então, nosso corpo (já que não há como separá-lo da mente),
tentando ‘não ver’ a dolorosa realidade que, de alguma forma, ajudamos a construir?
Bom é lembrar, porém, que a
catarata (ocular) não somente é reversível, como também que as lentes
implantadas nessa cirurgia, ajudam os pacientes a enxergar melhor do que antes
da patologia, além de, segundo minha oftalmologista, protegerem contra um
eventual avanço de uma outra doença oftalmológica séria: o glaucoma. Vale dizer que, se ‘encararmos’ o fato de que
sempre nos é dada a oportunidade de ‘ver com outros olhos’ a realidade,
poderemos utilizar os avanços tecnológicos como alavanca para ‘depurar’ nossa
visão de mundo e, como o poeta, vislumbrar a “rosa flor branca” da Paz que se
abre à foz desse caudaloso rio que atravessamos.
Enfim, fico pensando que alguns
que se acreditam políticos e tentam deformar a realidade que o Brasil atravessa,
talvez devessem presentear a si mesmos com uma cirurgia de catarata,
aproveitando o período de Natividade para fazer ‘renascer’ (apurar) sua visão e
dar Graças por tantas bênçãos recebidas.
*A autora escreve neste espaço
toda segunda sexta-feira do mês.
**A ilustração é de Danilo
Marques, cujos trabalhos estão disponíveis na pág. ILUSTRADOR DANILO MARQUES do
facebook e no site www.danilomarques.com.br
Publ. in Gazeta do Ipiranga,
13/12/2013, Cad. A-4
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